Aldeia de Lona

2 comentários

O Grafanil em Luanda já tinha ficado para trás e no dia 31 de Agosto de 1971 todos estávamos curiosos em saber como seria o aquartelamento que nos tinha calhado em sorte. Chegámos a 1 de Setembro ao Toto, um aquartelamento com boas condições, mas o destino do 1º e 2º grupos da C.Caç. 3413, ainda estava longe e uma picada nova e poeirenta levou-nos à aldeia de lona, pomposamente designada por base táctica da Cleópatra,  um morro com barracas cónicas e rectangulares,  onde nos juntámos à C.Caç. 1311, angolana proveniente do RI 20, Luanda,  e à C.Eng. 2579 que estava já no fim da comissão tendo sido algum tempo depois substituída pela C.Eng. 3478. À engenharia competia a construção da picada e aos caçadores dar a devida protecção na realização dos trabalhos.

Durante o dia o calor era abrasador e alguma sombra era proporcionada por coberturas de pano enfiadas em paus que serviam de cabana onde se jogava às cartas e bebiam umas cervejas.  A água que tínhamos à disposição era a que se recolhia do rio e se transportava para o acampamento. Se durante o dia o corpo sofria as agruras daquelas condições de vida tão deprimentes, a noite não se augurava melhor, porque na tenda nos esperava um colchão de ar. Aqui está o “quarto” dos alferes e furriéis.

tenda_cleopatraComo se pode verificar os “hóspedes” até estão com boa cara, mas estas condições de vida eram realmente muito difíceis de suportar.

Cerca de um mês depois, e acompanhando a picada que avançava, mudámos de “armas e bagagens” para outro morro baptizado de Cecília. Igual à Cleópatra, mas aqui a tenda foi melhorada com beliches e colchões de espuma. A 7 e Outubro tivemos o nosso baptismo de fogo. Ao romper do dia uma saraivada de tiros e algumas granadas flagelaram a aldeia, e as nossas armas vomitaram também muita metralha durante cerca de meia hora. No rescaldo os estragos apurados foram pequenos ferimentos por estilhaços, a destruição da cozinha e alguns danos numa viatura. Houve também a necessidade de refrear alguns que desesperadamente queriam sair do acampamento para perseguir o inimigo. Já com boa visibilidade foi efectuada uma busca nos morros circundantes, não tendo sido encontrados sinais do inimigo, que utiliza a táctica do “bate e foge”.

picada_ceciliaApesar da nossa missão aqui ser a construção de infra-estruturas para valorizar aquelas terras do fim do mundo, nunca compreendi porque razão nos atacavam, mas o que é facto é que éramos ali “persona non grata” porque logo no dia seguinte, a 8 de Outubro de 1971 colocaram uma mina na picada entre o rio e a nossa base, e no dia 19 desse mês colocaram outra mais lá para os lados do Toto, que provocaram apenas danos materiais, tendo esta última rebentado numa berliet carregada de cerveja.

Foram 6 meses nestas paragens, muito pó engolido, e o regresso ao Grafanil representou o fim do “cabo das tormentas”.

Mário Mendes

2 thoughts on “Aldeia de Lona

  1. Estive na C.ª de Engª 3478,de Outº de 71 a Dezº de 74.
    Percorri todos esses locais.Era o Furriel Miliciano do Serviço de Material.
    Seria interessante,reunir todos que lá estiveram ,Toto,Zala,Quimaria,Cecília,Cleopatra,etc,quer a dar protecção,quer a receber.Pensem nisso.
    Um abraço para todos os vivos,e paz aos que já foram,e que com o seu espírito,elevaram o nome deste pequeno PORTUGAL,que tanto tem feito pelo Mundo. Artur Rodrigues.

  2. Caro Mario Mendes.
    Não tendo como recordação o seu rosto,estivemos nos mesmos locais,e na mesma altura,em Angola.
    A C ª de Engª 3478 a que pertenci,fez esse percurso de Outº de 71 a Dezº de 73,fomos render a Cª de Engª 2579,e tivemos apoio e proteção da C Cac 3413 a Vossa e da C.Cac 1311,para além de outras.
    Estivemos no Toto,depois da viagem,Luanda,Carmona(Uíge),Vale do Loge,Toto,e com destacamentos em Quimaria,Cleopatra,Cecília,etc,na abertura de picadas tácticas,sendo o percurso para os seus acessos,com a perigosidade e cuidados,que transmite nas suas descrições.Depois regressamos a Luanda na época das chuvas,e voltamos de novo,desta vez,através da estrada Ambriz,Ambrizete,que nos levou até Zala,outro ponto quente.Houve algumas fracções da nossa Cª,que depois prestaram serviço,e apoio noutros locais,onde era preciso.Claro que estavamos,com a construção de estradas,e outras vias,pontes e aquedutos,a valorizar aquele País.Nâo havia razão para sermos flagelados com ataques e com minas.!? Contamos sempre com o V/ apoio e protecção.
    Seria interessante um destes dias,em data oportuna,conseguir-se juntar quem,irmanado nos mesmos propositos,gastou alguns anos da sua vida,outros a própria vida(paz à sua alma),e as condolências aos que já foram,e seus familiares,juntarem-se os intervenientes de todos quantos estivemos lá.
    Os m/ Cumprimentos
    e Um Abraço.
    Artur Rodrigues

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s