FNLA

9 comentários

embfnlaUPA/FNLA

A partir do final da década de 40 surgiram, no norte de Angola, vários movimentos com o objectivo comum de se oporem ao sistema colonial. Tiveram, de início, características messiânicas e base tribal, destacando-se o movimento encabeçado pelo «profeta» Simão Toco, que anunciou o fim da miséria e nova mensagem divina. Embora detido pelas autoridades em 1949, as suas ideias estenderam-se entre os bacongos  emigrados no então Congo Belga, que vieram a criar em 1956, a Aliança do Povo Zombo (ALIAZO). Este movimento converteu-se, em 1962, no Partido Democrático de Angola (PDA).

Mas foi outro movimento, de características similares, que esteve na base da sublevação da Baixa do Cassange, em Janeiro de 1961. O movimento, que, de alguma forma, colheu de surpresa as autoridades portuguesas, iniciou-se com uma greve dos trabalhadores da Companhia Cotonang, como forma de protesto contra o atraso no pagamento de salários, mas transformou-se rapidamente em protesto da população contra o cultivo obrigatório de algodão e as duras condições de trabalho.

Em todo o movimento, desempenhou papel de destaque António Mariano, que pertencia a uma seita católica e cujo nome ficou ligado à insurreição, conhecida como «Guerra da Maria». os habitantes da região queimaram as sementes, destruíram ou interromperam vias de comunicação, mataram gado, invadiram armazéns e missões católicas, expulsaram os brancos, mas não utilizaram armas. Para reprimir este movimento, as autoridades socorreram-se de unidades do Exército e da Força Aérea presentes em Angola, que atacaram os grevistas de 24 de Janeiro a 2 de Março, transformando a acção num desproporcionado massacre de populações, cujo número de vítimas nunca se conheceu com exactidão.·
Contudo, a organização que viria a dar consistência ao nacionalismo bacongo foi a União dos Povos do Norte de Angola (UPNA), criada em Julho de 1954, em Leopoldville, com a finalidade de influenciar a sucessão do rei do Congo, Pedro VII, que morreu nesse ano. A UPNA pretendia que o futuro monarca fosse mais independente das autoridades portuguesas, apresentando como candidato Holden Roberto aparentado com o antigo rei. Entre os seus apoiantes encontravam-se os bacongos angolanos emigrados no Congo Belga e nas missões protestantes, numa das quais ele próprio fora educado. Mas o Governo e a Igreja Católica tinham outro candidato, António da Gama, que tomou o nome de António III. A facção derrotada iniciou, então, uma onda de agitação independentista, que alcançou o seu ponto mais alto ao longo de 1956-57.Mas como neste último ano morreu António III, as autoridades portuguesas preferiram deixar vago o trono, para mitigar o nacionalismo que nova designação poderia provocar.

A UPNA tinha como objectivo programático a independência do antigo reino do Congo, em que se incluía Cabinda. Com esta ideia, Holden Roberto foi, em Dezembro de 1958, ao congresso dos povos africanos realizados em Acra. Perante a vitalidade da ideia do pan-africanismo ficou convencido da necessidade de diluir a componente tribal do seu partido, o que o levou a mudar-lhe o nome para UNIÃO DOS POVOS DE ANGOLA (UPA). A partir de então, a UPA transformou-se no movimento nacionalista mais bem organizado e aquele que maiores simpatias congregavam. Iniciou então um processo de implantação em áreas de maior dimensão, com o objectivo de se estender a todo o país. Em Luanda, a maior parte dos seus apoiantes, que não podiam deixar de ser clandestinos, como de resto os de todos os outros movimentos, eram protestantes. Mas tinha também a simpatia de destacados católicos, como o Cónego Manuel Mendes das Neves.

Nestes meios nacionalistas sentiu-se a necessidade imperiosa de oposição ao sistema colonial, logo a seguir às primeiras independências africanas, mas especialmente a seguir à do Congo Belga, em Julho de 1960. Foi aliás, na sequência deste sentimento, que se planeou o assalto a duas prisões em Luanda: a Casa de Reclusão Militar e o Forte de São Paulo, com o intuito de libertar alguns presos nacionalistas.

De Leopoldville, onde estava exilado, Holden Roberto desaconselhou este projecto, sobretudo porque em Luanda, em torno da UPA, se movimentava apreciável número de mulatos, que não eram da confiança de Holden Roberto. Mas também porque ele desejava iniciar a guerra com uma insurreição de grandes proporções, já em preparação para a zona Bacongo, onde as raízes da UPA eram muito profundas. Contudo, os conspiradores de Luanda não só não detiveram a mobilização, como aceleraram a sua execução, a fim de aproveitar a presença  na cidade de dezenas de jornalistas estrangeiros atraídos pelo assalto ao paquete SANTA MARIA, que poderiam vir a sensibilizar o mundo para a situação colonial portuguesa. Entre cerca de uma centena de participantes na acção, o núcleo principal era formado por protestantes ligados à UPA, havendo também estudantes católicos do seminário de São Domingos e alguns simpatizantes do MPLA e de outros grupos, porque o conceito destas militâncias não era então muito rígido.

O ataque iniciou-se na noite de 4 de Fevereiro. O balanço oficial de vítimas foi de cerca de 40 assaltantes e de 7 polícias, já que as forças portuguesas, recuperadas da surpresa inicial neutralizaram com facilidade o ataque realizado com «catanas e varapaus». Nos dias seguintes, e em especial no dia do funeral dos polícias mortos, os colonos brancos e as forças militarizadas desencadearam violenta repressão nos bairros negros de Luanda, que durou cerca de um mês. Curioso foi que o MPLA, cuja direcção estava exilada em Conacri, reivindicou a acção, enquanto a UPA se remeteu ao silêncio.·
O conselho de segurança da ONU foi convocado para apreciar os acontecimentos de 4 de Fevereiro. A UPA, assessorada por conselheiros americanos, pretendeu aproveitar a oportunidade para conseguir as simpatias mundiais para a sua causa, o que levou a preparar uma sublevação geral de grande parte da região norte de Angola, incluindo São Salvador, Uije, Dembos, Luanda e Cuanza Norte. Nesta zona, a partir de 15 de Março, elementos da UPA e os seus seguidores destruíram tudo o que encontraram pela frente: fazendas, postos administrativos, destacamentos policiais; atacaram brancos e negros, crianças e mulheres, numa onda nunca vista de chacinas e assassínios.

As vítimas cifraram-se em cerca de 1.000 brancos e de 6.000 negros. Esta actuação da UPA não só contribuiu para um profundo movimento de revolta dos colonos brancos, como deu ao Governo Português o argumento final de que necessitava para envolver o país numa guerra sem quartel contra qualquer movimento ou expressão nacionalista. Demonstrou também a ausência, no seio da UPA, de qualquer ideologia moderna, evidenciando-se a sua natureza tribal. De facto, os bacongos não conseguiram, nem sequer tentaram, o apoio, ou ao menos a neutralidade, dos trabalhadores negros contratados das fazendas do Norte, fundamentalmente constituídos por ovimbundos e ganguelas provenientes do Centro de Angola.

À dureza e barbaridade tribal, as forças portuguesas responderam implacavelmente. Em 9 de Agosto, o exército entrava em Nambuagongo, proclamada antes a capital dos revoltosos. Antes do fim do ano, incompreensivelmente, alguns responsáveis portugueses davam as hostilidades por terminadas.

Em conclusão, a UPA, ao ser a primeira organização a iniciar as hostilidades em grande escala, mobilizando milhares de seguidores, acabou por conseguir grande  apoio internacional, desde os Estados Unidos até vários países africanos. Para corrigir a sua conotação tribal, a UPA transformou-se em Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) em Março de 1962, integrando o PDA. Pouco depois constituiu o Governo Revolucionário de Angola no Exílio (GRAE), que no fim de 1963, tinha sido reconhecido pela OUA e por 32 países africanos.

© Centro de Documentação 25 de Abril

9 thoughts on “FNLA

  1. Armando Maçanita: O Herói da Conquista de Nambuangongo

    A propósito da tomada de Nambuangongo, a 9 de Agosto de 1961, fiz em tempos uma brochura dedicada ao meu conterrâneo coronel Armando da Silva Maçanita, que comandando uma das três forças da «Operação Viriato», enviadas para tomar a «República de Nambuangongo», foi o primeiro a chegar a esta vila, à frente do Batalhão 96.
    Nascido em Portimão em 1917 e aqui falecido em 2005, foi um dos últimos heróis que o país conheceu. Tendo chegado a Angola nos primeiros meses de 1961, no comando do Batalhão de Caçadores 325, aqui se manteve quase sempre em acção, até meados 1962. Em 1965-1967 fez uma comissão em Moçambique, onde foi comandante do sector de Vila Cabral, numa altura em que era visto como uma celebridade.
    Comandou também algumas unidades militares da metrópole, nomeadamente o Regimento de Infantaria n.º 10, de Aveiro, e o Campo Militar de Santa Margarida (1969-1972), sendo nesta altura já coronel.
    Após a sua aposentação, no posto de coronel, foi na sua terra natal e durante treze anos presidente do núcleo local da Liga dos Combatentes, tendo sido várias vezes alvo de homenagens, nomeadamente a que lhe foi dedicada em Maio de 2005, durante o encontro de associações de ex-combatentes, realizado em Portimão. Foi nessa ocasião que o conheci e o pude admirar mais estreitamente. A sua cidade natal atribuiu-lhe a Medalha de Mérito do Município (grau ouro), em cerimónia realizada nos Passos do Concelho, a 16 de Setembro de 2005, altura em que foi descerrada uma placa toponímica com o seu nome, numa avenida junto às Cardosas.
    Armando Maçanita, que faleceu em Portimão, com 88 anos, a 17 de Novembro de 2005, ganhou merecidamente um lugar de destaque na galeria dos heróis nacionais.

    • O tenente-coronel Maçanita foi realmente um homem valente, e na conquista de Nambuangongo depois de muito esforço e com a perda de 4 homens recebeu uma ordem do QG de Luanda, para não entrar na vila porque iam lançar pára-quedistas para a ocupar. Respondeu: “Quem entra ali sou eu. E se lançarem pára-quedistas vou tomá-los como inimigos, porque não sei se são portugueses” e desligou o rádio para não receber mais mensagens.
      Em Luanda não queriam que fosse o batalhão 96 o primeiro a entrar em Nambuangongo, queriam que essa honra fosse concedida ao batalhão 114 comandado pelo tenente-coronel Henrique de Oliveira Rodrigues, que era um “protegido” do comando do Estado Maior em Luanda, general Silva Freire, mas este batalhão estava muito atrasado na caminhada. Queriam “fazer a folha” ao tenente-coronel Maçanita, mas com a sua coragem e tenacidade tudo superou e foi ele que realmente conquistou Nambuangongo. A teimosia custou-lhe um rol de acusações, foi mandado regressar a Luanda e tiraram-lhe o comando do batalhão 96.
      No entanto nunca se vergou.

      • Na marcha para Nambuangongo o batalhão 96 foi reforçado com um pelotão de engenharia comandado pelo alferes Jardim Gonçalves (esse mesmo, do BCP), engenheiro que foi sempre muito admirado pelo tenente-coronel Armando Maçanita. Nos almoços que todos os anos organizavam e que reunia os bravos do batalhão ele confessava: “Se não fosse o alferes Gonçalves, não sei se teria conseguido chegar a Nambuangongo”.
        O pelotão de engenharia, sob as ordens de Jardim Gonçalves, construiu jangadas com que atravessaram rios, removeu árvores de grande porte que impediam a passagem, ergueu pontes através das quais venceram os rios. No fim da operação, o alferes foi condecorado com uma Cruz de Guerra.

    • Fui um soldado do bat. de caçad. 325 em angola aonde cheguei a 01NOV1961. Tive em vários locais de angola e depois de ler esta públicação, quero-me parecer que o comandante Maçanita não foi comandante do bat. 325. O seu comandante era o tenente-coronel António Pereira de Santana. O comandante Maçanita chefiava o sector. Eu fazia parte do grupo de comando OS FALCÔES e quando abandonou angola o meu grupo que estava em Quicabo,fez parte da sua segurança quando partiu de Muxaluando, em avioneta, com destino a Luanda

      • Sobre a tomada de Nambuangongo e na qualidade ex soldado do bat. caçad. 325, acrescento que na altura da sua tomada aos guerrilheiros o meu batalhão ainda não se encontrava em angola, tendo chegado a esta povincia em 01Nov1961. Esteve em luanda algum tempo, não me lembro quanto e daqui foi destribuido pelo kuanza Sul, nomeadamento pelo Calulo, Gabela, Porto Amboim e a ccs em Novo Redondo, onde permaneceu oito meses e daqui surpou a Quicabo onde permaneceu até perto do regresso à metrópole, aguardando ordem de embarque em malange.

  2. Caso tenham fotos do batalhão 96 e do tenente-coronel Maçanita, ou conheçam José Ferreira natural de Resende esteve em angola em 61/63 respondam para este email an.toni@hotmail.com sou neto dele e gostava de encontrar fotos do batalhão para lhe dar.Cumprimentos

  3. Meu caro Toni és decerto um jovem mas um com sentimentos, o que vem sendo raro. Sei quanto isso é belo, és pois dos poucos jovens que a importância que uma simples foto tem para quem esteve na guerra e que tão rapidamente está a ser esquecida tal como teu avô eu por lá andei tal como ele sou incondicional admirador coronel MAÇANITA. É necessário lembrar a guerra ,para que não haja mais guerras.

  4. Tinha 8 anos quando vi pela última vez o meu irmão Armindo Grilo Paulino 1Cb Rt 1422/60. E RI 2 A CCac103/BCac96 cbt.que embarcou para Angola logo após as primeiras acções terroristas, integrado no batalhão comandado pelo tenente coronel Maçanita.
    Faleceu em combate a 19 de Junho de 1961. Os únicos dados que tinha até há pouco, publicados num jornal diário da altura, é que fazendo parte de um pequeno grupo que se encontrava acampado ao ar livre tendo por perto uma árvore onde tinha montado o equipamento de transmissões pelo qual era responsável. Ao levantar-se de manhã, afastou-se alguns metros, possivelmente para urinar, e foi alvejado mortalmente pelos guerrilheiros que em grande número tinham o pequeno acampamento cercado. A notícia publicada elogiava a sua acção de apesar de ferido mortalmente, ter a consciência do perigo que os companheiros corriam e, pondo acima da sua vida a vida dos companheiros, dirigiu-se à árvore onde estava o equipamento conseguindo ainda pedir auxílio. Neste confronto parece-me que faleceu também outro companheiro.
    Pesquisando na internet, a propósito da personalidade do tenente coronel Maçanita, encontrei num artigo intitulado “NAMBUANGONGO” da autoria do senhor Horácio de Almeida, a seguinte passagem:
    ” Na zona de Caxito, uma companhia do batalhão depara-se com um numeroso grupo calculado em mais de um milhar de guerrilheiros. Maçanita põe a pistola-metralhadora FBP à tiracolo e vai ver. A mole de negros começa a formar um círculo para cercar a companhia. O tenente-coronel avança com o cabo Armindo Grilo ao lado – e os dois ficam a meia dúzia-1 de metros de um guerrilheiro armado de canhangulo. Parece ser o chefe. É um gigante com quase dois metros de altura. Maçanita é o primeiro a disparar: faz uma rajada e mata-o.
    Vem a saber depois que o homem da guerrilha abatido é Maneca Paca – de quem os militares portugueses já tinham ouvido falar com temor.”

    Certamente o cabo Armindo Grilo é o meu irmão.
    Agradecia aos companheiros que por ventura se recordem do meu irmão ou a alguém que me possa por em contacto com algum deles, se pusesse em contacto comigo.
    O meu email é « j.m.paulino@sapo.pt»

  5. O 1º cabo Armindo Grilo Paulino faleceu a 15 de Julho e não a 19 de Junho de 1961, conforme consta no artigo anterior.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s