Clube dos SEXA

Deixe um comentário

Dou as boas vindas aos companheiros da C.Caç. 3413 da “colheita” de 1949, que já entraram no clube dos SEXA (Sexagenários). Eu tornei-me “sócio” hoje. Aqui vão algumas notícias do ano de 1949 em Portugal.

III Semana Social Católica. Realiza-se nos começos do ano, depois de ter sido marcada para 1946 sob o lema A Problemática do Trabalho, cabendo a coordenação do processo ao professor João Porto. Há intervenções de Guilherme Braga da Cruz , J. S. da Silva Dias, Luís de Pina, Antunes Varela, Afonso Rodrigues Queiró, Correia de Barros, Émile Planchard e Luís Raposo. Proposta a inclusão do direito ao trabalho na futura revisão constitucional.

Causa Monárquica, presidida por Fezas Vital, apoia a candidatura de Carmona (7 de Janeiro). Rocha Martins critica a Causa e outros monárquicos assumem-se pela oposição, como José Pequito Rebelo, Vieira de Almeida, Francisco Rolão Preto, Luís de Almeida Braga e Rui de Andrade.

II Conferência da União Nacional (dias 7 a 9 de Janeiro), promovida por Marcelo Caetano. Salazar faz um discurso, onde é dúbio quanto à restauração da monarquia. Critica as teses partidárias e individualistas e teme um golpe de Estado constitucional. Considera que nas próximas eleições não se trata de escolher um entre dois candidatos mas, pela força das coisas, a escolher entre dois regimes. De forma autobiográfica proclama: devo à Providência a graça de ser pobre… nunca tive os olhos postos em clientelas políticas nem procurei formar partid… jamais empreguei o insulto ou a agressão… não tenho ambições, não desejo subir mais alto. Declara que tem de haver um governo que governe sem clientelas, sucessiva ou conjuntamente alimentadas pelo Tesouro e sem espírito de partido.

Campanha de Norton de Matos – Iniciada a campanha eleitoral para a presidência, em 3 de Janeiro. O governo tenta ligar Norton à maçonaria, mas Carmona também havia sido irmão da augusta ordem e Ulisses Cortês, talvez infundadamente, também era acusado de tal pertença cívica. Há palestras de Botelho Moniz no Rádio Clube Português de apoio a Carmona, a partir do dia 14 de Janeiro, que são depois transcritas no Diário da Manhã. No Diário de Notícias, artigos de Armindo Monteiro ligam a oposição ao comunismo, mas Salazar fica incomodado com esta aproximação e terá dito a Manuel Múrias: que recompensa terá recebido? José Vicente de Freitas, em entrevista ao Diário de Lisboa, declara: apoio a situação, embora não incondicionalmente … não me interessa tomar parte em discussões políticas (26 de Janeiro).

Comício em Coimbra – Grande Comício de Norton de Matos, em Coimbra, no Teatro Avenida, quando Francisco Salgado Zenha, então jovem militante comunista, é presidente da Associação Académica. Palma Carlos, presente, é aclamado como o advogado dos 108. Na mesa, Fernando Lopes e Joaquim Namorado. Norton chega a querer denunciar o compromisso unitário, mediante uma declaração pública, claramente anticomunista, no que é dissuadido por Barbosa Magalhães e Azevedo Gomes.

Comícios no Porto e em Lisboa – Realizam-se outros dois grandes comícios. No dia 23 de Janeiro, no Porto, com cerca de 100 000 pessoas. Em 10 de Fevereiro em Lisboa.

Diário de Lisboa – Alberto de Serpa, Miguel Torga, Cunha Leal, Pulido Valido e Luís de Almeida Braga escrevem, durante os meses de Janeiro e Fevereiro, vários artigos no jornal Diário de Lisboa, apoiando Norton de Matos.

Contra a república dos professores – O monárquico Almeida Braga fala numa economia essencialmente burocratizada e numa república de professores onde é difícil falar. Se a nação pode e deve ser corporativa; não o poderá ser o Estado. Proclama que não é torturando os homens que se deixam enlear pelo erro comunista, que o comunismo será vencido. Sempre o martírio foi esperança de triunfo e a intolerância é sinal de fraqueza ou de dúvida na própria crença. Quem está seguro de si, procura convencer e não intimidar. A violência chama a violência e a injustiça gera a injustiça!.

Pelo espírito criador e pela regalia da liberdade – Alberto de Serpa clama pela regalia da liberdade do Espírito. Miguel Torgaö , criticando as sombras prepotentes defende a rebeldia, porque o espírito criador é, por sua natureza, heterodoxo e dinâmico criticando o caldo de cultura morno e temperado que gera a mediocridade. Reconhecendo que a oposição representa o anseio, a inquietação, a vontade cosntante de caminhar, declara-se pelo movimento, pela variedade, pelo jogo de oposições, por tudo o que não seja monotonia, concluindo que vota contra o que está.

Eleições presidenciais (13 de Fevereiro de 1949). Norton anuncia desistência no dia 12. Segundo Mário Soares, os dois últimos dias da “eleição” foram passados por nós a queimar os arquivos da Candidatura que se encontrava cercada por agentes da PIDE que aguardavam o momento de intervir.

Movimento Nacional Democrático – Surge no Porto o pró-comunista Movimento Nacional Democrático, constituído pelas comissões de apoio à candidatura de Norton que não aceitam a dissolução por este determinada pelo candidato e que eram controladas pelo PCP. São imediatamente presos vários oposicionistas como Mário Soares, Manuel Mendes, Palma Carlos, Salgado Zenha, Ramos da Costa, Armindo Rodrigues (5 de Fevereiro).

●Toma posse a IX comissão executiva da União Nacional, presidida pelo antigo reconstituinte Ulisses Cortês, com França Vigon como vogal (1 de Abril).

União Democrática Portuguesa – Em alternativa ao MND, os oposicionistas atlantistas, António Macedo, Carlos e Mário Cal Brandão e Agostinho de Sá Vieira, esboçam a constituição de uma União Democrática Portuguesa, chegando a emitir um manifesto Aos Democratas Portugueses. Os estatutos são elaborados por António Macedo e Agostinho de Sá Vieira (5 de Junho). Este grupo aproxima-se da chamada Comissão dos 24, também atlantistas, com Mário de Azevedo Gomes, Carlos Sá Cardoso, Afonso Costa filho, Lobo Vilela e Adão e Silva

Prisão de dirigentes do PCP em Março. Grande ofensiva da PIDE contra dirigentes do PCP, depois de descoberta documentação numa casa clandestina. Álvaro Cunhal e Militão Ribeiro são presos na zona do Luso. Jaime Serra e Augusto de Sousa em Lisboa. Militão Ribeiro morrerá em 2 de Janeiro de 1950. Álvaro Cunhal começará a ser julgado em 3 de Maio de 1950. Evadir-se-á de Peniche em Janeiro de 1961. Militão, considerado o precursor das dissidência m-l do PCP; já em Janeiro de 1949, numa reunião do comité central, havia criticado a linha dita de unidade, proposta por Cunhal. No final do ano é desmantelado o chamado sector intelectual do partido em Coimbra.

Marcelo Caetano faz publicar em Março, no jornal A Voz, um artigo onde critica frontalmente o ministro da educação, Pires de Lima, intitulado A Corporação Universitária, sendo, por isso, exonerado das funções que exercia na União Nacional. Mas em 25 de Novembro, o mesmo Salazar promove a respectiva eleição como presidente da Câmara Corporativa, sucedendo a José Gabriel Pinto Coelho.

Eleição nº 57 da Assembleia Nacional (13 de Novembro). 120 deputados. Não participam no acto eleitoral os grupos políticos que haviam integrado o MUD. Listas da oposição em Castelo Branco, com Cunha Leal (2,45%), e Portalegre, com José Pequito Rebelo (14, 39%). A lista encabeçada por Cunha Leal tem um carácter híbrido, integrando monárquicos como o marquês da Graciosa e o padre Ribeiro Cardoso. A de Portalegre assume-se como regionalista e agrária, sendo maioritariamente composta por monárquicos e recusando assumir-se como lista da oposição.

Galvão descontente – Em Novembro começa o conflito entre Henrique Galvão e o Salazarismo. Galvão, que entrara em crise com Teófilo Duarte, não é convidado para as listas de deputados e escreve um violento artigo no Jornal de Notícias, onde escolhe como alvo Mário de Figueiredo, entretanto nomeado administrador da CP. Ele, que se insinuara como íntimo colaborador do anterior ministro das colónias, Marcelo Caetano, é acusado, pelos homens do regime, de comportamento pouco escrupuloso na gestão dos dinheiros públicos, coisa que, a ser verdade, era ocultada quando o mesmo regime instrumentalizava a respectiva criatividade militante, assim se demonstrando como até a corrupção pode ser analisada segundo os princípios maquiavélicos. Resta saber se os honestos que gerem desonestos não serão tão corruptos quanto os próprios corruptos.

Anuário 1949

MM

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s