Efectivos militares em Angola

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Quando em Março de 1961 a guerra rebentou em Angola, o número de efectivos era de apenas cerca de 5 mil. Houve da parte do governo de Portugal um erro crasso na avaliação da situação militar no território. A recém independência do ex-Congo Belga em 30 de Junho de 1960, a revolta na Baixa de Cassange em Janeiro de 1961 e a revolta em Luanda em 4 de Fevereiro desse mesmo ano, parece que não foram alertas suficientes para o governo de Salazar tomar as devidas precauções para aquilo que já há muito se previa e foi preciso esperar pelo massacre de 15 de Março de 1961 para que Salazar proferisse em Abril, o célebre slogan: “Para Angola, rápido e em força“.

Esta negligência teve como consequência a morte de muitas centenas de portugueses e angolanos, barbaramente assassinados pela UPA, que “passeava” na zona devido à inexistência das nossas tropas e até se deu ao luxo de estabelecer um quartel-general em Nambuangongo, a que pomposamente chamaram de “Reino de Nambuangongo” e de onde só em Agosto de 1961, 5 meses depois do eclodir da guerra foram desalojados.

Socorrendo-me de um estudo elaborado pelo ex-furriel José da Silva Marcelino Martins sobre recenseamento, inspecção e distribuição de pessoal, elaborei o mapa que se segue, que pretende por em foco a percentagem do recrutamento local durante a evolução do conflito em Angola:

Ano Total Metrópole Rec. Local % Rec. Local
1961 33.477 28.477 5.000 14,94
1962 44.925 33.760 11.165 24,85
1963 47.400 34.530 12.870 27,15
1964 52.493 37.418 15.075 28,72
1965 57.073 41.625 15.448 27,07
1966 55.816 38.519 17.297 30,99
1967 57.420 43.051 14.369 25,02
1968 58.230 37.547 20.683 35,52
1969 55.574 36.911 18.663 33,58
1970 55.233 36.174 19.059 34,51
1971 62.060 36.127 25.933 41,79
1972 60.317 34.856 25.461 42,21
1973 65.592 37.773 27.819 42,41

É sabido que nunca se ganha uma luta de guerrilha sem o apoio maioritário da população e esta incorporação de militares africanos nas forças armadas portuguesas reflecte bem este propósito, sendo que esse número foi em crescendo, chegando a atingir cerca de 42% do efectivo total no final do conflito.

Efectivamente ao nível militar parece que a guerra não tinha fim à vista, o inimigo à excepção dos primeiros cinco meses, nunca dominou qualquer parcela do território e da nossa parte o cansaço de 13 longos anos começava a fazer-se sentir porque cada vez mais, os milicianos que eram os operacionais da guerra se aperceberam que aquilo nunca mais acabava e ali só estavam a perder dois anos da sua vida, limitando-se a defender a sua posição nos aquartelamentos.

Da parte dos efectivos dos quadros permanentes, talvez houvesse outra interpretação, porque na realidade a guerra dava-lhes dinheiro, quantas mais comissões melhor, geralmente bem protegidos pelo arame farpado, convém referir que à época quem tinha “divisas” era muito bem pago, tal como agora, pois os militares de carreira foram sempre privilegiados.

Não tendo solução militar, a solução política apareceu depois do 25 de Abril em Portugal, só foi pena que mesmo depois dessa data ainda tivessem morrido tantos militares e civis em Angola, porque sabemos como foi feita a transição para a independência.

A guerra em Angola custou a vida a 3.258 militares (2.434 da metrópole e ilhas, 824 do recrutamento local).

Mário Mendes

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