Armas Pesadas

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Como Companhia de Caçadores, não possuíamos armas pesadas, mas depois da tentativa de assalto ao aquartelamento do Luvo que aconteceu no dia 22 de Outubro de 1972, sendo as nossas forças de apenas 51 homens contra 150 do inimigo, que à mesma hora flagelava também a Mamarrosa, a necessidade da artilharia tornou-se evidente.

A FNLA tinha planeado a conquista daquele posto de fronteira com a RDCongo, e até o seu presidente Holden Roberto estaria do outro lado com binóculos de infravermelhos para presenciar o “espectáculo”.

O primeiro tiro inimigo foi o de um canhão sem recuo, que acertou numa caserna onde dormiam cerca de 20 homens, mas por nossa sorte o projéctil não rebentou, atravessou junto ao tecto as paredes de madeira. Também naquela madrugada um grupo que já estava preparado para ir à caça respondeu prontamente ao ataque e  foi certamente esta rapidez  que surpreendeu o inimigo e o deixou desmoralizado, a tal ponto de lançar granadas de morteiro que caíram no aquartelamento sem deflagrarem porque não lhes tiravam a cavilha. Estes factores foram determinantes para o fracasso deste ataque.

Algum tempo depois, a companhia passou a integrar uma secção de artilharia e foram instalados na Mamarrosa dois obuses 8.8. Eis a foto de um deles.

obus8.8

A obsessão da tomada do Luvo por parte da FNLA voltou novamente no dia 26 de Março de 1973, mas desta vez os obuses da Mamarrosa  entraram em acção, eu não estava lá, mas conforme já relatou aqui o nosso companheiro José Sampaio, das transmissões, ele, apesar de ferido, informou de imediato o aquartelamento da Mamarrosa de que as nossas “obusadas” estavam a cair dentro do Luvo. É caso para dizer que “com amigos destes, não se precisam inimigos”. Felizmente o tiro dos obuses foi corrigido e apenas se registaram alguns feridos ligeiros.

Não sei se este episódio teve alguma influência na decisão de posteriormente se instalar uma peça de artilharia no Luvo, mas de facto um canhão sem recuo foi ali colocado, talvez à espera de novo ataque, porque como diz o povo, “não há duas sem três”.

canhao

Durante a nossa comissão, o terceiro ataque nunca aconteceu, parece que a instalação da peça reprimiu as intenções do inimigo. Do outro lado da fronteira, perto do Luvo, o exército zairense tinha uma base aérea e algumas vezes em pequenos grupos de dois ou três os militares daquele país vinham ao Luvo comprar coisas a uma loja civil que lá existia e até convivíamos com eles. Houve até gente que trocou o camuflado com alguns porque achavam que o deles era mais bonito. Porventura até poderiam ser infiltrados da FNLA, mas como no Luvo existia um posto da DGS, esse assunto não nos dizia respeito.

Mário Mendes

5 thoughts on “Armas Pesadas

  1. Quando eu cheguei ao luvo em finais de 1973, os Congoleses já nao se deslocavam a este posto fronteiriço
    Com a situaçao a deteriorar-se de dia para dia, especialmente a partir de 25 de Abril, foi decidido reforçar a Mamarrosa com mais dois obuses, que se tornaram decisivos na derrota que infligimos ao IN. em 29 de Julho de 1974.
    Nesta noite terrivel e de má memoria, com a preciosa ajuda dessas armas, o IN. deixou no terreno cinco mortos e diverso material de guerra.
    Quando eramos atacados no Luvo, os obuses eram orientados segundo as directizes enviadas via rádio,baseadas nas coordenadas que constavam num croquis da nossa posiçao e zona envolvente.
    Já na defesa da Mamarrosa os obuses efectuavam tiro directo, o que se tornou muito util no ataque de 24 de Junho de 1974, no qual o IN. deixou para trás quatro mortos.
    Manuel Aldeias

    • Olá companheiro Manuel Aldeias
      Obrigado pela achega. Pelas indicações poderá ser o mesmo capelão (era capitão), pois o primeiro ataque deu-se em Outubro de 1972, já bastante próximo da sua chegada a estas paragens.
      Um abraço do JS

  2. Recordo-me que depois do primeiro ataque ao Luvo recebemos no destacamento um moderno canhão sem recuo, que ninguém sabia manobrar, e até os valentes açorianos fugiam dele como o diabo da cruz, com medo dele explodir.
    Por sorte, dias depois (já eu aqui estava com o 3.º GC, que substitui o 2.º GC que sofreu o ataque), apareceu no destacamento um capitão-capelão, que depois da missa nos ensinou a utilizá-lo.
    “Vocês são uns nabos. Isto é a arma mais simples de disparar… Abre-se, enfia-se aqui a carga, aponta-se e prime-se aqui” – Explicava-nos.
    Não sei o seu nome desse capelão, apesar de já ter tentado sabê-lo através do coronel capelão Monsenhor Joaquim Cupertino, que na altura estava em Carmona (Uíge).
    O abraço a todos e também e um AB para amigo Aldeias.
    JS

    • Possuo no meu album uma foto, na qual estamos seis militares num hunimog junto da Ponte do Luvo.
      Nas costas dessa foto escrevi a seguinte legenda: Junto à fronteira, com o capelão; 1973.
      Será o mesmo capelão a que se refere o companheiro Sampaio?
      Não me recordo como apareceu no Luvo, nem o porquê da sua visita.
      De baixa estatura, gorducho e bochechudo, destaca-se do conjunto por ser mais velho, aparentando mais de 40 anos, de resto, veste-se igualmente de farda camuflada, e quem diria de arma G3 nas mãos.
      Manuel Aldeias

  3. Caros amigos

    É de estranhar,que nessas duas companhias,não houvesse,
    Uma pessoa indicada para manusear um canhão 7.5 ou 10.6
    pelo menos o capitão de qualquer uma dessas companhias,
    devia saber.-
    Só prova uma coisa, o capelão que era capitão, sabia embora não
    fosse da área dele, porque eles percorriam as companhias e batalhões
    mais para dar apoio psicológico,e algum carinho e amizade.-
    No meu tempo,as companhias de cavalaria e as de caçadores, levavam
    um furriel de Armas Pesadas,e os batalhões levavam pelos menos
    uma secção ou um pelotão da referida especialidade.-

    Cumprimentos para todos

    Uma abraço do Abreu

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