A “Passionária” de Angola

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“La Passionaria”, de seu nome Isidora Ibárruri Gómez (1895 – 1989), foi uma figura mítica do partido comunista de Espanha, tendo-se destacado na luta contra a ditadura do general Franco (1892 – 1975).

Também Angola, teve a sua “passionária” que desempenhou um papel importante na luta “intestina” do MPLA, depois da independência de Angola.

Sinopse: Em Portugal, poucos saberão quem foi Sita Valles, a jovem revolucionária fuzilada há mais de 30 anos em Angola. No entanto, a sua aura continua viva entre as gerações de estudantes universitários comunistas e de outras esquerdas que a conheceram, no início dos anos 70, sobretudo nas faculdades de Medicina de Lisboa e Luanda. Foi uma grande líder do movimento estudantil e um quadro estimado da União dos Estudantes Comunistas.
Sita Valles teve uma vida muito breve (1951-1977). Mas intensa. Desde que tomou consciência das injustiças do mundo, não mais deixou de ser um turbilhão político. Muito activa, quer na clandestinidade, quer em democracia, ela lutou por uma sociedade melhor.
Sita Valles era uma «luso-angolana». Nasceu em Cabinda, quando ainda pertencia ao império colonial português, e depois da independência optou pela nacionalidade angolana. No 25 de Abril de 1974 estudava Medicina em Lisboa, mas no Verão Quente regressou à que pensava ser a sua terra. Na República Popular de Angola defendeu a ortodoxia soviética em supostos tempos de democracia. Ali acabou por ser acusada, sem direito a contraditório, de ser um dos cérebros do alegado putsch, de 27 de Maio de 1977. E ali foi fuzilada, pensa-se, em Agosto desse ano.
Três décadas depois da sua execução – juntamente com José Van Dunem e Nito Alves -, a jornalista Leonor Figueiredo, autora de Ficheiros Secretos da Descolonização de Angola (Alêtheia Editores, 2009), investigou, recolheu testemunhos, procurou memórias antigas de uma jovem mulher e da sua história brutal, que se tornou num mito de uma geração.

Exerto: «Diz-se que Sita Valles foi fuzilada às cinco da manhã do dia 1 de Agosto de 1977. Um tiro em cada perna, um tiro em cada braço. O corpo caiu na vala previamente aberta, antes de desferido o disparo mortal. Ou o que restava de Sita, após as torturas e a orgia de violações pelos homens da Direcção de Informação e Segurança de Angola (DISA), a polícia política do regime. Um tractor aplainou o terreno. Diz-se também que a bela, elegante e inteligente comunista de origem goesa – uma portuguesa de coração africano – se manteve rebelde até ao último momento. Dizia que não tinha medo e que quanto mais depressa a matassem melhor. Ao recusar ser vendada, obrigou os atiradores do pelotão de fuzilamento, a enfrentarem o seu olhar, antes de apertarem o gatilho.

Militante do Partido Comunista em Portugal e do MPLA em Angola, Sita Valles é hoje um nome maldito para ambos os partidos e a sua vida quase um enigma em ambos os países. Acusada de ser um dos cérebros do chamado “golpe Nito Alves”, em 27 de Maio de 1977, seria presa em Luanda, violada e torturada e, três meses depois, fuzilada. O percurso dessa figura polémica é reconstituído num livro, “uma longa reportagem”, da jornalista e escritora Leonor Figueiredo, com recurso a documentos e dezenas de testemunhos.

Passaram 33 anos e ainda hoje não se sabe onde estão enterrados os corpos de Sita Valles, do seu irmão Ademar (morto um ano depois) e de um número indeterminado de vítimas (“entre 20 mil e 80 mil, incluindo muitos portugueses”). Sita Valles continua a ser tabu no país que escolheu como seu e onde as circunstâncias da morte a transformaram num mito. Recusou ser vendada e olhou o pelotão de fuzilamento de frente, um comportamento que impressionou os inimigos.

Leonor Figueiredo evoca os dias de 1971, quando Sita Valles chegou a Lisboa, vinda de Luanda, para estudar Medicina. “Fui encontrar muitos antigos colegas, hoje médicos, que se sentiram marcados pela coragem e pelo espírito destemido dela”, diz a autora. Leonor Figueiredo, que também escreveu o livro Ficheiros Secretos da Descolonização em Angola, falou com dirigentes do PC, como Carlos Brito, Zita Seabra ou Raimundo Narciso (hoje todos fora do partido), que confirmaram a impetuosidade de Sita Valles, então dirigente estudantil . Em 1975, decidiu regressar a Angola para ajudar o MPLA no conflito com a FNLA e a UNITA. Após a independência, o seu percurso começa a divergir até culminar nos acontecimentos de 1977.

Sita Valles, foi casada com José Van Dunem, alto dirigente do MPLA, também fuzilado no mesmo dia. Deixaram órfão, o filho de ambos, Ernesto, nascido em 8 de Fevereiro de 1977. «Demos-lhe o nome de ‘Che’ em homenagem a Guevara», escreve aos pais.

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