A logística da FNLA

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A FNLA durante os anos da guerra colonial tinha a sua sede na República Democrática do Congo, e era a partir desse país que os seus guerrilheiros se infiltravam para desencadear acções no Norte de Angola.

Os aquartelamentos de  Mamarrosa e  Luvo situados junto à fronteira eram zonas onde essas infiltrações tinham lugar, e onde a C.Caç. 3413 esteve desde 09/04/1972 a 08/09/1973.

Um dia, ao percorrer a picada entre Luvo e Mamarrosa, encontramos este “turista”, que era um carregador que tinha ficado para trás do grupo onde ia integrado.  Recolhido e transportado ao aquartelamento foi batida esta “chapa”, já tratado da ferida no pé e com dois  nacos de pão na mão porque a fome era “negra”.

A casaca era feita de serapilheira, e trazia às costas um saco com mandioca e uma galinha viva.

Era homem de poucas falas, tipo “bicho do mato” e foi entregue ao comando da região em S. Salvador do Congo. Com certeza que aí “falou” porque alguns dias depois soube-se que os “páras” tinham cercado uma mata, matando alguns guerrilheiros, certamente melhor fardados e alimentados do que este “pé descalço”.

Pode-se imaginar o que era a logística da FNLA, a escravidão e as condições de vida a que sujeitava certamente muitos colaboradores “forçados”.

A foto seguinte mostra a “transformação” operada e o pouco à vontade que demonstra com esta nova roupagem, sintoma do que era a sua vida na selva.turra1

Depois deste acontecimento, a vida da  C.Caç. 3413 tornou-se mais difícil. Até Outubro de 1972, a situação manteve-se calma, mas com as dificuldades que a FNLA começou a sentir no interior, e com os seus apoiantes internacionais a exigirem “serviço”, a táctica passou a ser a realização de ataques aos aquartelamentos junto da fronteira.

O primeiro aconteceu em 22/10/1973, situação que está descrita no post “Ataque ao Luvo” publicado no dia 13/04/2009, em que o inimigo sofreu uma grande derrota.

Só voltou à carga em 02/02/1973 colocando uma mina anti-carro que foi accionada por uma Berliet, provocando 4 feridos. Três dias depois (05/02/73), outra mina pisada por um Unimog provocou um morto e dois feridos. Esta foi a semana mais “negra” da Companhia.

O Luvo sofreu outro ataque de grande envergadura no dia 26/03/1973, que não deixou baixas do nosso lado. Desiludidos por mais um fracasso, deixaram-nos em paz até ao fim da nossa permanência na zona, em 08/09/1973.

(Mário Mendes)

One thought on “A logística da FNLA

  1. Olá companheiro Mendes,
    Reparei que já acabastes as férias “civis” e voltastes às lides de historiador da nossa Companhia.
    Interessante possuíres a data precisa do segundo ataque ao Luvo (26 de Março de 1973), acontecimento que eu vivi numa noite de verdadeiro inferno.
    De facto, não houve baixas a lamentar mas sim alguns feridos ligeiros, tendo eu sido um deles, pois ao atravessar a parada a correr entre o refeitório (onde me encontrava com um grupo de convívio que assistia ao trabalho do padeiro a pôr o pão no forno) e o posto de transmissões, fui projectado e fiquei com as pernas esfoladas, um buraco nas costas e uma queimadura dorsal feita seguramente por uma bala de raspão.
    Apesar disso fiz o meu trabalho comunicando com o alferes Igrejas (o comandante, que estava no morteiro 81), através do rádio AVP-1, e conseguimos que os famosos obuses da Mamarrosa não nos caíssem em cima.
    Recordo-me que a seguir o Pedro enfermeiro me ligou como uma múmia, e as colunas que foram aparecendo com a madrugada me quiseram evacuar para Luanda.
    Brevemente farei um texto mais pormenorizado deste ataque.
    Um abraço do José Sampaio

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