O Princípio do fim da sua vida

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O PRINCÍPIO DO FIM DA SUA VIDA

Por Pedro Manuel Pereira

. Existem duas grandes etapas na vida de um ex-combatente: antes da guerra e depois da guerra.

. Antes da guerra, era a vida suspensa, o adiar de projectos de vida, de trabalho, académicos, de família. A angustia dentro do peito que se ia avolumando até que fosse mobilizado para Angola, Moçambique ou Guiné onde, segundo os governantes: «De vez em quando existem escaramuças provocadas por bandoleiros. Por agentes ao serviço de Moscovo. Por terroristas». Depois, era o «adeus até ao meu regresso».

. Do cais da partida ao cais da chegada, em África, o militar carregava dentro de si o peso da pena de um castigo que só podia entender por ser português.

. De novo, como durante séculos havia acontecido a tantos e tantos compatriotas seus, também ele sentia que ia cumprir as penas de um degredo e lembrava-se das palavras do poeta António Nobre: «Amigos, que desgraça nascer em Portugal».

. Na escada de embarque para o navio, no portaló, as senhoras do Movimento Nacional Feminino davam-lhe medalhinhas de lata da Nª. Sr.ª de Fátima e murmuravam-lhe com ar compungido, palavras que lhe pareciam de condolências. Os gritos e choros lancinantes, dos familiares dos militares que ficavam no cais a acenar com lenços molhados de lágrimas, de mãos esticadas para o navio, até que este não fosse mais que um minúsculo ponto na linha do horizonte, haveriam de ficar gravados a ferro e fogo no fundo da sua memória, até ao fim dos seus dias.

. Ao arribar, tudo lhe era hostil. O clima, a água, as doenças, a maior parte dos naturais desses territórios, incluindo muitos brancos, como no caso de Angola…

. Disseram-lhe ir defender o Portugal uno, o tal do Minho a Timor. Mas se o território onde havia atracado era precisamente o oposto da sua terra natal, da mãe Pátria! Mergulhava noutro mundo. Nada voltaria a ser como antes. A princípio não se apercebia porque nada era imediato, visível, antes insidioso, mentalmente subversivo.

. A fome, o calor, o cansaço físico e psicológico. Estar lá, a pensar nos lugares em que dentro de si habitavam os seus entes queridos. Naqueles que amava e que pensava terem ficado irremediavelmente apartados de si noutra dimensão. Estar lá, no teatro de operações e sentir o irreal dos sentidos. Ter por quotidiano o absurdo, a sobrevivência como instinto natural, o irracional como dogma, a morte como lei.

. Depois, foram dias, foram meses, foram anos, de noites e noites de vigília sem dormir, os sentidos em alerta, os nervos em frangalhos, as queimadas, o napalm, os mosquitos, o calor opressivo, o suor sem limite, as minas na picada, as emboscadas, os ataques, o napalm, a fome e a sede, as emboscadas e as tripas de um camarada esventrado por uma mina ou uma rajada, que ali ficaram à beira da picada sob o pino do sol e o zumbido das moscas. Os feridos e os mortos e ainda os mortos-vivos.

. A rotina dos dias e das noites sem fim. A sua vida penhorada sabe Deus a quem e porquê, a irmandade forjada entre homens, temperada a ferro e fogo, fruto de uma orfandade que não se explicava nem se apalpava. Sentia-se nas entranhas, lia-se nos olhares que se entrecruzam numa angústia que o levava ao fim dos tempos, numa dolorosa sensação de participar numa guerra absurda, anacrónica, que não era dele. Até que matar, ganhava um significado maior. Assumia-se como que uma imolação aos deuses, exorcizando fantasmas.

. Aplacava as chamas do inferno que o consumia por dentro disparando a arma que se havia tornado como que um prolongamento dos seus braços. Os sentidos apuram-se, os sentimentos misturam-se numa mescla indefinida e indescritível que ficava a vogar num nó que se formava entre o estômago e a garganta. Os pés transportavam-no por mar de sargaços. No lodo dormia.

. Mas foram também as doenças; o paludismo, a hepatite, a bilharziose, a desinteria amibiana, os ossos fracturados com facilidade e… a grande doença portuguesa: as saudades, muitas, tanto que fazia doer até quase enlouquecer. Os seus, os que o amavam, lá longe, roídos de saudades, cansados de chorar.

. Na hora do regresso, faltavam camaradas à chamada. Que a terra lhes seja leve. Outros haviam ficado um quarto de homens, meio homens, que as pernas e os braços tinham ficado com os estilhaços de uma granada algures numa picada. Outros ainda regressavam… «cacimbados».

. Nada se lhe afigurava como antes. As pessoas, as ruas que pisava, o ar que respirava. Com o passar dos dias, começava a sentir-se de novo abandonado, estranhamente, como quando havia arribado a África.

. E as interrogações instalavam-se dentro de si; como seria recebido pela família, pelos entes queridos, pelos amigos, pelos outros, ao desembarcar na metrópole? Será que iria conseguir adaptar-se facilmente à vida civil?

. Entregava as fardas, os haveres militares e recebia uma licença por trinta dias. Se até lá não fosse chamado, não valia a pena apresentar-se. A canga continuava a pender sobre o seu pescoço. Passados mais de trinta anos, de quando em vez ainda sonha com essa licença, por via da qual poderia ter-se – hipoteticamente – apresentado no quartel, mas também com a guerra, com os vivos e com os mortos que tombaram naquelas terras quentes, com os seus camaradas, com os inimigos…

. Ao ser desmobilizado em Portugal, saía a Porta de Armas e tudo se lhe aparentava irreal. Respirava-se um ar tão fininho… Só se viam brancos, muito branquinho, tudo tão lento, tão limpinho e aparentemente organizado… Estranhamente sentia-se como que um órfão, abandonado. Mas se finalmente estava junto da família, dos amigos, por quem tanto havia ansiado?…. Sentia que já não pertencia cá, em África tinha deixado a maior parte de si; os sonhos e a inocência.

. Nos dias seguintes, iria começar a sentir a falta dos seus camaradas, daqueles com quem durante mais de dois anos havia partilhado os bons e os maus momentos, a fome e a sede, a angústia do dia-a-dia, das operações, das emboscadas…

. Habitava a sua vida como que um compasso de espera no tempo e no espaço. Não se sentia cá nem lá. Abatia-se sobre ele uma terrível sensação de insegurança. De forma estranha, começa a acometê-lo o desejo do regresso ao mato, onde poderia de novo unir-se aos seus camaradas: os vivos e os mortos que haviam ficado pelo caminho, porém, onde já não houvesse guerra, nem mortos, nem estropiados.

. As pessoas quando sabiam que havia regressado da guerra em África interpelavam-no: «Quantos morreram por desastres de viaturas e bebedeiras na tua Companhia?». A raiva crescia dentro de si, reagia furioso, mas só verbalmente, porque já não andava armado. Se ainda tivesse consigo a sua menina… a G3! Uma pia senhora sua tia abraçava-o comovida e comentava perguntando: «Ai filho…estás tão magrinho! Olha lá: – os pretinhos sabem rezar?».

. Nos dias seguintes comprava os jornais para ver se traziam notícias da guerra de África, notícias das emboscadas, dos combates, dos mortos e feridos em combate…

. Espantado, constatava que de África só vinham notícias de inaugurações de obras do regime e de uma ou outra morte de soldados vítimas de doenças ou de desastres de viação, no estilo: «Ao princípio da tarde de ontem, um veículo conduzido por um jovem de 21 anos, despistou-se perto da Praia da Corimba. Quer o condutor, quer os restantes três ocupantes, tiveram morte imediata. O acidente ficou a dever-se a excesso de velocidade. Os quatro jovens eram militares em gozo de licença.» Também encontrava variantes menos secas deste tipo de notícias, em que o despiste era comentado como tendo ficado a dever-se ao facto do «condutor se encontrar ébrio».

. Quase em estado de choque, constatava que na metrópole existia um olímpico desconhecimento do que se passava no Ultramar, um enorme desconhecimento de África. Sentia que a paz que se vivia em Portugal era uma paz podre, uma paz fictícia, do «faz de conta».

. Na Rádio, na Televisão, programas de fados, faduchos de manhã à noite e outra música a que em surdina chamavam de nacional-cançonetismo; o António Calvário, a Simone, a Madalena Iglésias e alguma música estrangeira. Alguns programas de futebol aos Domingos, mas… tudo tão parado no tempo, como havia deixado quando da partida, pouco mais de dois anos antes. O tempo não passava por Portugal. Este era, «um paraíso claro e triste», como disse Antoine de Saint-Exupéry, de passagem por Lisboa em 1940 quando da Exposição do Mundo Português.

Depois… começava o resto da sua vida.

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