Luvo, porta de entrada de refugiados

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A sede da comuna do Luvo, o principal ponto fronteiriço da província do Zaire com a RDC, está transformada num enorme campo de deslocados, uma semana após o início da expulsão dos cidadãos angolanos daquele país.
Milhares de pessoas espalham-se por uma área de, aproximadamente, um campo de futebol, com os poucos pertences que conseguiram trazer.
O cenário faz lembrar fugidos da guerra. São pessoas esfarrapadas, sujas e debilitadas pelos dias de viagem a pé, sem comida e sem água.
Axel Samuel andou três dias a pé para chegar a fronteira. É técnico de processamento de dados. Trabalhava, há mais de 20 anos, no Instituto de Pesquisa Agrícola. Natural da Damba, Uíje, é casado com uma congolesa. Apesar disso, foi expulso. Recebeu a ordem no serviço. Só teve tempo de ir a casa despedir-se da mulher e dos 12 filhos, sempre vigiado por elementos da Polícia, que o seguiam à paisana. Em casa, já o esperavam os pais, também corridos, depois de 34 anos no Baixo Congo.
A mulher de Axel, por ser congolesa, não pode abandonar o país, assim como os filhos. Numa pasta rasgada apenas conseguiu meter uma camisa, umas calças e algumas fotografias da família. Uma semana depois, relembra, ao Jornal de Angola, o clima da despedida, que mais parecia um funeral: “A imagem que tenho é deles todos a chorar, a minha mulher a atirar-se ao chão, os meus filhos também e o senhor da polícia a dizer ‘sai, rápido, sai rápido…”. Axel não consegue continuar. A voz treme-lhe. Os olhos enchem-se de lágrimas transformadas, num ápice, em pranto soluçado, inconsolável. Desde que deixou a família, há uma semana, tem notícias de casa. Sem dinheiro, não consegue carregar o telefone que conseguiu trazer.
Com o auxílio do repórter, Axel consegue comprar um cartão de recargas para 10 minutos. De repente, o rosto ilumina-se. Sorri. Quer falar com todos os que estão do outro lado da linha. Pede calma, fala de esperança, da vontade de abraçar cada um. Mas, o principal conselho dá ao filho mais velho, de 22 anos, estudante de agronomia no instituto onde trabalhava. “Você agora é o pai. Toma conta da mãe e dos teus irmãos. Eu vou conseguir trabalho e voltar para vos buscar”. A conversa termina e Axel não pára de agradecer ao repórter. À pergunta como o rapaz, sem emprego, vai cuidar dos 11 irmãos e da mãe, Axel estende o olhar em direcção à fronteira, vira-se para o repórter e, com os olhos novamente banhados de lágrimas, responde: “Deus vai ajudar”. E vai sentar-se ao lado da pasta preta, rasgada, e de um embrulho, de onde sobressai um cobertor sujo. Tudo que conseguiu trazer consigo na saída precipitada. Espera, há seis dias, pelo registo das autoridades angolanas, para o posterior encaminhamento para o centro de acolhimento, a 13 quilómetros de onde está. Bem ao lado de Axel, uma placa preta, solidária, saúda: bem-vindo à procedência. É tudo o que espera, neste regresso inesperado ao país que o viu nascer, em 1965, e que deixou alguns meses antes da independência nacional, por causa da guerra.

Desestruturação familiar

Axel não é o único que teve a família desestruturada, por ordem das autoridades do Baixo Congo. Mesmo no último mês de gravidez, Nzinga Bacuanda, natural de Mbanza Congo, foi separada do marido, um congolês democrático, e obrigada a percorrer mais de dez quilómetros, com mais três filhos, todos menores. O cansaço da longa viagem terá precipitado o parto. O enfermeiro João Afonso, que fez o parto, fala em “muita sorte”. Outra paciente, que também estava grávida, foi transportada, de urgência, para Mbanza Congo. Ainda não teve notícias da paciente. Espera que tenha suportado os 60 quilómetros de percurso sinuoso e esburacado até ao hospital.
Nzinga teve mais sorte e deu a luz a uma menina saudável. Deitada numa cama improvisada, no pequeno quarto usado como dispensa de produtos do posto médico, ainda não tem certezas quanto ao nome a dar ao bebé. Diz que muitos já a aconselharam a chamá-la Alegria. Pode até ser. Mas trata-se de um sentimento que ainda não experimentou, desde que foi separada do marido, há uma semana.

Posto pequeno
para tanto doente

O pequeno posto médico é dos locais mais movimentados do Luvo. João Afonso, o enfermeiro, é um homem exausto. São 17 horas e ainda não comeu nada. Na sala de três metros quadrados, aproximadamente, quatro pacientes estão deitados em velhos colchões de espuma. Na janela, um frasco de soro, pendurado a um prego espetado na parede. O conteúdo, já a meio, indiciava que acabava de ser usado. No centro da sala, uma mesa e uma cadeira de plástico. No chão, uma balança. O procedimento parece de um hospital normal. O paciente entra, é registado, tirado o peso, faz análises, é medicado. Grande parte dos pacientes faz o teste rápido da malária. O resultado é conhecido em 30 minutos. Os que apresentam casos mais complicados, que merecem internamento, ocupam os colchões ao lado da mesa do enfermeiro, como acontece com um homem, já em idade avançada, magro, com aspecto cadavérico, que chegou ao Luvo no domingo e aguarda transporte para Mbanza Congo. Não pára de tossir e mal consegue sentar-se. O acesso de tosse é tão forte que o abana como se fosse um boneco de pano. A crise dura pouco mais de um minuto. Quando passa, o homem levanta a cabeça com todas as forças que possui e deposita o escarro num pequeno recipiente preto, do tipo usado para guardar comprimidos. Com os olhos cheios de lágrimas, dobra os joelhos, numa posição que faz lembrar a estátua do Pensador. Tremelicando, tenta dormir. Mas, poucos minutos depois, sofre nova crise. O enfermeiro diz que aquela agonia já dura há um dia. Ao lhe ser solicitado os dados do paciente, o enfermeiro não consegue localizar o nome no caderno de registos. Desde o dia 5, são já 42 páginas preenchidas, cada uma com 15 casos, o que perfaz 630 pacientes. João Afonso lembra-se, depois, que o homem foi dos últimos a entrar e não foi registado. Como o fluxo era tão grande, ele suspendeu o registo pelos nomes, passando apenas a anotar as quantidades de medicamentos entregue aos que chegavam. Nesse processo, tem o auxílio de outro enfermeiro, Mangudi Flora, que nasceu no Congo Democrático, em 1965, mas que foi expulso por ser filho de angolanos. Funcionário de um posto de saúde no Baixo Congo, agora ajuda João Afonso a tratar, diariamente, mais de cem pessoas, na maioria com malária, infecções da pele, diarreia, vómitos e paludismo.
No Luvo estão, também, elementos da Cruz Vermelha, que tratam de feridos, e brigadistas para vacinar as crianças contra a poliomielite. As mulheres recebem a vacina contra tétano.

Duas mortes
entre os regressados

Muitos dos pacientes, além dos sintomas normais da doença, aparecem bastante debilitados e desnutridos, principalmente crianças, o que complica, ainda mais, a cura. É o caso de uma menina, de seis anos, que depois de vários dias de viajem a pé, chegou ao Luvo com uma anemia grave e não sobreviveu. Ontem, no enterro, a revolta era geral. Os milhares regressados da RDC pareciam uma só família, repartindo a dor. Apesar da tristeza do momento, a morte da menina fez ver que aqueles milhares de angolanos não perderam o sentimento de união e solidariedade.
Esta não foi a única morte no Luvo, disse o enfermeiro João Afonso. Fala de um outro caso que não chegou ao posto médico, provavelmente, diz, por não se terem apercebido que existia um posto médico no local.
O tempo vai passando, o enfermeiro João Afonso pede celeridade no registo e transporte das pessoas para o centro de acolhimento, uma vez que os regressados, incluindo crianças pequenas, aguardam dias ao relento, sem comida. Para matar a fome, o único alimento é a quicuanga, alimento característico da região, e que consiste numa massa dura, feita de fuba de bombó. Crianças, ainda nos primeiros anos de vida, que deviam alimentar-se de leite e de outros produtos lácteos, também comem quicuanga com peixe seco.

Irmandade à beira  da ruptura

Uma das grandes atracções do Luvo é o mercado que se realiza aos sábados, alternadamente, nos dois lados da fronteira. Trata-se uma tradição antiga, mas que tende a quebrar-se. No sábado passado não houve vendas e tudo indica que não venha a haver, também, esta semana.
Apesar disso, a entrada e saída de viaturas com matrícula dos dois países faz-se sem constrangimentos. O responsável pelos Serviços de Migração e Fronteira do Luvo, José Amarante Amaro, afirma que a fronteira “continua aberta para os cidadãos dos dois lados, desde que devidamente documentados”.
Os residentes das áreas circunvizinhas podem solicitar um passe de travessia que lhes dá acesso até 30 quilómetros no interior dos dois territórios. Os titulares de passaporte com vistos válidos, passados pelas respectivas embaixadas, também entram sem qualquer impedimento.
Nos últimos dias, as autoridades congolesas reforçaram o controlo dos cidadãos que entram no seu país. Elementos da segurança, à paisana, completam o grosso de força que tenta evitar a entrada de “indivíduos inconvenientes”. Conta-se o caso de um jornalista de televisão que ultrapassou a zona neutra e tentou filmar o lado congolês. Gerou-se uma confusão, que só não resultou no pior devido a um entendimento entre as chefias policiais local.

Jornal de Angola (Outubro/2009)

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