Homenagem a dois combatentes.

7 comentários

Certamente haverá poucas freguesias em Portugal, que não tiveram os  seus mortos, durante a guerra colonial.

Hoje, quero prestar homenagem aos meus dois conterrâneos (freguesia de Benquerenças, concelho e distrito de Castelo Branco), que “deram a vida” neste conflito.

  • João Manuel Mendes Ribeiro, alferes miliciano, que faleceu em 04/10/1971, no Hospital de Bissau, vítima de ferimentos em combate, na zona de Xime, Guiné. Pertencia à C.Art.2715/B.Art.2917. Nesta data eu estava na base táctica de Cecília, zona do Toto, norte de Angola, e um dia à noite ao ouvir a rádio “Voz do MPLA” no final do noticiário era difundido algo como o  seguinte: “Os nossos irmãos do PAIGC abateram na Guiné o alferes miliciano João Manuel Mendes Rideiro”. Ao ouvir este nome fiquei petrificado, tudo condizia com os dados do meu conterrâneo, mas podia ser que se tratasse de outro militar, há nomes iguais. No dia seguinte escrevi um aerograma para a família, aludindo a esta notícia, e comunicando também que naquela semana não tinha recebido o semanário que me costumavam enviar, para saber notícias da minha “santa terrinha”. Será que se tinha extraviado? A resposta veio pronta na volta do correio. Era verdade que o João Manuel tinha morrido, e quanto ao jornal não o tinham enviado nessa semana porque ele noticiava a morte do amigo. Esse semanário que tanta companhia me fez lá em terras distantes ainda hoje se publica:  www.reconquista.pt
  • José Pires Ventura, furriel miliciano, que faleceu em combate a 08/07/1972, em Mueda, Moçambique, e que fazia parte da C.Art.3503/B.Art.3876. A morte deste amigo deu-se em circunstâncias desastrosas, pois foi vítima do rebentamento de um dilagrama que “um dos nossos” utilizou com bala real, depois de terem caído numa emboscada. Para quem não foi à guerra, o dilagrama é um dispositivo que se utiliza para lançar uma granada defensiva a uma distância maior do que permite o lançamento manual. Era introduzida no cano da espingarda e projectada por um cartucho propulsor sem bala. Era uma arma muito eficaz mas muito perigosa, porque se projectada com um cartucho com bala, rebentava no cano da espingarda e atingia com estilhaços todos quantos se encontrassem por perto, e foi isso que aconteceu ao José Ventura. Aqui está um exemplar de dilagrama: dilagrama

Em todas as secções de combate havia pelo menos um elemento com este dispositivo, na minha essa tarefa estava entregue ao soldado angolano Tomás Cachique, um rapaz muito “certinho” e em quem sempre tive muita confiança. No entanto, sempre antes de subir para o Unimog, eu lhe pedia para tirar o carregador da G3, verificar se a primeira bala era a de propulsão (tinha a cabeça vermelha), e puxar a culatra atrás, para verificar se não havia uma bala real na câmara. Muitos acidentes aconteceram com estes dispositivos, porque no carregador podia estar em 1º a bala de propulsão, mas já estava na câmara, uma real.

Mário Mendes

Nota: Fui alertado de que mais 2 militares que nasceram na freguesia de Benquerenças, tombaram também na guerra colonial ao serviço da Pátria, e aos quais presto igualmente a justa homenagem que lhes é devida:

  • Manuel Vilela Caldeira, 2º sargento piloto da Força Aérea, que faleceu em Moçambique a 05/02/1963 por acidente. Pertencia à Base Aérea 10 (PV2-H#4617 Esq.101)
  • João Rodrigues Martins, soldado apontador de metralhadora, que faleceu em 12/08/1961 em combate, em Angola. Pertencia à C.Caç.105/B.Caç.96. Era natural de Taberna Seca, lugar que àquela data pertencia à freguesia de Benquerenças. Foi desanexada e hoje pertence à freguesia de Castelo Branco.

7 thoughts on “Homenagem a dois combatentes.

  1. A propósito desse dispositivo perigoso que era o dilagrama, lembro-me de alguns acidentes que se deram no palco da guerra e li também algures que um alferes matou grande parte do seu pelotão com um deles.

    http://www.correiomanha.pt/noticia.aspx?contentid=852E5AE0-862D-4FF0-87F3-C7B359DA2701&channelid=00000019-0000-0000-0000-000000000019

    Naquilo que me diz respeito lembro-me de que quando estive em Quimaria, entre Novembro de 1971 e Janeiro de 1972, em apoio da companhia de maçaricos, a C.Caç.3436, fomos atacados duas vezes, tendo a primeira sido na noite de Natal.
    Neste ataque, onde os nervos se associaram à falta de experiência houve um furriel maçarico que disparou um dilagrama para dentro do galinheiro das poedeiras, que segundo parece apenas davam ovos para as gemadas e ovos estrelados dos sargentos e oficiais.
    Um abraço do JS

  2. Olá Mário,
    Aqui está o link para o Terrawebb, onde vem a lista com os 61 mortos do concelho de Castelo Branco.
    Caso haja um memorial aos mortos da GC, algures no concelho ou nas freguesias, era interessante publicares uma foto do mesmo.

    JShttp://ultramar.terraweb.biz/03Mortos%20na%20Guerra%20do%20Ultramar/LetraC/MEC_068n.pdf

  3. Creio que não existe nada, e a existir deveria ser na Sede de Concelho, mas o edil albicastrense, que creio não ter ido ao Ultramar, ainda não teve sensibilidade para tal; também não sei se já lho sugeriram!

  4. Amigo Sampaio: o dilagrama não caíu na capoeira mas sim nas pocilgas do 1º sargento!

    Manuel Ribeiro Ex furriel miliciano da 3436 ( mas não fui eu o atirador, quem foi está vivo e com muita saúde)
    Um abraço

  5. Amigo Sampaio:
    Também conheci esses “spas”: Cecília, Carlota e outras começadas por “C”.

    Um abraço

  6. FUI UM EX COMBATENTE EM MOÇAMBIQUE E CONHEÇO BEM O DILAGRAMA.
    NA MINHA COMPANHIA O SOLDADO QUE ESTAVA ENCARREGADO DE LEVAR O DILAGRAMA NA G3, APENAS LEVAVA UM CARREGADOR COM BALAS ESPECIAIS PARA DILAGRAMAS ,E ESSE CARREGADOR ESTAVA
    ENVOLTO EM FITA ADESIVA VERMELHA PARA QUE NÃO HAVER QUALQUER CONFUSÕES,CLARO QUE TAMBEM LEVAVA CARREGADORES NORMAIS NO CINTURÃO.
    UM ABRAÇO PARA TODOS OS EX COMBATENTES E UMA FELIZ PÁSCOA.
    FURR.MIL.DIAS C.CAÇ.4153
    N.MEC.002805/73

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