Memórias da Terceira

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naviofunchal

Parti de Lisboa a 4/2/1971 a bordo do navio Funchal com destino ao BII 17 em Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, onde cheguei no terceiro dia, depois de escalas no Funchal, Ponta Delgada e Horta, com a missão de ministrar instrução militar aos mancebos açorianos da primeira recruta daquele ano. Foi a primeira vez que andei de barco e tal como muitos companheiros de viagem o primeiro dia foi de enjoo. Eis uma foto tirada no camarote com alguns companheiros,  furriéis da futura C.Caç. 3413.

navio_funchal

Em Angra o navio fundeou ao largo do porto e depois em barcaças os passageiros foram levados para terra. Lá estava o imponente Monte Brasil onde no sopé estava implantada a fortaleza de S. João Baptista, uma grandiosa construção filipina, que albergava dentro das suas muralhas o almejado BII 17 que nos aguardava.

Logo ali percebi que apesar de estarmos em Portugal, a língua falada não me era muito familiar, não percebia muito bem o que ouvia, aquele sotaque era tão diferente quanto divertido.

Fui integrado no 1º pelotão de instrução comandado pelo alferes Couto, um açoriano de grande porte atlético e que jogava futebol no Lusitânia na posição de defesa central. O campo de jogos era ali junto à Fortaleza e aos domingos costumava assistir aos jogos que a equipa local disputava na terceira divisão nacional.

vistadeangra1971

Bebi a primeira coca-cola, proveniente da base aérea americana das Lajes, bebida que na época não se vendia no continente, onde apareceu pela primeira vez em 1977.

Nos tempos de folgas descia-se até à cidade e passeava-se na Rua da Sé, onde se situa a Catedral, rua que vai desembocar à Praça do Município. Ali ao lado fica o Jardim Duque da Terceira, onde muitas vezes em grupo, ou isolados os militares do continente davam uma voltas para largar alguns piropos às moças que por ali também costumavam “poisar”.

Outra artéria muito apreciada era a rua Direita que partia do Largo do Município e nos levava até ao porto. Era a baixa da cidade, zona dos cafés e restaurantes onde por vezes (poucas) se comiam umas lapas ou um prato de alcatra, porque o magro pré de 90 escudos mensal não dava para muito. O que valia era algum vale postal que a família mandava de vez em quando para compor a mesada. Na verdade a vida nem era cara, mas o que estava mais ao alcance da bolsa eram as famosas sandes de queijo acompanhadas com uma cerveja ou um copo de verdelho.

Aos domingos a malta frequentava também os bailes que aconteciam nos clubes. A nossa presença era logo notada, tanto pelos rapazes açorianos como pelas moçoilas. Eles desconfiados, elas mirando-nos dos pés à cabeça, manifestando com olhares o desejo de dançar. Ser do “contnainte” naquele tempo era um cartão de visita.

Recordo também as touradas à corda realizadas na Ribeirinha, uma freguesia próxima de Angra, em que o pessoal corria à frente do touro e os mais atrevidos usavam o chapéu-de-chuva a servir de capa.

Um dia fui à descoberta da ilha com o Fausto Maia num carro alugado (VW Carocha). Fizemos todo o perímetro da ilha percorrendo 90 Km por estradas estreitas e sinuosas, bordejadas por hortênsias, e mesmo parando várias vezes para contemplar as belezas naturais, ao fim de 3 ou 4 horas estávamos novamente no local da partida. Esta realidade diz bem do sentimento de insularidade dos seus habitantes. Quem sonhasse com horizontes mais largos não podia confinar-se àquelas paragens, e por isso o sonho americano sempre esteve bem presente no imaginário açoriano.

A estadia em Angra prolongou-se até 4/6/1971 e o meu contacto com o sotaque açoriano durou mais de 3 anos e meio. Já depois de terminar a comissão o meu português ficou durante muito tempo um pouco açorianizado por causa de alguns “coriscos mal amanhados”.

Gostei muito de ter estado na bela cidade de Angra do Heroísmo, que apesar de sofrer grandes danos no sismo de 1/1/1980, foi reconstruída na sua traça original e hoje é património da humanidade. Um dia o historiador José Hermano Saraiva foi convidado para uma conferência em Angra do Heroísmo, e no final pediram-lhe para numa só palavra descrever a ilha. Pronta e concisa foi a resposta: “terceira?”

Mário Mendes

2 thoughts on “Memórias da Terceira

  1. Ex.mo Senhor:

    Votos de boa saúde.
    Gostei de ter lido o seu texto bem redigido e muito engraçado, ao qual me senti parte da sua historia. Fui amigo pessoal do Alferes Couto, e fui furriel miliciano no BII 17 de Fevereiro de 1971 a 17 de Outubro de 1973.
    Não sei se na altura já tinha um VW (carocha) de cor creme.
    Cumprimentos

    Manuel Marcelino

    • Caro amigo, pelas datas que indica certamente que por lá nos cruzámos. Tenho uma foto onde estão vários furriéis, vou mandar-lha para ver se é um deles.
      Votos de Boa Saúde
      Mário Mendes

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