O Jornal de Parede

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btcecilia

O Jornal de Parede

No início da comissão estivemos no sector do Toto, entre o início de Set.71 e 23 Jan.72, espalhados por localidades como Vale do Loge, Toto, Quimaria, Cleópatra e Cecília.

A mim coube-me ter ficado no Colonato do Vale Loge, com o 3.º grupo de combate, de onde passado mês e meio fui para a Cecília reagrupar.

No mês seguinte fui enviado para Quimaria, onde estive até aos primeiros dias de Janeiro de 72, altura em que regressei de novo à Cecília.

A Cecília era a base táctica de apoio à Engenharia, que abria uma picada através da floresta milenar. Na altura tinha acabado de mudar de outro local, a que chamámos de Cleópatra.

Situada no alto de um morro, em pleno maciço do Luaia era constituída por um acampamento de tendas e barracas, que albergavam o pessoal de três companhias: a nossa (CCaç.3413), a CCaç.1311 (angolana do RI20 de Luanda) e a CEng. 3478 (que tinha rendido na Cleópatra a CEng. 2579).

Das alturas da Cecília, que da vertente sul estava cortada por uma depressão de mais de mil metros, víamos a floresta luxuriante de cores e vida, com os rios Luaia e Mbridge a serpentear. Era aqui o observatório do nosso mundo restrito.

Do seu cimo assisti uma vez ao bombardeamento da floresta com napalm, pelos Fiats, que passavam rente a nós e mergulhavam no abismo ribombando e esfumando. As labaredas de um amarelo vivo levantavam-se quase até ao céu, o que dava para imaginar o estado dos seres que tinham sido apanhados por tal inferno.

Do morro presenciei também o ataque nocturno à coluna que vinha do Toto, e que subitamente deflagrou uma mina A/C debaixo da Berliet carregada de cerveja. A este evento dedicarei proximamente um texto.

Quando não estávamos em saídas operacionais ao longo do Mbridge, na picada, ou em serviço do posto de transmissões era a leitura e a escrita que ocupavam o tempo daqueles que não gostavam de jogos de cartas e de dados.

Foi assim que alguns de nós se lembraram de criar um jornal de parece, “A Voz do Luaia” (talvez fosse este o nome), constituído por recortes colados, onde não faltavam as beldades do cinema, as futeboladas do Eusébio e as notícias do Puto. A estes juntávamos escritos da nossa lavra caseira, como crónicas, histórias e poemas, tudo manuscrito.

À redacção, se a memória não me falha pertenciam o Amorim, o Caldeira, o Pedro Pereira, e outros com ideias e gosto pela escrita.

Uma ocasião fiz um poema, que mereceu a aprovação do conselho dos três capitães, que me chamaram à sua tenda cónica de índios bondosos, não para me ditarem uma mensagem a expedir, mas para me incentivaram a continuar a escrever, pois como diziam «era bom para a moral e ajudava a passar a comissão».

Sem este jornal e este empurrão não teria espalhado, certamente, até hoje a minha escrita por um número de publicações superior à minha idade.

(José Rosa Sampaio)

2 thoughts on “O Jornal de Parede

  1. A foto é da base da Cecília. Em primeiro plano vê-se o campo de futebol, onde havia sempre equipas a jogar, que servia também de pista de aviação para a DO (Dornier DO 27) e a SATAL (o avião civil dos frescos). Isto é, aterravam quando davam connosco, pois em tempo de chuvas e temporal não era fácil fazê-lo e tínhamos que ir a caça ou comer salsichas a todas as refeições.
    Os dois paus espetados eram a antena de comunicações, e o primeiro à direita, junto à tenda cónica assinala o posto de rádio, tendo ao lado o comando que era também o “hotel” dos três capitães comandantes.
    Os banhos eram feitos com a mangueira do autotanque, que trazia a água da Ribeira dos Macacos, onde tínhamos improvisado uma piscina onde alguns diziam que viram umas beldades turras a tomar banho nuas. Esta faz lembrar as sereias que os marinheiros avistavam e a Ilha dos Amores, de Camões.

    Espero que haja um companheiro que conte a historia dos tiros do Machado enfermeiro, do angolano da CCaç.1311 que se afastou da base e foi recebido aos tiros que não lhe acertaram, do ataque nocturno que não acertou em nenhuma tenda, da mina e ataque à coluna que vinha do Toto, e tantas outras histórias …
    Um abraço a todos
    JS

  2. Parabéns amigo Sampaio. Muito bom este artigo. Não me lembro de muita coisa destes tempos. Sei que “comi” muito pó e que havia dias que tinha que tomar banho 3/4 vezes por dia, porque as saídas para a picada eram muitas, a protecção da engenharia, as idas à água. Eu estava lá no rio a recolher água para o acampamento quando ouvi um tiro e ainda vi o Aguiar tombar.
    Na Cleópatra em 1971, sei que apanhei uma “tosga” no dia dos meus anos (8/9) e lembro-me que nesse dia também era aniversariante o Vítor das transmissões e por isso a coisa foi grossa!

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