Natal de 1971 em Quimaria

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Num livro de memórias e ficção que penso um dia publicar tenho uma passagem intitulada “O Natal em Quimaria”, que nesta quadra natalícia pretendo partilhar com os leitores do blog e especialmente os camaradas da CCaç. 3413.

Na vida de cada um há sempre um Natal diferente, mais ou menos emotivo. Este passou-se longe no tempo e na distância.

Na noite de Natal de 1971, quando a saudade da família e da terra tocava mais perto encontrava-me em convívio com o Firmino e mais dois companheiros e fritávamos bifanas provenientes da caçada da tarde, num fogareiro a petróleo, ao mesmo tempo que as íamos comendo regadas com umas cervejas Nocal.

Ao nosso lado estava um velho rádio leitor de cassetes a pilhas, herdado dos «velhinhos» recém partidos, que passava uma gravação de Paul Mauriat.

O Firmino era o enfermeiro que alinhava comigo nas saídas do grupo de combate. Era também um veterano da tropa, pois quando estava para passar à disponibilidade apanhou uma “porrada” que o fez descer a soldado e o mobilizou para África. Andava sempre deprimido e pensativo e a sua melhor companhia era o silêncio.

Seria perto da meia-noite, quando se ouviu um estrondo vindo das profundezas da noite.

Gerou-se uma confusão de gritos e ordens e cada qual procurou um buraco onde se meter.

As luzes tinham-se apagado e o leitor tocava agora o tema de Casablanca.

Os «maçaricos» que estávamos a instruir metiam as balas na câmara e iniciavam a sua primeira guerra, disparando em todas as direcções.

Tanto eu como o meu companheiro procurámos atingir rapidamente os nossos postos de responsabilidade: o posto de transmissões e o posto de enfermagem.

Os oficiais corriam pela parada a gritar ordens que ninguém ouvia. Os furriéis gatinhavam empurrados pelos estrondos e ganhavam as suas secções.

E o capitão de pijama, o tenente em cuecas e os alferes aflitos e a praguejar.

– Onde estão os gajos, vamos a esses gajos!

O capitão queria saber de onde vinha o fogo. Onde era a sua guerra.

– Façam fogo! Disparem à vontade! Fogo nesses cabrões!

As Bredas dos postos de vigia engoliam as fitas de balas e vomitavam-nas na direcção da noite iluminada pelos clarões.

Transmiti o acontecimento a um major que me apareceu em directo, mas as armas calaram-se logo de seguida.

No comando do sub-sector, o coronel somava mais uma vitória e o direito a uma promoção.

Que belo Natal! Em vez de presentes e bolo-rei apanhamos com uma festa de tiros e morteirada, que mais parecia um arraial.

Embora se dissesse que tinha sido um ataque a sério, parece que nunca ninguém chegou a saber do que se tratou. O mais provável é que tivesse sido a deflagração de uma velha mina ou granada, por algum animal à procura do jantar.

Em Quimaria não há civis nem aldeia e tudo é um deserto de capim e savana onde se vêem elefantes, pacassas e leões.

Numa das casernas houve quem improvisasse uma espécie de presépio, que até tem Árvore de Natal. Serve de atracão e veneração. As figuras são toscas e assemelham-se a soldadinhos de chumbo, vestidos com camuflado.

Foi assim o nosso Natal de 1971, nos confins de Angola, perdidos num mundo onde o perigo espreitava a cada passo.

José Rosa Sampaio

7 thoughts on “Natal de 1971 em Quimaria

  1. Força amigo Sampaio. Cá para fora com essas memórias de preferencia em livro.
    Enquanto isso não acontece, que tal em forma de blog?
    Gostei de ler este texto, excelentemente bem narrado.
    Nesse distante Natal de 1971 ainda me encontrava na Metrópole, embora já na vida militar, tinha terminado a recruta na fria cidade de Vila Real.

  2. sim vou tentar escrever alguma coisa mas vou só escrever que eu ser vi em angola do meio mes de maio de 1965 e nós ficamos num lugar que não era bom esse lugar era de nóqui a sao salvador lufico tomboco ambriz ambrizete e santo antónio do zaire,nosso acampamento [M´´PALA]ficamos em m´´pala mais ou menos do dia 20 de maio de 1965 até o dia 3 ou 4 de dezembro de 1966.claro que íamos a m´pozo todo o dia cabeço do top todo o dia no canga talvez de 15 em 15 dias sao salvador de 2 em 2 meses a nóqui 3 vezes por semana lufico passávamos lá também para ir em ambriz e ambrizete e claro em tomboco,que dizer que ficamos esse tempo todo patrulhamos tudo que era lugar demos muito e muito prejuízo ao in.e como?e eles só fugiam da gente poderia ser outra época ou nós tivemos sorte?mas só que aconteceu em 18 ou 19 de dezembro de 1966 a companhia que nos foi render teve uma emboscada lá para o lado de m´pozo e sofreu 12 ou 13 baixas?a que os senhores iam só com uma ou 2 viaturas,talvez para economizar gasolina não sei mas aquele lugar menos de 6 ou 7 ou 8 viaturas era muito perigoso o in.estava todo o santo dia a nos vigiar os senhores não tenham a menor dúvida porque nós víamos as pegadas deles nas picadas fresquinhas claro sempre descalços e sem camisa nunca vi um in. com farda e se diziam quase todos majores porque quando a gente prendia eles,eles vinham todos urinados sem a gente fazer mal algum e não fazíamos no começo quando nós éramos maçaricos,depois nós já cacimbados eu não lembro mais. agora outra coisa atacaram canga o acampamento,nao venham dizer que ficava perto do congo, quem ficava perto do congo era nóqui e luvo deveria ter muitos outros lugares mas eu só posso dizer aquilo que vi canga não ficava assim perto do congo para chegar lá a pé era longe e deveria levar mais de 20 horas ou mais nunca fui lá a pé mas dormi muitas vezes no canga no m´pozo e nesses 2 lugares tinha muito rato e mosquito m´pala não tinha nem mosquito e muito menos rato porque se tivesse ratos nós os mataríamos assim como tinha muita hiena e toda a bicharada nunca vi um lugar para ter tanto bicho tinha de tudo me desculpem mas a real e não quero de maneira ofender ninguém,cada um carregou sua cruz como pode ok

    • escreva logo o livro mas verdadeiro porque esse lugar de bessa monteiro tem muito para contar mas já a partir de 1968 os militares oficiais eram mais políticos do que militares e foi ai que a gente perdeu muito terreno para o in. o in. deu conta disso ai ele cresceu e nós perdemos isso a minha opiniao ok.

  3. 1- Lamento contrariá-lo mais uma vez, mas em Quimaria, nesse Natal de 71, não havia “bredas”, nos postos de sentinela e eram quatro, com o 2º grupo de combate de serviço. Havia sim, três homens por cada posto de sentinela ( e eram 4) cada um com a sua “G3 ” e respectivas
    munições. Até lhe adianto mais: a primeira rajada saíu da arma do “Matos”. Quer mais??? –
    2- Os furrieis não gatinharam: sairam de peito aberto para a “parada” e foram direitinhos ao encontro dos homens dos pelotões respectivos.
    3- esses “maçaricos” aguentaram “a pé firme” 18 meses em Quimaria . É obra não é ?

    De qualquer modo um abraço para si.

  4. Olá gente de Quimaria.
    Se havia Breda ou não, já pouco import. Quarenta anos passados já não permite que as lembranças sejam cristalinas. Mas de facto Breda não deveria ser, pois me parece que a Breda não era de fita, como escreve o camarada Sampaio. Conheci QUIMARIA, pois por lá passei inúmeras vezes entre fins de 1965 e Fevereiro de 1967. Foi nesse bendito domingo, dia 12 de Fevereiro, que lá passei pela última vez, a caminho de Malele, nafronteira norte com o ex-Congo belga.
    Catorze meses em QUIBALA, trinta e tal km a sul de Quimaria. Ainda era pior. Estávamos mesmo isolados de tudo. Ambriz e Toto eram os locais aonde recorríamos para os diferentes tipos de abastecimento. O resto das andanças eram a pé. As matas Sanga, Luaia e Lemo foram os castigos que nos destinaram. Mas o perigo não estava só nas matas. Ao 6º dia de Quibala, 40 km abaixo do aquartelamento, em plena picada desarvorizada uma hora e tal debaix. Um morto e 7 ou 8 feridos. Foi um “bom” começo que serviu para activarmos todos os sentidos – visão audição, olfacto, intuição, etc. – que passaram a “funcionar” lindammente até final, pois nos restante meia dúzia de confrontos que tivemos nada de grave haveria de acontecer. Tivemos sorte, pois a zona era do pior que havia. Uma guerra estúpida como todas as guerras, em que os soldados de ambos os ladoiam sendo carne para canhão por causa de quem estava fora dela a dirigi-la.
    Quanto à ideia de Rosa Sampaio escrever sobre a realidade que enfrentou enquanto passou por Angola, acho bem que o faça. Mas não perca tempo que o tempo para as nossas idades já corre velozmente. Permita-me uma opinião: Não enverede pela ficção. Procure antes descrever o que foi verídico, pois isso irá, por certo, ajudar futuramente os nossos historiadores.
    Saudações de paz em lembranças de guerra.
    Sérgio O. Sá

  5. Caros camaradas,
    tambem por ai andei em 1971 fiz parte da companhia 2695, do Bat 2910, o lugar não era facil e a agua de má qualidade,o isolamento era total, salvava-nos a boa camaradagem,assim como as saidas que fazia-mos quase diariamente para aliviar o stress.
    um abraço para todos os que por ai sofreram.

    A. Pereira

  6. Companheiros de luta. Estive em Quimaria e Benza de 1967/1968, primeiro c/ o Cap. Gonçalves e a seguir o Comandante Valdemar D.C.com quem convivemos no dia a dia. Quem por ali esteve, p.f. contactem comigo “Fernando Chrystëllo- 915855545 /261713013”.Desculpem aproveitar este Blog. Saudações a todos.

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