O mata-alferes

4 comentários

Todos os militares que participaram na guerra em Angola ouviram falar dele. De seu nome António Fernandes, desertou das fileiras do exército português e alistou-se na guerrilha.

A partir de 1962 foi o terror dos Dembos, uma região situada cerca de 100 km a nordeste de Luanda, caracterizada por densas florestas de difíceis acessos, onde as nossas tropas sofreram muitas baixas.

Há relatos que dão conta que pelo menos 15 alferes foram mortos com um só tiro, por este atirador exímio que escolhia aquela patente militar talvez para decapitar as colunas militares que por norma eram comandadas por alferes, ou talvez por vingança devido ao facto de nunca ter passado de furriel no exército português.

Foi a partir destes acontecimentos que os alferes e outros graduados deixaram de usar divisas na picada e deixaram de viajar no jeep que normalmente usavam, para se integrarem disfarçados noutro lugar das colunas.

Dois itinerários principais atravessavam os Dembos. A partir do Caxito, que era a porta de entrada da guerra a Norte, pois a partir dali só se podia viajar com escolta militar, um partia em direcção a Quicabo e Balacende, onde havia entre estes dois aquartelamentos um local muito perigoso,  denominado “sete curvas”, picada que ia para os lados de Nambuangongo e a famosa “Pedra Verde”.  O outro itinerário era a “estrada do café”, para Úcua, Piri, Quibaxe, Quitexe e Carmona (Uíge).

Na fronteira norte do Zaire, onde a nossa Companhia actuou, o comandante das forças da FNLA de que se ouvia falar era o Pedro Afamado. Não sei se foi ele quem comandou os diversos ataques que em 1972/74 aquele movimento desencadeou contra os aquartelamentos daquela região fronteiriça, mas se foi, não ficou com fama ou proveito, dado o fracasso dos mesmos. Quanto às minas na picada, essa guerra sem rosto que nos era imposta e que não podíamos vencer, há a lamentar a perda de muitas vidas. A nós tocou-nos chorar a perda do companheiro António Amaral Machado, a cuja memória aqui nos curvamos.

Mário Mendes

4 thoughts on “O mata-alferes

  1. Será que este Antonio Fernandes, teria por hábito atuar perto de Nambuangongo? Mais propriamente junto do Onzo? É que muito perto existia um perigoso morro, onde era habitual as N.T. sofrerem terriveis emboscadas e que tinha o tenebroso nome de ” Morro Mata Alferes”
    PS:Estou a passar á escrita a estória da minha ida ao H.M. de Luanda, que pode ser lida em:
    http://manuelaldeias.blogspot.com/

  2. Tinha 8 anos quando o meu irmão com 19 embarcou para Angola integrado na Ca103 B96 do tenente coronel Maçanita no ano de 1961.
    Segundo as informações oficiais faleceu no dia 15 de Julho de 1961.
    Além da notícia do seu falecimento pouco mais sei, tenho uma fotocópia da notícia dada na altura pelo jonal “O COMÉRCIO”, penso que enviada aos meus pais pelos seus companheiros de armas, que transcrevo:

    “O DESTINO MARCARA EM MOQUIAMA SAMA AO 1º CABO ARMINDO GRILO PAULINO MORTE GLORIOSA DE SALVAR COM A VIDA AS VIDAS DOS SEUS TRINTA E DOIS CAMARADAS QUE HEROICAMENTE DEFENDIAM O REDUCTO”

    Pesquisando na internet a propósito da personalidade do comandante do batalhão t. coronel Maçanita encontrei a seguinte passagem:

    ” Na zona de Caxito, uma companhia do batalhão depara-se com um numeroso grupo calculado em mais de um milhar de guerrilheiros. Maçanita põe a pistola-metralhadora FBP à tiracolo e vai ver. A mole de negros começa a formar um círculo para cercar a companhia. O tenente-coronel avança com o cabo Armindo Grilo ao lado – e os dois ficam a meia dúzia-1 de metros de um guerrilheiro armado de canhangulo. Parece ser o chefe. É um gigante com quase dois metros de altura. Maçanita é o primeiro a disparar: faz uma rajada e mata-o.
    Vem a saber depois que o homem da guerrilha abatido é Maneca Paca – de quem os militares portugueses já tinham ouvido falar com temor

    Certamente se refere ao meu irmão Armindo Grilo Paulino 1Cb Rt 1422/60. E RI 2 A CCac103/BCac96 cbt.

    Agradecia a quem o tenha conhecido ou tenha alguma informação sobre os factos mencionados me contacte.

    José Paulino

    • Amigo José Paulino, o seu irmão Armindo Grilo foi um dos herois que muito honraram o nome de Portugal, e de quem a vossa Família deve estar orgulhosa, apesar da fatalidade. Os seus Camaradas e o Comandante dele nunca o esqueceram. Um grande abraço a toda a vossa Família.

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