Foi há 38 anos …

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Já lá vão 38 anos …

Foi a 31 de Julho de 1971, que a C.Caç. 3413 embarcou em Lisboa no Vera Cruz a caminho de Angola. Assim que o navio saiu do Mar da Palha foram muitos os que sentindo as primeiras ondulações se aproximaram dos varandins inclinando a cabeça para o mar. “Então pá, estás a ver se o barco tem rodas?” Era esta a frase que os enjoados ouviam e que certamente os deixava ainda pior, naquela tentativa de “chamar pelo Gregório”. Eu já tinha também sofrido daquele mal, no meu baptismo de mar a caminho dos Açores a bordo do “Funchal”.

Depois de nove dias e de cruzar pela primeira vez o equador, aportámos a Luanda no dia 9 de Agosto. Dali seguimos em comboio militar para o  Campo Militar do Grafanil. Já ouvi muita gente chamar-lhe campo de concentração, na verdade era ali que davam entrada todos os militares que vinham da Metrópole e os que regressavam já depois da comissão cumprida, mas daí a chamar-lhe “campo de concentração” na acepção mais dura da palavra vai alguma distância, pois lá havia cinema ao ar livre, bares ao ar livre onde na sombra de chapéus de palha se degustavam cervejas (cuca e nocal), e até uma igreja havia com o altar embutido num embondeiro. Esta era a porta deste campo, e uma destas casernas era a “suite dos sargentos”.

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Lá dentro vivia-se um sentimento de contrastes entre aqueles que chegavam, “maçaricos”, com as fardas “novinhas em folha”, receosos de uma aventura que ali iriam começar, e outros bem descontraídos, as fardas desbotadas e gastas pelo tempo, que em breve despojariam no “puto”. Por vezes cruzavam-se conterrâneos, e ali mesmo se punham as notícias em dia da “santa terrinha”.

Por 3 períodos distintos estivemos algum tempo em Luanda, (11 semanas no total) e vou recordar alguns sítios frequentados pela malta militar. Lá era sempre Verão e por isso algum tempo livre era passado em banhos de mar nas belas praias da Ilha intercalados com umas imperais no bar Barracuda. Na baixa, o Polo Norte, A Portugália e o Bar Rialto eram também locais muito procurados. A cerveja fazia sempre parte da ementa juntamente com o marisco que era bom e barato. Um prato de camarão custava 15 escudos. Por falar em cerveja, uns dias depois da chegada a Luanda a nossa companhia foi convidada a visitar a fábrica da Nocal, como era hábito, para assim habituar o organismo à troca da Sagres pela Nocal!

Para os amantes da noite, havia muitos bares e o cinema Restauração era também uma aposta válida. Era local selecto, não se podia entrar em calções nem de chinelos.

Não posso também deixar de referir outros locais de “culto”, situados ao cimo da Avenida dos Combatentes, um do lado esquerdo, Bairro Operário (BO), o outro à direita (Marçal), onde a troco de vinte escudos se negociavam uns minutos de prazer …

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Eis algumas notas que em 1971 estavam em circulação. Apesar de oficialmente o escudo português ter a mesma cotação que o angolano, no mercado negro, os cambistas chegavam a dar mais 20 a 30%. Assim mil escudos de Portugal podiam render mil e trezentos angolanos. Já agora para os mais saudosistas, uma viagem aérea de Luanda para Lisboa e regresso custava 12 contos em 1972.

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(Mário Mendes)

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