O papel dos aerogramas

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A correspondência entre os militares e as suas famílias, amigos, namoradas e madrinhas de guerra era realizada através deste suporte em papel designado “aerograma”. Os de cor amarela eram destinados ao correio entre as províncias ultramarinas e a metrópole, enquanto os de cor azul faziam o percurso inverso.

Dobrados sobre si mesmos, guardaram sonhos e promessas de amor, outras vezes medos e fantasmas. Foram o elo de ligação entre a distante e quente África e o cantinho mais recôndito do Portugal continental e insular.

Em qualquer ponto de África onde houvesse militares lá chegavam os aerogramas, também designados por “bate-estradas” ou “corta-capim” embora chegassem via aérea através dos pequenos aviões militares Dornier (DO).

Apesar de a morada do militar ser definida por código, o chamado SPM (Serviço Postal Militar) a entrega do correio nunca falhou, mesmo tendo em conta uma média de 10 toneladas por dia de correio que o SPM tratava e enviava. O indicativo postal do SPM era composto por 4 dígitos e nos primeiros tempos de guerra os três primeiros definiam a unidade militar e o último a província ultramarina. Moçambique tinha o 4, Angola o 6 e a Guiné o 8. Só com esta definição do último dígito era fácil ao SPM em Lisboa encaminhar o correio para a respectiva província. Quanto aos três primeiros dígitos e dado que a mobilização de unidades em África cresceu muito, houve a necessidade de rapidamente se alterar o critério inicial, mas mantendo sempre o último dígito definidor do território de destino.

Mas o correio não nos trazia só aerogramas, por vezes também vinham algumas encomendas mais pesadas. Essas eram sempre as mais desejadas. Lembro-me que uma vez a família me mandou uma lata com meia dúzia de paios conservados em azeite, que me proporcionaram e aos amigos uns pequenos-almoços e lanches especiais.

Nesta foto, na base táctica da Cecília (2/11/1971), no planalto do Luaia, província do Uíge, Angola, à porta da barraca de lona que foi a nossa “caserna” durante 6 longos meses, na cabana-escritório, coberta por ramagens que permitiam alguma sombra, estou a escrever um de entre as centenas de aerogramas que escrevi durante a comissão. .

NR: Quem quiser conhecer em detalhe  a história do SPM não deixe de ler o livro “História do Serviço Postal Militar” de Eduardo Barreiros e Luís Barreiros.

Mário Mendes

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