A coisa aqui tá preta!

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Por estes dias toda a comunicação social escrita ou falada se tem referido abundantemente aos acrónimos OE e PEC, documentos fundamentais que servirão para definir o futuro dos portugueses nos próximos tempos.

Já aprovado na generalidade, o OE (Orçamento do Estado) traça as linhas mestras do que vai ser a nossa vida neste ano, a factura a pagar é mais pesada que nunca e os funcionários públicos já ficaram a saber que os seus salários ficam congelados e certamente assim continuarão nos próximos anos, porque não se prevê que a economia aqueça o suficiente para os descongelar.

Quanto ao PEC (Programa de Estabilidade e Crescimento), documento que serve para avaliar as intenções do estado português nos próximos 4 anos, que os observadores internacionais têm debaixo de mira, ficamos a saber que se preparam medidas duras para combater este défice enorme das contas públicas, o maior de sempre, porque andamos há 35 anos a gastar mais do que aquilo que temos e alguém vai ter que pagar a factura. Mas como os nossos políticos do presente sabem que não serão eles a pagar, quem vier atrás que feche a porta.

É sabido que esta crise financeira e económica que parece ter atingido o pico em 2009, é a responsável pela derrapagem das contas públicas em quase todos os países do mundo, mas como diz o povo, “com o mal dos outros podemos nós” e com certeza que em muitos países esta situação é provisória e em Portugal é estrutural, pelo que se manterá por muito tempo.

Haverá países em pior situação que a nossa, mas isso também não nos deve trazer qualquer conforto, a Grécia tem algumas dezenas de ilhotas no mar Egeu que pode alienar, já há compradores à espreita, mas nós o que temos para vender? O nosso ouro que tão generosamente Salazar guardou já lá vai há muito e algumas posições que o estado ainda tem nas empresas públicas parecem que já estão comprometidas em privatizações neste PEC. Se houver outro momento de aperto, qual vai ser a solução?

Não sou saudosista do passado, a minha geração também sofreu com os efeitos da política do “orgulhosamente sós” e a maior parte da juventude da década de 60 e metade da de 70 teve que suportar a guerra em África, mas os heróis não fomos nós, mas antes aqueles que desertaram, trataram da sua “vidinha” e ainda foram condecorados pelos seus “feitos”.

No entanto, sentimos que muitas das promessas que Abril haveria de abrir são hoje miragens. Basta fazer algumas comparações para verificarmos que Portugal continua a ser um país pobre, o fosso entre ricos e pobres é cada vez maior, temos mais infra-estruturas é certo, mas alguém vai ter que as pagar, no tempo de Salazar a maior parte dos recursos foi consumido pela guerra em detrimento de obras essenciais como barragens, estradas, hospitais, etc. A corrupção é hoje muito maior, o funcionamento da justiça é uma miséria, a educação está num nível medíocre.

Não vou alongar-me em mais lamentos, porque como dizem alguns, o pessimismo nunca criou postos de trabalho, mas a continuarmos assim tenho receio que daqui a alguns anos a maioria dos portugueses tenha que reconhecer que vivia melhor antes do 25 de Abril de 1974. Basta que algumas medidas de que se fala, e não há fumo sem fogo, como a redução de salários, pensões, 13º e 14º meses, cortes na saúde, etc, sejam tomadas e estará novamente na moda o fado do António Mourão, “Ó tempo volta pra trás”.

Uma coisa já é certa, quando estiver reunido um grupo de 5 amigos, pelas estatísticas actuais já sabemos que um deles é pobre. Muito mais desencantos teria que confessar, mas fico-me a trautear “a coisa aqui tá preta” do Chico Buarque de Hollanda.

Mário Mendes

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