A Jibóia

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A Jibóia

Aqui falamos muito de Cleópatra e Cecília. Certamente alguns leitores alheios à C.Caç. 3413, mais curiosos, já pesquisaram em mapas antigos do norte de Angola, para saberem onde ficam esses lugares. Pois é, caros amigos, não vêm no mapa!

Como companhia independente, era “pau para toda a obra” e nos primeiros quatro meses de comissão, dois grupos de combate foram mobilizados para a zona do Toto para fazerem protecção a uma Companhia de Engenharia que abria uma picada, desbravando matas naquela área. À medida que a picada avançava a logística acompanhava esse avanço, e foi assim que nos instalamos em dois morros que transformamos em acampamento, os quais foram baptizados de Cleópatra e Cecília, nomes bem escolhidos, só os nomes eram “lindos” de propósito, para contrastar com o isolamento do local e a dureza das condições de vida. As construções eram de lona, o colchão de ar, o wc latrina, o banho de bidon de água do rio, etc… Eis a foto da Cecília!

ceciliaUm dia, ao regressar da protecção das obras, e percorrendo a poeirenta picada no Unimog, o angolano Nené enxerga uma jibóia no tronco de uma pequena árvore e avisa-me do facto. Faço sinal ao condutor para parar e com a G3 acerto um tiro junto da cabeça do bicho, que cai no chão. Mais dois tiros na cabeça para certificar que está bem morta e lá vai ela para cima do Unimog. À chegada foi um alarido com toda a tropa a admirar o exemplar com cerca de 3 metros, algumas fotos registadas, como por exemplo esta.

A tarefa a seguir foi arranjar alguém que a esfolasse, e eis que no meio da multidão se chega à frente um militar de cor, que era perito no assunto e a primeira coisa que fez foi comer cru o coração da dita. jiboia

Depois de retirada toda a gordura possível da pele foi posta ao sol para secar. Após vários dias de seca, ainda mantém um cheiro algo desagradável, mas lá a meti numa mala para a mandar curtir quando chegasse a Luanda. Ouvi muitas reprimendas dos meus companheiros da “suite”, pois quando abria a mala o “pivete” ainda dava sinal, mas fui amenizando a situação lançando de vez em quando na pele umas borrifadelas de after shave.

Chegado a Luanda, lá me informei de um profissional na arte do curtimento, e como podem ver a obra ficou muito bem-feita, cor natural.

Nos anos 80 estas peles eram muito utilizadas em cintos, malas e sapatos de senhora, e um dia por curiosidade contactei um fabricante destes acessórios, que me ofereceu sete escudos por cm2, o que daria por volta de 40 contos, mas continua ainda comigo, à espera de melhores dias…

(Mário Mendes)

cobra

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