13 anos de guerra – O embarque

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A viagem para África começava muito antes do embarque. O processo que levava um jovem até Angola, Guiné ou Moçambique iniciava-se habitualmente logo após o final da instrução da especialidade. Para um atirador, e tanto fazia sê-lo de infantaria, cavalaria ou artilharia, após ser dado como pronto vinha a ordem de mobilização. O caso mais vulgar e típico era o de o militar pertencer a uma companhia e esta a um batalhão.
A ordem de mobilização originava a guia de marcha para a unidade mobilizadora. Aí se juntavam os militares vindos  dos vários centros de instrução, os graduados e os comandantes. A companhia e o batalhão já tinham um número de código atribuído e, aos poucos, surgiam os especialistas diversos, os condutores, transmissões, enfermeiros e cozinheiros, de modo a que se preenchesse o quadro orgânico respectivo.
Enquanto se formava a unidade, realizavam-se os exercícios de instrução – IAO, a instrução de aperfeiçoamento operacional – com os conselhos sobre o que fazer em África para sobreviver, recebiam-se as vacinas, o camuflado e, por fim, a unidade estava pronta. Chegava a ordem de embarque e então o contingente formava em parada no quartel. Nos primeiros tempos, o capelão rezava uma missa campal, que depois caiu em desuso; o comandante da unidade mobilizadora, um coronel, proferia umas palavras alusivas  à missão e entregava o guião ao comandante do batalhão mobilizado, um tenente-coronel, ou então da companhia, um capitão; as tropas desfilavam ao som da música, era concedida a licença de dez dias antes de embarque e pagas as ajudas de custo. Neste momento, o militar era um mobilizado, ia a casa, despedia-se da família, fazia umas asneiras por conta, arranjava umas correspondentes para lhe escreverem, ou umas madrinhas de guerra, e voltava à unidade mobilizadora para daí iniciar verdadeiramente a viagem.

Neste regresso faltavam uns quantos camaradas, que tinham decidido dar o salto para o estrangeiro ou baixado ao hospital  com uma doença mesmo a calhar, mas os que restavam  formavam-se de novo em parada no quartel, com as malas, e embarcavam nas viaturas militares para  a estação de caminho de ferro mais próxima.
Na estação, quase sempre de noite, o contingente embarcava num comboio especial em direcção a Lisboa, ao Cais da Rocha ou ao de Alcântara. O navio que os iria levar estava atracado e as famílias apinhavam-se nas varandas da gare marítima com lenços a acenar,   cartazes com o nome do militar, para chamar a atenção, e lágrimas  da  despedida. A tropa, vinda de vários  pontos em quantidade suficiente para encher o navio, desfilava de novo, agora em continência perante um alto representante militar, com as senhoras do Movimento Nacional Feminino e da Cruz Vermelha a distribuírem lembranças e mais folhetos sobre o território de destino. Chegava o momento do embarque. Subiam-se as escadas e arrumava-se a bagagem junto ao beliche armado nos porões, transformados em  casernas. Depois, voltava-se ao convés, lutava-se por um lugar na amurada ou trepava-se aos mastros, para os últimos acenos.
Por volta do meio-dia, o navio recolhia as escadas e os cabos, a sirene apitava e, durante alguns anos, a instalação sonora tocava  uma marcha intitulada ANGOLA É NOSSA independentemente do destino – um ritual abandonado nos anos mais próximos do fim da guerra. O navio  afastava-se lentamente, virava a proa  à foz do Tejo, passava por baixo da ponte  e deslizava diante da Torre de Belém. A fome já apertava e eram dadas instruções para a primeira refeição a bordo.

Os oficiais seguiam para a Primeira classe, os sargentos para a Segunda e os praças para a Terceira. Neste caso, e dada a grande quantidade de tropas embarcadas, havia um sistema de self-service. Cada grupo nomeava os seus faxinas, que se aproximavam dos caldeirões, montados à proa e à ré, para receber um tacho de sopa, um de «segundo», o pão e a fruta, que redistribuíam pelos seus camaradas, no regresso aos seus postos. Comia-se como num piquenique, sentando no convés. Este sistema já funcionava mal com o mar calmo, mas piorava nos dias de tempestade. Nesses dias, os respingos do mar  salgavam a comida, os faxinas desequilibravam-se com o balanço, entornando a sopa, e os restos espalhados ajudavam a escorregar os que vinham em sentido contrário. Valia nessas ocasiões  o enjoo da maioria, que os tornava menos exigentes na quantidade e qualidade da alimentação.
A meio da viagem  realizavam-se exercícios de salvamento a bordo, e todo o contingente enfiava  o colete salva-vidas e cada um apresentava-se junto à baleeira que lhe estava destinada em caso de naufrágio. Tiravam-se umas fotografias e estava passada mais uma tarde. Os dias de calma eram gastos a jogar às cartas e a receber alguma instrução sobre o destino, em que ninguém, verdadeiramente, queria pensar.

A passagem do equador fornecia o pretexto para uma cerimónia da praxe e, entretanto, aproximava-se a chegada, que, quase sempre de manhã, era o tempo da curiosidade de África, o tempo de refazer as malas e o desembarque. Nova formatura, agora o calor, um desfile e um discurso. Depois, a partida para um campo militar, o Grafanil, em Luanda, o Cumeré, em Bissau.
Aqueles para quem Moçambique era o destino, prosseguiam viagem de Lourenço Marques para norte, até à Beira, Nacala ou Porto Amélia.
A partir daqui, seguiam-se os dois anos da comissão.

© Centro de Documentação 25 de Abril

NR: A C.Caç. 3413 embarcou em Lisboa, no dia 31/07/1971 e chegou a Luanda no dia 09/08/1971, no navio NT “Vera Cruz”.

veracruz

One thought on “13 anos de guerra – O embarque

  1. INFORMO TAMBÉM QUE VIAJEI NESTE BARCO , NA MESMA DATA PARA ANGOLA. A MINHA COMPANHIA ERA : C.P.M. 3427 E O P.P.M 30 24. REGRESSAMOS 10.11.73. MEU NOME : NARCISO GONÇALVES PEREIRA

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