In memoriam

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bii17_angra Quem esteve no BII 17 em Angra do Heroísmo, Açores, no 1º semestre do ano de 1971, com certeza se lembrará dos furriéis Fernando Ribeiro e Pedro Fonseca.

Ambos fizeram parte da C.Caç. 3414 que combateu na Guiné (1971-73).

Eu já tinha conhecimento do falecimento de ambos, o Fernando em combate, o Pedro em acidente de viação já finda a comissão, em Coimbra.

A respeito do Fernando encontrei há dias na internet relatos de seus ex-camaradas, que com a devida vénia transcrevo neste blog.

 

 


guine_1973_fernando_ribeiro

Lisboa  > Belém > Monumento aos Mortos do Ultramar > O Furriel Fernando Gaspar Ribeiro é um dos milhares nomes, gravados no mármore, que constam no impressionante memorial afixado nas muralhas do Forte do Bom Sucesso.

Foto: © Luís Graça (2007). Direitos reservados.

1. Mensagem de alguém que foi das relações de amizade de um camarada nosso, morto na Guiné, e que pretende saber mais pormenores sobre a sua vida e morte. Por razões de sigilo, transcrevo apenas uma parte do teor do mail que recebi (e que circulou internamente na nossa tertúlia):

Bom dia, Luís:

Fiquei muito contente por me ter escrito e então vou contar-lhe o que se passou: (….) O Fernando Ribeiro (…) foi para a Guiné, onde esteve 24 meses. Já depois dos 22 meses a que tinha direito, foi buscar mantimentos a algures, pois dizia que estava cansado de estar no mesmo sítio. Sei que no regresso, na picada entre Binta e Farim, uma mina rebentou (…).

(…) Agora com a Internet, eu vou pesquisando coisas de que gosto e esta foi uma delas: a guerra do ultramar (…).

(…) Num dos comentários, feito pelo João Tunes, a descrição dum acontecimento era esta: quando morre um camarada nosso é como se morresse uma parte do nosso coração, então quando um camarada que ia um carro, sentado em cima dum saco de areia ao lado do condutor, foi morto por uma mina, dizendo-nos:
– Estou fodido, foderam-me a vida e eu sei que não me safo, mas digam à Fulana Tal que estou a pensar nela (1).

(…) Tudo o que me possam dizer do Fernando Ribeiro, Furriel Miliciano de artilharia, eu agradecia (…) Faleceu em Julho de 1973 (2). Foi o único da companhia que não veio.

(…) Sei que esteve também em Bafatá, também perto do Rio Cacheu e chegou a estar mesmo na fronteira do Senegal (…) .

Agradeço a sua atenção por este caso (…).

2. Comentário do editor do blogue:

Fico sensibilizado por saber que o nosso blogue já chega a muitas partes e é lido até por muita gente que nunca esteve na Guiné, nem foi tropa: por exemplo, filhos de camaradas nossos que já morreram, outros familiares, ex-namoradas … E há estórias de partir o coração… Há filhos a querer saber por onde andou o pai na Guiné… Em vida, lá em casa nunca se falava da Guiné… Por pudor, por respeito, por constrangimento… Entretanto, o pai morre precocemente, de doença ou de acidente… Há um pedaço da vida dele que passa a ser um buraco negro na memória de todos e de cada um, a nível da família…

Com culpa e lágrimas nos olhos, vem-me perguntar se os posso ajudar a encontrar um pista, um nome, uma unidade, uma terra, uma camarada…. Aconteceu-me hoje, por exemplo, com uma jovem enfermeira que me procurou, e cuja pai morreu há uns anos, de cancro no estômago… Ela era demasiada nova (15 anos) para puxar a conversa sobre a guerra e a Guiné… A mãe só o conheceu mais tarde, depois da desmobilização… A mala dele perdeu-se na viagem de regresso a casa… Não há fotos, não há aerogramas, não há memórias, traços da passagem do pai pela Guiné…

E agora aparece-me esta mulher a evocar um amigo que morreu na guerra… Confirmei que o Furriel Fernando [José Gaspar] Ribeiro morreu em combate em 15 de Julho de 1973… Dele não sei mais nada. Mas espero que outros camaradas e amigos possam trazer mais algumas pistas. Ficarei feliz se pudermos ajudar esta e outras mulheres recuperar e a fortalecer as suas recordações de juventude… Não traremos de volta, infelizmente, o Fernando (ou qualquer outro dos nossos camaradas que morreram), mas pode ser que apareça alguém que o tenha conhecido, e nos diga algo mais sobre ele e as circunstâncias em que morreu…

Esta nossa visitante não nos pediu confidencialidade… Pelo contrário, teve a coragem de dar a cara e fazer um pedido (público) de ajuda. Entendi, no entanto, que ela não pode ser exposta, em termos mediáticos, e tem direito ao respeito pela sua privacidade e intimidade… Decido publicar o seu caso, sem a identificar, e recorrer à nossa tertúlia. As nossas melhoras saudações tertulianas para ela. E aqui fica a porta aberta para esta ou outras mulheres passarem também a fazer parte deste nosso grupo de amigos e camaradas da Guiné… Elas foram, afinal, as que ficaram na rectaguarda, amando-nos, rezando por nós, escrevendo-nos, animando-os à distância… (LG) .

___________

Notas de L.G.:

(1) Vd. post 21 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 – CCCI: Morreu um soldado português no Afeganistão… http://i.ixnp.com/images/v3.75/t.gif(A. Marques Lopes / Afonso M.F. Sousa / João Tunes)

(2) Fernando José Gaspar Ribeiro, furriel do exército, morto em combate em 15 de Julho de 1973, natural de Condeixa-A-Nova, unidade mobilizadora: BII 17… Vd. Lista disponível, em formato pdf, no sítio do António Pires > Moçambique – Guerra Colonial > José da Silva Marcelino Martins > Militares que Tombaram em Campanha (1961-1974) > Guinéhttp://i.ixnp.com/images/v3.75/t.gif

Guiné > Zona Leste > Sare Bacar http://i.ixnp.com/images/v3.75/t.gif> CCAÇ 3414 (1971/73) > O Fernando Ribeiro, de pé, ao lado do seu amigo Joaquim Peixoto (hoje professor do ensino básico, em Penafiel). Morreu em Julho de 1973, já no final da sua comissão. A viatura blindada que aparece atrás, na fotografia, parece ser uma Chaimite… (LG)

Foto: Joaquim Peixoto (2007). Direitos reservados

1. Mensagem do Joaquim Peixoto:

Caro Luís Graça:

Muitas vezes recorro à Internet para saber notícias dos camaradas da CCAÇ 3414. Fiquei muito surpreendido ao verificar que alguém queria saber algo sobre o meu amigo Fernando Ribeiro (1)

Tal como ele, também eu fui furriel. Pertencíamos à mesma companhia, mas a pelotões diferentes. Formámos batalhão no BII 17, em Angra do Heroísmo. Partimos para a Guiné em 26 de Junho de 1971, a bordo do navio Niassa.

Durante um mês fizemos o IAO em Bolama. Depois partimos para Sare Bacar, a poucos metros do Senegal. Estivemos aqui muitos meses e, quando pensávamos regressar, (felizmente não tínhamos sofrido qualquer baixa) soubemos que ainda tínhamos de cumprir mais alguns meses. Ficámos em Bissau e então começaram os azares.

Numa coluna apanhámos uma mina anticarro que vitimou o condutor Parreira. Mais tarde, quando regressávamos de uma missão, sofremos uma emboscada, que vitimou o Furriel Fernando Ribeiro. Fiquei muito chocado com esta morte, porque poucas horas antes tinha estado a ter uma conversa com ele.

Pouco antes da emboscada tivemos que atravessar um rio.( Onde anos antes tinha havido um grande desastre). Essa travessia foi feita em jangadas. A minha vez de fazer essa travessia era anterior à do Fernando Ribeiro, mas este fez questão de me acompanhar e nessa viagem falou-me da namorada, do irmão, etc … Essa emboscada aconteceu numa estrada alcatroada. O F. Ribeiro seguia duas viaturas à frente da minha.

Foi muito sentida esta morte. Quando chegámos ao quartel houve alguns camaradas que ficaram em estado de choque e precisaram de receber assistência médica. Esta CCAÇ 3414 era formada por soldados açoreanos e nós, os graduados, éramos de cá.

Algum tempo depois de regressarmos da Guiné fizemos um almoço em Coimbra e fomos depositar um ramo de flores no cemitério em Condeixa. Haveria muito a dizer deste amigo que nos deixou tão cedo.

Envio também uma fotografia em que estou com ele. (O Fernando está de pé.) Chamo-me Joaquim Carlos Peixoto, vivo em Penafiel, sou Professor do 1º Ciclo .

Um grande abraço

2. Comentário de L.G.:

Obrigado, Joaquim, pelo teu testemunho. Tu eras camarada e amigo do Fernando. O teu depoimento é muito importante. Tu estavas lá, nessa emboscada fatídica… Foste o primeiro, da tua unidade, a CCAÇ 3414, a responder ao nosso pedido… Bem hajas. Gostaria que te juntasses a nós. Temos muito gosto em que faças parte da nossa tertúlia, tabanca grande ou caserna virtual. Como queiras. (LG)

_________

Nota de L.G.:

(1) Sobre o Fernado Ribeiro, vd. posts de:

24 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 – P1544: Quem conheceu o Furriel Mil Art Fernando J. G. Ribeiro, morto na picada de Binta-Farim em Julho de 1973 ? (Luís Graça)

25 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 – P1547: O Furriel Mil Atirador Fernando Ribeiro pertencia à açoriana CCAÇ 3414 e morreu entre Mansabá e Mansoa (A. Marques Lopes)

28 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 – P1554: As mulheres que ficaram na rectaguarda (Luís Graça /Paulo Raposo / Paulo Salgado / Torcato Mendonça)

 

3 thoughts on “In memoriam

  1. Sou a sobrinha do Pedro de Pereira do Campo,perto de Coimbra. Agradecia a quem tivesse fotografias ou recordações de momentos passados com ele enviasse para ana.isabel.fonseca.sousa@gmail.com Seriam tesouros para os familiares. Ana

  2. Caros companheiros da C.Caç. 3414 (Guiné-1971/73) quem tiver fotos ou recordações do furriel Pedro de Pereira do Campo, Coimbra, já falecido, pode enviar para o endereço da sobrinha que está no 1º comentário. A família agradece.

  3. um pouco por mero acaso e também com ajuda da Luísa, finalmente encontro alguma informação concreta do meu muito saudoso tio, Furriel Fernando Ribeiro, posso dizer que fui o sobrinho favorito do Fernando, quando ele morreu na Guiné, ia eu fazer 12 anos em Julho a 26. ele deve ter conversado com os camaradas, do sobrinho Zézito, o que nasceu em Timor, filho do irmão João que também era militar. a morte do Fernando foi a devastação completa na família, o meu falecido avô, José Fernandes Ribeiro e a avó Maria do Céu Gaspar, ( Pais do Fernando ) na altura vivia com eles,”agarraram-se” a mim e passei a ser o filho mais novo, uma “espécie” de substituto…. tenho algumas fotografias do tio Fernando na Guiné… com os camaradas, (também tenho a foto acima publicada) tenho em meu poder a Máquina fotográfica dele, a velhinha CANON, ainda funciona e bem.( eu fui o “herdeiro universal” da mala do Fernando que veio mais tarde da Guiné.
    a todos os que tiverem recordações do Fernando e que queiram partilhar comigo, agradecia. gostava muito encontrar e conversar com os amigos de armas do Fernando.
    tenho algumas fotos que vou digitalizar para partilhar com todos, em especial com a sobrinha do Furriel Pedro Pereira. ainda o conheci, era pequenito na altura, mas ficou a recordação. muito vaga mas com muita saudade.
    1 Grande abraço a todos
    José Gaspar Fernandes Baptista

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