Mamarrosa, em 1962

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É sempre com enorme prazer que recebemos notícias de ex-combatentes das campanhas de África. Desta vez recebi um e-mail de um companheiro que esteve também na Mamarrosa em 1962 e que aqui transcrevo o seu conteúdo. Bem Haja, José Almeida Magalhães, esta porta está sempre aberta à tua colaboração, e tal como dizes, recordar é VIVER ! Feliz Natal e um Novo Ano de 2010, com muita Saúde, Amor e Paz.

Eu também estive na Mamarrosa

Depois de ter lido no seu blogue duas mensagens sobre a Fazenda Mamarrosa (Antes e depois de nós na Mamarrosa), não resisti a enviar-lhe esta mensagem. Sou um ex-Furriel Milº de Engª, José Magalhães, que pertenceu à Compª de Sap. de Engª 151, tendo embarcado a 15 de Junho de 1961 no navio Moçambique e regressado em Agosto de 1963.

Chegados a Luanda, estivemos aquartelados no BEngª de Luanda, à espera de material para seguirmos para o Norte, mais propriamente para o Negage, onde entre muitos trabalhos que realizamos, reconstruímos parte da estrada que liga o Negage a Sanza Pombo, bastante destruída com muitas valas e quantidades enormes de árvores que não nos facilitavam a progressão; não foi concluído o trabalho pois em Agosto de 1962 tivemos que ir para a fazenda Mamarrosa, mas antes passamos por Luanda para levar mais material de terraplanagem (21 máquinas). A duração da viagem foi de 13 dias pois tivemos um percalço quando deparamos com uma ponte, já muito perto de S. Salvador, danificada; montamos uma ponte militar que fazia parte do nosso material que íamos utilizar na fazenda.

Na Mamarrosa, também além de pequenos trabalhos de construção, o nosso principal objectivo era construir uma estrada entre a Magina e se a memória não me falha Maquela do Zombo,  obra que também não chegamos a concluir porque entretanto veio ordem para regressarmos a Luanda, em Agosto de 1963, e regresso à Metrópole e que iria permitir às NT a entrada do IN vindo do Congo.

No site da Guerra Colonial (últimas actualizações de 29 de Abril deste ano), pode o Mário Mendes ver uma mensagem do nosso companheiro Fernando Nunes Marques, onde constam algumas fotos do Negage, Mamarrosa e Magina; numa delas estamos a montar uma ponte, na Magina, baptizada com o  nome de” Marechal Craveiro Lopes”, que na altura se encontrava de visita ao seu filho Comandante de Sector em S.Salvador. Aproveitando a sua estadia fez visitas a algumas companhias entre elas a nossa. Não sei se quando o Mário Mendes lá esteve essa placa ainda existia, mas creio que não dado terem passado dez anos. Lembro-me bem dos edifícios em forma de U que se destinavam à família Salvador Beltrão de quem eu era particular amigo, tendo almoçado algumas vezes em casa dele em S.Salvador juntamente com a esposa e sobrinho.

A messe dos oficiais e sargentos estava instalada no  último edifício situado do lado esquerdo quem olha da foto que diz Mamarrosa inserida no seu blogue;  era o Posto de Socorros (PS) da própria fazenda mas desactivado devido  aos acontecimentos. Anexo uma foto em que pode ver no topo de uma das portas de entrada uma cruz com PS lá escrito estando eu de pé mesmo em frente à porta. Um abraço, um Natal Feliz e um bom Novo Ano, com a certeza que continuarei a ler os seus artigos, pois recordar é viver, e eu com os meus quase 71 anos (daqui a um mês)  fico mais jovem ao recordar os tempos que lá passei.

José Magalhães

3 thoughts on “Mamarrosa, em 1962

  1. Pingback: Recordações do distrito do Zaire (cont.) |

  2. Vivam camaradas eu também estive na Magina – Luvo Iintegrado na companhia 1783 nos anos 1967 a 1968 para nós os sete meses que passámos neste local foram os dias mais difíceis .É com grande tristeza que não vejo no vosso historial nenhuma nota referenciando a nossa luta .Tenho imensas fotos tiradas nesses locais.

  3. História e geografia do Sanza Pombo
    Tem como sede municipal a vila do Sanza Pombo, contendo três sedes comunais: Alfándega, Kwilo e Wamba. Possui vinte Regedorias e várias aldeias.
    A língua dos nativos desta região é Kikongo, usando a variante Kipombo em toda a sua área geográfica. Portanto, esta variação linguística estende-se até em alguns município limítrofes como: Buengas, ex. Santa Cruz ou Milunga, ex. Alto Cawale ou Kangola, Puri e o município de Kimbele.
    Por volta de um pouco menos de um século antes da chegada dos portugueses na região do Zombo, um dos filhos do Zulumongu, família directa do soberano Zombo, teve uma discussão com os seus familiares. Tudo porque lhe foi negado à herança do trono depois do falecimento do seu pai. A família como é de direito, preferiu entregá-lo a um sobrinho membro direito do seu Kanda porque este era o verdadeiro herdeiro.
    O promogénito do Mazulumongo zangou-se com todos, decidindo, então, partir daquela área e foi emigrar no território do Pombo, mas quando lá chegou já havia emigrado o Mayimbata que fixara a sua aldeia a muitos quilómetros depois de atravessar o rio Kwilo, vindo da área do Nsosso.
    Este filho promogénito do falecido Zulumongo resolveu construir a sua aldeia antes da aldeia do soberano Mayimbanta , baptizando a aldeia com o nome de Zulumongo di Matadi .
    Por sua vez, o filho do soberano Mazulumongo que emigrara com o pai, depois de muitos anos de experiências adquiridas com o seu pai também decidiu atravessar a aldeia do Mapombo e construiu nas terras do rio Longo, esta aldeia foi chamada de Zulumongo di Longo.
    Antes dos movimentos migratórios dos Zulumongo e do Mayimbata, o Mapombo vivia na actual vila do Sanza Pombo há muitos anos. Segundo alguns estudos levados a cabo, este teria as suas origens na actual comuna do Wamba. Quando este morreu já não havia qualquer membro do seu kanda capaz de conduzir os destinos do seu povo, senão o seu próprio filho, então, filho reclamou que o trono não deveria ser dado ao um incopetente e este passou-se ao kanda da mulher que naturalmente escolheu o próprio filho do falecido como substituto do pai que também tinha o nome de Mapombo. Este permaneceu até á chegada dos portugueses na região.
    Os portugueses depois de permanecerem alguns anos no actual Makela do Zombo, então Posto Militar com o nome de Mbongi criado em 1896 que, em 1911 passou a sede da Circunscrição do Zombo, decidiram continuar com as chamadas ocupações ou conquistas , andando e travando muitas batalhas de resistência pelo caminho, principalmente na zona de Kamantambu onde os povos infligiram uma derrota aos colonizadores nos primeiros anos da década de 1910. Estes colonizadores seguiam as pegadas do filho de Zulumongo que abandonara a zona do Zombo à procura de outras zonas migratórias.
    Nestas batalhas, os portugueses receberam apoio do outro grupo que chegou de Ambriz via Bembe em Novembro de 1911, reforçando os combates e dai, em Dezembro do mesmo ano criaram um posto militar que servia de contacto triangular Damba-Zombo-Bembe, estudando a forma de continuar até ao Pombo.
    Com este reforço, o exército colonial conseguiu romper as barreiras de Kamantambu na Damba apesar de muitas baixas e continuaram até na faixa do rio Kwilo, atravessando e seguindo em paralelo ao rio, mas quando chegaram junto à foz do rio Luselwa abandonaram o leito e caminharam até a primeira barreira do Zulumongo di Matadi com o nkango Mazulomgo e o nkangu Mayimbata a oferecerem uma forte resistência antes da chegada à sanzala do Mapombo. Entretanto, embora os portugueses escaparam da barreira, estes povos não acharam-se vencidos, travando sempre que podiam algumas batalhas. O filho do soberano Mazulumbongo que emigrara mais ao sul do pombo onde fundou a sua aldeia entrava em contacto com o pai e muitas vezes uniam-se, fazendo fortes ataques conjuntos, cercando as tropas portugueses.
    Entretanto, em 1913, os portugueses logo a sua chegada no Pombo sob o comando do capitão-mor português Francisco Maria Lopes, cantavam a vitória por conquistarem a zona que iria lhes proporcionar vários recursos alimentares e traçar novos planos de invasão, embora que em fortes combates travadas para a ocupação do território do Pombo tiveram enormes baixas, uma delas é a morte de um Capitão e o Sargento Morreiros Neto.
    Em 16 de Maio de 1913, o então Capitão-mor português Francisco Maria Lopes funda a vila de Pombo, e transforma a localidade de um bastião bélico que servia como base militar. Em 30 de Novembro de 1916 foi criado em actual Sanza Pombo um posto militar de 1ª classe.
    Em 1917, grande parte de tropas portugueses deixaram o Sanza Pombo para tentarem ocupar o Alto Kawale actual Kangola, mas os nativos rebelaram-se, juntando-se com os povos das vizinhas regiões do Kwango e Massango. Homens mais poderosos da região procuraram mobilizar as suas populações que, iriam iniciar os ataques ao Posto de tropa tuga montado em Alto Kawale. Naquela região o exército português numa primeira fase começou com os ataques aos nativos, mas a fúria destes manteve-se, os portugueses tiveram que abandonar o Posto em debandada e fugiram para o Pombo.
    Instalados no Pombo, em 1918, a actual vila sede municipal passou a Capitania-Mor do Pombo; somente foi transformada em Circunscrição Civil em 1921 /22. Ainda neste mesmo decénio, passou a ser designado Concelho do Pombo. Pois, este nome do Pombo deve-se ao rei Mapombo que era nativo.
    Entretanto, este rei tão cedo rendeu-se aos portugueses e, por sua vez, estes homenagearam-no, baptizando a região com seu nome por ser um soberano pacífico.
    Nesta região não apenas encontraram o soberano Mapombo e seu povo, pois, também encontraram alguns dos seus súbditos e o nkango Mazulumongo e nkango Mayimbata que em união protestavam o comportamento do Mapombo considerando-o traidor do povo ao aliar-se aos portugueses.
    Estes agrupar-se, lutando em conjunto para a defesa do seu território, mas a tecnologia portuguesa de armas de fogo de vários calibres com capacidade de atingir uma distância maior de 200 metros os superava, as baixas aumentavam cada vez mais, mas nem isso as guerras pararam.
    Os portugueses vendo que não era fácil superá-los, recorreram aos missionários católicos a partir do Mbanza Kongo onde estavam instalados a bastante tempo e que já falavam a língua Kikongo. Estes chegaram ao Pombo via Zombo para apaziguar e aconselhar o povo para que não matassem ninguém porque era pecado perante ao Deus. Com o evangelho incutido aos revoltosos, abriu-se o diálogo e evitaram a guerra que já estava a fazer muitas mortes em ambas as partes.
    Como circunscrição civil, o concelho do Pombo com a influência do cristianismo representado pelos missionários católicos que instalaram a sua missão no local com o objectivo de converter a população nativa e educá-la de acordo com as normas culturais europeias e, ao mesmo tempo, ter um papel psicológico junto da representação branca, a localidade já foi chamada de São José do Pombo durante muitos anos.
    Mais tarde, depois de alguns acertos, o rio Sanza proporcionou o nome actual mas sem deixar de fora o nome do soberano nato, fixando o nome da vila em Sanza Pombo.
    Os portugueses a partir daquele momento tornaram donos e senhores da terra, ou seja apropriaram-se da região, reforçando o seu contingente militar, continuando a ocupar as áreas até então sob custódia dos nativos. Neste período registou-se a chegada de muitos comerciantes brancos, implantando-se o sistema colonial e o regime de contratado estendeu-se.
    Havia muitos anos passados, já na segunda metade do século chega no Sanza Pombo o batalhão de caçadores 92 que instalou-se na região, comandado pelo então Tenente-coronel da Infantaria Duarte de Azevedo Pinto Coelho, depois de criar o Sector Operacional 2. Parte das companhias de caçadores continuaram a progredir na direcção da fronteira com o Kongo ex-Belga, instalando-se em Santa Cruz e Maquela do Zombo.
    Nesse período muitos angolanos aderiram o exército português, fazendo parte da mesma, iludindo-se em combater o seu próprio homem.

    2.1. Hidrografia
    A água é, talvez o maior produto natural existente na região do Sanza Pombo. Por ai possui muitos rios, riachos e ribeiros, atravessando grandes quantidades de água que descem do interior em valas profundos e se alarga próximo da foz.
    A sua configuração hidrográfica está ligada ao seu relevo. Os rios partem do sul ao norte, como por exemplo o rio Kwilo que nasce em Kangola atravessa a região do Pombo e vai desaguar no rio Kwango junto a fronteira de Angola com a República Democrática do Kongo e outros de outros pontos cardinais para o sul, no caso do rio Sanza que parte do leste e corre para o sul.
    Na sua maioria, os leitos são irregulares. Alguns deles possuem grandes quedas de água nas suas rochas pregadas pela natureza e outros mostram o brilho no seu areal subaquático.
    Os rios da região são classificados de duas maneiras: rio de corrente normal (nkoko umoyi) e rio pantanoso (nkoko wafwa mayaya). Os principais rios são: Rio Kwilo, Sanza, Longo, Luselwa, Makeni, Uhamba, Kwuho, Kawale, Lukhodi, Makeni e Tuhy. Estes e outros rios considerados pequenos proporcionam terras bastante fertilizadas para a prática de agricultura.

    O Reino Vegetal
    As matas florestais (nfinda ou londa) da região do Sanza Pombo, normalmente, são ligados aos rios, riachos e até mesmo ribeiros, embora que podemos encontrar algumas florestas também fechadas e isoladas no meio da selva (tungu) e outras abertas (nseka). Além desse tipo de matas, também são ligadas aos rios as chanas (nganga) que são campos bastante úteis para os agricultores.
    Nessas florestas podemos encontrar plantas de diversos tipos, entre elas: medicinais, piscatórias, frutíferas, madeirais e etc.

    Estudo do campo feito por Professor José Cassequi, especialista em línguas e literaturas africanas a partir de fontes orais.

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