Uíge, a vida em marcha lenta

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O município do Alto Cauale, na província do Uíge, é daqueles cujo desenvolvimento está refém do mau estado das vias que lhe dão acesso. A equipa de reportagem do Jornal de Angola percorreu os cerca de 220 quilómetros até Cangola, a sede municipal, e constatou no terreno o impacto provocado pela situação de quase isolamento da circunscrição.
São cinco horas da manhã e os cerca de 120 quilómetros de estrada que ligam o município do Negage à comuna da Alfândega, no município de Sanza Pombo, têm de ser percorridos em mais de quatro horas, porque o velho asfalto, aplicado no período colonial, está totalmente degradado. Crateras enormes obrigam o automobilista a reduzir a marcha e a caminhar aos ziguezagues.
Chegados a Alfândega, depois de um breve descanso, começa outra odisseia: a de transpor os cerca de 62 quilómetros até à vila de Cangola, sede municipal do Alto Cauale, passando pela comuna de Caiongo. A estrada terraplanada obriga à maior prudência, pois a via está esburacada e coberta de lama resultante das últimas chuvas.
Sensivelmente às 14h23, estão por fim percorridos os cerca de 220 quilómetros que separam a cidade do Uíge da vila de Cangola. Passaram-se nove horas de uma viagem penosa e cansativa.
A movimentação de pessoas e viaturas, naquela via, é fraca. Como resultado, o comércio em Cangola é pouco animado. A maior parte dos estabelecimentos comerciais tem as portas fechadas e os poucos que funcionam têm pouca clientela. As más condições de circulação da principal via de acesso, ao dificultar o contacto com o exterior da vila, condicionam também a própria qualidade de vida das pessoas, já que limitam os seus horizontes e as opções de consumo.
O administrador municipal do Alto Cauale, Luís dos Santos, disse à reportagem do Jornal de Angola que vários sectores da vida do município enfrentam dificuldades de ordem material, funcional, financeiro e de recursos humanos.  “Ao longo destes anos têm sido direccionados poucos projectos para este município. Com os escassos recursos financeiros que nos são colocados à disposição, através do processo de descentralização financeira e do programa de combate à fome, procuramos intervir nos aspectos mais prioritários, como a saúde e educação. Mesmo assim, muito ainda está por ser feito neste município”, disse.
Na sua óptica, para além da escassez de recursos financeiros, faltam recursos humanos qualificados para pôr a funcionar, na plenitude, os sectores público e privado. Luís dos Santos valorizou a necessidade de os projectos propostos pela administração municipal serem aprovados e financiados. “O pouco que temos feito não é suficiente para inverter a situação social e económica do município. É necessário que sejam aprovados e financiados os projectos que remetemos ao Governo da província, para podermos intervir de forma mais visível na solução dos vários problemas e dificuldades que a população enfrenta”, afirmou.
Aproveitando a oportunidade de estar a falar com a equipa do Jornal de Angola, lançou um apelo aos empresários nacionais para investirem no município. “Aos empresários da província, e outros, gostaríamos de dizer que temos as portas abertas para investimentos no município”, disse.

Escolas  insuficientes

O sector da educação no município do Alto Cauale funciona com grandes dificuldades. As salas de aulas são insuficientes para as necessidades e há, igualmente, um número reduzido de professores. O município não dispõe de boas condições de alojamento e de trabalho para os professores provenientes da capital da província.
Em Cangola e nas comunas do Bengo e Caiongo funcionam escolas do primeiro e segundo ciclo do ensino secundário. As 70 escolas do ensino primário existentes funcionam em instalações de adobe, cobertas com capim, em igrejas e debaixo de árvores.
O governo construiu uma escola de 12 salas de aula na sede municipal, para albergar, a partir do próximo ano lectivo, o segundo ciclo do ensino secundário, e duas escolas de seis salas nas sedes comunais do Bengo e Caiongo.
O processo de ensino é assegurado por 471 professores, número considerado insuficiente, tendo em conta os mais de 9.800 alunos matriculados no ano lectivo findo. Existe um grande contingente, não contabilizado, de crianças fora do sistema de ensino.
De acordo com o administrador, são necessárias 300 novas salas de aula e pelo menos mais 400 professores, para normalizar o funcionamento do sector da educação no município. A maioria dos professores lecciona na condição de colaboradores.
“O número de salas de aula e de professores não é suficiente. No ensino primário a maioria das escolas está localizada nas aldeias, onde as salas de aula são adaptadas à sombra das árvores, casas feitas de adobe e cobertas de capim e em igrejas”, esclareceu.
Luís dos Santos adiantou que está prevista a construção de mais 30 salas de aula, até ao primeiro trimestre do próximo ano. Prevê-se também o fornecimento de chapas de zinco às escolas das aldeias, para substituir a cobertura de capim.

Saúde com problemas

Em todo o município existe apenas um centro de saúde, instalado na vila de Cangola, seis postos de saúde nas sedes comunais e nas aldeias de Marinda, Quizauka, Gunza e Kaunga. A rede municipal de saúde é servida por três ambulâncias. Não existindo nenhum médico, a assistência sanitária é assegurada por seis enfermeiros com formação básica. Com estatísticas como estas, a população está impossibilitada de ter uma assistência sanitária de qualidade e em tempo oportuno.
“Há insuficiência de postos e centros de saúde, falta de médicos e enfermeiros e de medicamentos. Tudo isso tem contribuído para a prestação de uma assistência sanitária de fraca qualidade”, referiu.
O administrador defende a construção de postos de saúde em cada regedoria, centros de saúde nas sedes comunais do Bengo e Caiongo e um hospital municipal na vila de Cangola. Na sua óptica é ainda necessário o envio de um médico especializado em clínica geral, um pediatra, um cirurgião e 44 enfermeiros com formação superior e média.
“Em cada posto de saúde funciona apenas um enfermeiro, e quando este está impossibilitado de trabalhar o posto fecha as portas e a população fica sem assistência sanitária. Nos casos de doenças que ultrapassam a capacidade dos enfermeiros, os pacientes são encaminhados para os hospitais municipais de Sanza Pombo e Negage ou para o Hospital Geral do Uíge”, salientou.

Energia e água

Na vila de Cangola foi instalado um gerador com 45 Kva de capacidade. Nalgumas noites, a vila fica às escuras por falta de combustível. Nos bairros periféricos, os populares utilizam candeeiros a petróleo ou pequenos geradores de electricidade. O uso incorrecto dos candeeiros e geradores tem provocado incêndios, de que resultam, amiúde, ferimentos graves e até mortes.
“O grupo gerador não tem capacidade para fornecer energia a toda a vila. As comunas não têm electricidade. O recurso aos candeeiros e pequenos geradores, infelizmente tem causado alguns incidentes, como é o caso de um professor que morreu asfixiado com o filho, devido aos gases libertados pelo gerador”, relatou o administrador.
Há dois anos foram instalados sistemas de captação, tratamento e distribuição na vila de Cangola e nas sedes comunais do Bengo e Caiongo. Nesta última e em Cangola o sistema está avariado e a população voltou a consumir, directamente, a água dos rios e cacimbas.
“Neste momento só a comuna do Bengo tem água potável a jorrar das torneiras”, disse o administrador, que acrescentou que o seu executivo está empenhado na recuperação dos sistemas de captação e abastecimento de água potável de Caiongo e Cangola, para prevenir o surgimento de doenças derivadas do consumo de água não tratada. Para já, as autoridades sanitárias têm distribuído algumas soluções para desinfecção da mesma.

Investimento na agricultura

A agricultura é a principal actividade de sustento das populações do município do Alto Cauale, embora praticada de forma rudimentar. Na circunscrição existem 25 associações de camponeses. “A Administração Municipal possui um tractor, com as respectivas alfaias, que vai colocar à disposição das associações para permitir o cultivo de vários hectares de terra e fazer com que, nos próximos anos, a agricultura deixe de ser de subsistência e passe a uma actividade também comercial”, concluiu Luís dos Santos.
O município do Alto Cauale possui uma população estimada em 75 mil habitantes, distribuídos pela sede municipal, Cangola, e as comunas do Bengo e Caiongo. Administrativamente está subdividido em 22 regedorias e 118 aldeias.

(Jornal de Angola, 15/12/2010)

NR: Eis o retrato de Angola a não sei quantas velocidades. Luanda em ascensão rapidíssima, outras cidades como o Huambo, Benguela, Lubango em ritmo crescente e províncias inteiras como por exemplo o Zaire ou o Uíge, em marcha lenta, quase parada. No vasto território angolano há não sei quantas angolas …

One thought on “Uíge, a vida em marcha lenta

  1. O municipio de Cangola ja não é aquele que vimos ontem,o municipio hoje encontra se numa fase de desenvolvimento. Graças a paz o municipio tornou se num verdadeiro canteiro de obras, apesar de se registar algumas obras não concluidas. Os municips vêm a pedir ao governo para asfaltarem a nossa via que nos da acesso a provincia, a falta de banco para o deposito dos nossos dinheiros somos obrigados a ir para o municipio visinho Sanza pombo onde alguns são asaltados.

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