Operação Sequência, Zenza

2 comentários

Como Companhia de Intervenção, a primeira missão que foi dada à C.Caç. 3413, foi a protecção a uma Companhia de Engenharia que abria picadas no norte de Angola, zona do Toto, onde esteve de 31 de Agosto de 1971 a 28 de Fevereiro de 1972.

Regressamos à nossa base em Luanda, no Grafanil, para um merecido repouso, que foi interrompido a 12 de Março de 1972, porque fomos chamados para a “operação sequência” realizada na zona do rio Zenza, província de Luanda, agora denominada Bengo.  Esta operação envolvendo outras companhias decorreu até 18 de Março, e tinha como objectivo penetrar na densa floresta da zona onde o in. (MPLA) tinha alguns dos seus “santuários”.

zenza

A nossa participação teve a duração de 3 dias (12 a 14 de Março), e logo pela manhã do dia 12 recebemos as 3 rações de combate. Esta “diária” vinha numa caixa de papelão, tipo caixa de sapatos, que continha algumas latas de conserva (sardinha, atum, carne, feijão), uma lata de leite achocolatado, uma de sumo de fruta, um tubo de leite condensado, pequenas embalagens de marmelada, goiabada, uma pastilha com saber a café, uma tablete de chocolate e alguns comprimidos para purificação de água. Foi distribuído também uma porção de pão e alguns biscoitos.

Desfeitas as caixas há que acomodar toda esta “tralha” no saco mochila. Como o conteúdo da RC nunca é o mesmo, é variável, assiste-se à troca de diversas latas entre companheiros, uns gostam mais de atum, outros de sardinhas, outros preferem o feijão ao grau, etc. Na mochila tinha também que caber uma manta e o colchão de ar, um peso tal que endireitava qualquer “marreca”.

Da minha parte, quando meti o saco nas costas, tive que dar um passo atrás vergado pelo peso, e então decidi desfazer-me de algumas latas que ofereci a quem tinha mais “cabedal”.

Percorridos alguns km nos Unimog até ao local do início da caminhada, lá seguimos ora em fila indiana ora em “pirilau”, embrenhando-nos na densa floresta ou atravessando clareiras. O tempo corre devagar, a progressão é lenta, o calor aperta. O silêncio da floresta é por vezes interrompido pelo canto das aves canoras que nos “saúdam”.

Os olhos que insistentemente penetram na floresta não podem descurar o chão à frente das botas, porque nestes trilhos estreitos existem “covas de lobo”. Estas armadilhas consistem em buracos escavados na terra com grande profundidade, onde no fundo são espetados diversos paus afiados que ferem gravemente quem tem a infelicidade de lá cair. São tapados e disfarçados com uma cobertura de folhagem.

Ao fim de algum tempo o primeiro dos dois cantis de água está esgotado. Foram cheios de água mineral que comprei num bar perto do Grafanil. Que pena serem só dois, depois foram cheios da água que ia aparecendo em lagoas onde urinavam e defecavam os animais selvagens. Aí entrava em acção o tal comprimido milagroso que a tornava potável.

Anoitece, e há que procurar um bom lugar para dormir. Os mosquitos são mais que muitos, lá se vai dormitando e dando algumas estaladas na “chipala” !!!

No segundo dia a tensão é maior porque sabemos que vamos entrar em terrenos do in., algumas culturas e outros vestígios que vamos encontrando demonstram essa realidade. Os trilhos estão agora mais batidos, sente-se que por ali há gente, e tomando todo o cuidado lá seguimos no meio da floresta, e de repente, eis-nos perante algumas palhotas. Cuidado redobrado, armas em riste, mas não se vê vivalma. Era um campo abandonado. É assim que funciona a guerrilha. Têm sentinelas em lugares muito distantes das suas bases e ao mínimo sinal, correm a avisar da nossa presença na zona. É por isso que nenhum exército convencional pode ganhar estas lutas, porque os guerrilheiros conhecem muito bem o terreno e deslocam-se com grande facilidade para fora do nosso alcance.

Ao terceiro dia, já com a mochila mais leve, também com menos alguns kg evaporados pelo suor, e principalmente por estarmos de regresso, o pensamento num banho retemperador, uma cerveja bem fresquinha, dá-nos o ânimo suficiente para enfrentar o resto do dia, e finalmente lá chegamos à picada onde algum tempo depois se ouviram os ruídos dos motores das viaturas que nos levaram de volta ao nosso campo, nas margens do rio Zenza. Muitos tomaram banho no rio mesmo sabendo que por ali havia jacarés.

Nas costas desta foto escrevi: “A última água da operação no Zenza, durante a qual bebi 8 cantis. 14/3/1972”. Houve gente que bebeu muito mais, eu sempre bebi pouca água, ao contrário de há algum tempo a esta parte, por causa da “gota” dum corisco!

zenza1

Nesta foto vemos um grupo de furriéis da C.Caç. 3413, que participaram nesta operação: Penedo, Marques, Leitão, Alves e Maia (em pé); Mendes e Correia.

zenza2

Mário Mendes

2 thoughts on “Operação Sequência, Zenza

  1. Olá companheiro Mendes,
    Obrigado por teres recordado a operação nos rios Zenza/Bengo, no Cuanza Norte, na qual também participei.
    De facto partimos de Luanda e viajamos até ao Caxito, onde recebemos equipamentos e os guias e carregadores negros. Seguimos depois em viatura pelos Dembos até à base da operação, montada pela Engenharia. Pelo caminho tivemos um acidente com uma viatura onde houve vários feridos, entre os quais o nosso chefe das Transmissões, o furriel Valdez.
    A base da operação era uma autêntica cidade de tendas e barracas aberta em plena mata, onde não faltavam casas de banho, meses, cantina, cozinha, padaria, posto médico, posto de rádio, etc.
    Aqui esperava-nos o Batalhão de Intervenção de Angola (que tinha a base no Grafanil), de que fazia parte um colega de profissão, o Gonçalves, que há dias encontrei. Mas havia também outras unidades participantes, como os GE’s ou TE’s.
    Sei que a nossa companhia saiu dividida em dois grupos e em dias diferentes. Se a memória não me trai creio que saí no primeiro, que era comandado pelo capitão Ribeiro e composto pelos 2.º e 3.ºgrupos de combate dos alferes Pinto e Igrejas.
    Recordo-me, sobretudo, da longa caminhada de ida e do regresso, das duas noites que dormimos ao relento, das duas covas de lobo que encontramos, dos doentes de paludismo e um mordido por uma cobra, do calor abrasador, da sede e falta de água, do feijão maluco, dos mosquitos e formigas ferozes e, finalmente, do encontro com o rio onde muitos mergulharam inconscientemente, enquanto os mais ponderados montavam protecção contra o perigo que podia vir da outra margem.
    Para além disto tudo, a minha maior preocupação era o garoto cheio de feridas nas costas que me ajudava a carregar o equipamento de rádio, pois imaginava-o a fugir pela mata fora com tudo às costas.
    Antes ou depois da minha saída ainda fiz serviço no posto de rádio da base, onde o chefe era uma major já idoso que me deve ter tomado por oficial da especialidade.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s