As Transmissões

6 comentários

As comunicações são hoje, mais do que nunca, um factor de desenvolvimento das sociedades, contribuindo decisivamente para a globalização que o mundo atravessa.

Mas também no limiar da década de 70, foram muito importantes, designadamente na guerra colonial onde desempenharam um papel essencial e talvez pouco valorizado.

Para falar das transmissões de outros tempos, passo a palavra a quem sabe do ofício, porque viveu essa experiência, o José Rosa Sampaio:

foto-14

Seria interessante que cada companheiro falasse da sua experiência, ou contasse uma história passada na sua secção de especialidade, na sua secção ou grupo de combate, ou no âmbito da sua classe social militar (oficiais, sargentos e praças).

Durante a comissão da CCaç.3413 várias situações se depararam, onde «os transmissões» se mostraram de grande utilidade, nomeadamente nos pedidos de auxílio e de evacuação de feridos e doentes, durante os ataques a colunas, por ocasião da deflagração de minas debaixo de viaturas, ou nos ataques aos aquartelamentos de Cleópatra, Cecília, Quimaria, Mamarrosa e Luvo.

Por vezes os TRMS recebiam mensagens com a informação sobre o ataque que se preparava mais à frente, ou sobre grupos guerrilheiros que andavam nas imediações e que deveriam emboscar.

A minha experiência como operador de transmissões baseou-se no trabalho diário com os rádios Racal TR-28, AVP-1, e TR-422 no posto de transmissões. Deles tive que suportar radiações nocivas, que quase sempre deixavam marcas para o resto da vida.

Quando estava na mata, depois da inseparável G-3 o meu segundo companheiro de aventura era rádio, com o qual dormia e até me servia de cabeceira. foto-21

Andei com ele às costas durante 27 meses, através de matas infindáveis de capim, milhares de quilómetros de picadas poeirentas, subi e desci morros, galguei rios, e passei muitas horas a tentar transmitir sob condições atmosféricas impeditivas. Para que o meu companheiro tivesse o alimento necessário carreguei também uma bateria de reserva, e ainda o AVP-1, o «banana», para comunicar a partir da coluna (Cobra), com os meios aéreos (Águia).

Embora o operador tivesse direito a um carregador, que lhe transportava o equipamento, acontecia quase sempre que este tivesse que transportar tudo sozinho. O Racal TR-28 era um aparelho milagroso, que salvou muitas vidas.

Mesmo na mata procurei sempre entrar a horas durante a chamada da rede, o que servia de pretexto para aliviar a fadiga ao grupo de combate. Por grande sorte fui o único da especialidade que não saltou debaixo de uma mina.

No meu caso pessoal lembro-me de alguns momentos em que mereci o magro pré que recebia, nomeadamente no assalto ao aldeamento na zona do Rio Loge, no segundo ataque ao aquartelamento de Quimaria, na grande operação no rio Zenza, no segundo ataque ao destacamento do Luvo, e no quase contacto com um numeroso grupo de guerrilheiros que passou rente a nós e que mais à frente foi emboscado pelas tropas especiais.

Na flagelação do Luvo, onde era o único operador de transmissões livrei o destacamento de ser arrasado pelos nossos dois obuses da Mamarrosa, cujas granadas estavam a cair-nos em cima. Por tudo isto não recebi, como tantos outros também não receberam, nem um louvor, nem medalha, nem agradecimento da antiga e nova pátria que me disseram que fui defender.

Como profissionais das TRMS podíamos enviar e receber as nossas mensagens pessoais, com códigos por nós inventados e que a complacente CHERET (Chefia do Reconhecimento das Transmissões) deixava passar. Esta fazia a escuta da rede a partir de Luanda, afim de não deixar passar informações úteis ao IN nas mensagens em claro.

Alguns faziam parte do grupo dos intelectuais da companhia, nomeadamente o Amorim, o Caldeira, o Carvalho, e o Proença, aos quais se juntavam o Pedro enfermeiro, o Araújo mecânico, e o Gaspar da secretaria. Recebiam e liam livros e jornais, tocavam na viola canções de Adriano, do Zeca e do Bob Dylan, jogavam damas e xadrez, falavam do Maio de 68, e de Sartre e Marcuse. O Amorim, que era primo do nosso alferes Pinto (hoje desaparecido fora de combate), recebia o “Comércio do Funchal”, uma espécie de jornal revolucionário permitido pelo regime, e afixava-o na parede com frases sublinhadas a vermelho. O Oliveira, o único chaparro da secção passava a vida pensativo e a escrever as memórias de campanha, de onde deve ter saído o mais longo diário da Guerra Colonial.

foto-3

A secção de Transmissões da nossa Companhia era composta por cinco operadores de transmissões de infantaria (incluindo o furriel), quatro operadores radiotelegrafistas e dois operadores de cripto.

Por força do aparecimento dos novos rádios como os Racal TR-28 e TR-422, os radiotelegrafias tinham perdido o seu estatuto de expedidores e receptores de mensagens em Morse, tendo passado a trabalhar em fonia, utilizando o alfabeto fonético internacional, juntamente com os operadores de transmissões de infantaria.

Neste texto gostaria de deixar uma sempre homenagem ao cabo Santos, do 3.º grupo, angolano de origem indiana (o que será feito dele???), que durante meses foi o meu guarda-costas.

A secção de Transmissões

Furriel miliciano de transmissões de infantaria João Valdez (Setúbal)

1.º cabo operador de cripto José da Costa Amorim (Porto)

1.º cabo operador de cripto Manuel José da Graça Menino (Santarém)

1.º cabo radiotelegrafista Humberto Caldeira (Amadora)

1.º cabo radiotelegrafista Abílio Ferreira (Braga)

Soldado radiotelegrafista Emílio Santos Proença (S. Domingos de Rana/Cascais)

Soldado radiotelegrafista Avelino Vale de Carvalho (Barcelos)

Soldado de transmissões de infantaria António Luís F. Oliveira (Évora)

Soldado de transmissões de infantaria Manuel Guedes de Almeida (V.N.de Gaia)

Soldado de transmissões de infantaria Victor Manuel Ferreira Tomás (Lisboa)

Soldado de transmissões de infantaria José Rosa Sampaio (Monchique/Algarve)

(José Rosa Sampaio)

6 thoughts on “As Transmissões

  1. Nos anos longínquos de 1965 /68 estive eu no Vale do Loge BCAC 1875 como operador cripto.
    Que saudades desse tempo

    • eu também fui de TRMS de infantaria em Angola, Quicua 1969-1971 e também nunca tive garregador para transportar o radio, e também saliento que os radiostelegrafistas nunca usaram o morse, sempre transmitimos em fonia, e quanto aos códigos, no meu tempo, avião era pardal e viaturas terrestes era cobra, um abraço amigo

  2. Olá camaradas de armas!
    Como descreves no texto de facto as TRMS são uma arma preponderante em qualquer circunstância. Não se pode fazer a guerra sem meios de comunicação. Minha CART 3494 chegou à Guiné 18DEC72 regressamos em 03ABR74.
    Fui 1º cabo radiotelegrafista, especialidade tirada em Arca D’agua Porto. Na zona da Guiné em que estive (XIME) eram os TRMS de Infantaria que participavam nas OP, os telegrafistas por normas existentes, proibiam que nós entrássemos nas OP. Devo dizer-te que trabalhei quer em fonia como em grafia. Em grafia como sabes… era possível chegar mais longe em melhores condições. Quanto aos rádios utilizados foram: Em grafia tínhamos o E/R ANGRC-9 em fonia o Racal (TR28) e o AVP1 (Banana) quase no fim da comissão (27 meses), apareceu um novo E/R para substituir o Banana creio que foi o “STORNO” tinha excelentes condições de audição e transmissão.
    Castro

  3. Ok!.. muito boa tarde ou bom dia conforme a abertura deste email. Fui tambem Soldado de transmissões de Infª, tirei a especialidade em Lisboa no B.C.5/Campolide, fui mobilizado para Angola onde embarquei a 23OUT71 e desembarquei el luanda a 02NOV71, o meu Bat.Caç 3858 e a C.Caç.3444, estive na Zona dos Dembos Kuanza Norte povoação do Piri. Utilizei muitas e muitas vezes sem conta o grande E/R Racal tr-28,tinhamos tambem o E/R ANGRC-9 Bom radio, chegavamos a utilizá-lo muitas vezes para ouvirmos a bola desde metróple, tinhamos uma torre bastante alta e uma boa antena direccional. trabalhavamos em fonia embora tivessemos lá 4 telegrafistas, como bons amigos tinhamos a mesma escala 8 horas a cada um de serviço no PT/Radio, assim era tb por escala as saidas para a mata(OP) regressei em 20JAN74 TAM

  4. Caros amigos
    tive em tempos um rádio militar que “fazia de 3.500 a 12.00 Mhz” trabalhava a 18 v
    com pilhas os com ligação directa à fonte. Como isto foi há muito tempo não me recordo do modelo sendo certo que era um racal. Alguem me pode esclarecer ? muito obrigado.

  5. Procuro foto do radio AVP-1 (banana)
    1º cabo Radiotelegrafista-1968-69-70 Guiné

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