Norte de Angola, Março de 1961

15 de março de 1961 – Faz hoje 51 anos que grande parte do norte de Angola foi varrido por uma onda de barbárie levada a cabo por guerrilheiros da UPA (União dos Povos de Angola) que não poupou nem mulheres nem crianças. A avalanche assassina em que a principal arma foram as catanas foi de tal ordem violenta que as imagens que se podem ver no vídeo podem causar perturbações a pessoas mais sensíveis.

Foi o começo da guerra em Angola e aqui fica o registo para que cenas como esta nunca mais se repitam. O vídeo pode ser visto clicando AQUI.

Um outro post sobre este assunto pode ser lido clicando AQUI.

NR: Atenção que os crimes contra a humanidade nunca prescrevem. Se em Portugal e Angola a justiça não fosse uma “treta” certamente já teria acontecido alguma coisa. O mentor destes acontecimentos (Holden Roberto) já morreu, mas ainda há muitos executantes que estão vivos e ainda se gabam do que fizeram. Basta ver os episódios do filme “a guerra” da autoria de Joaquim Furtado que passou o ano passado na RTP. Angola, esta data não é para comemorar, mas sim relembrar para que actos semelhantes nunca mais se repitam.

Mário Mendes

Cronologia da guerra colonial (Março/1961)

?- Início dos planos “Centauro Grande”" e “Marfim Negro”, com vista à remodelação do dispositivo de forças portuguesas em Angola, com a companhia como unidade-base da contra-guerrilha.

4- Portaria declara fretado para o transporte de tropas e material de guerra o navio Niassa da Companhia Nacional de Navegação.

- A Fragata Nuno Tristão é alvejada por tiros de metralhadora e de obuses a partir da margem congolesa do rio Zaire, perto de Boma.

- Informação dos Estados Unidos ao Ministério da Defesa sobre a decisão da UPA – União das Populações de Angola, em provocar incidentes.

6- Encontro entre o ministro da Defesa, general Botelho Moniz, e o embaixador americano, Elbrick, que, segundo instruções do seu Governo, pressiona a alteração da política portuguesa em África, posição que o embaixador transmitiu a Salazar no dia seguinte.

7- Elbrick transmite a Salazar o documento enviado por Rusk, a mando de Kennedy. Os Estados Unidos prevêem convulsões graves em Angola, do tipo das do Congo ou piores, e vão votar contra Portugal em 15 de Março.

10- O Conselho de Segurança da ONU inicia o debate sobre a situação em Angola.

11- Uma nota oficiosa da Agência Geral do Ultramar torna pública uma declaração do representante da Confederação dos Trabalhadores do Quénia, em que era confessado ter a sua organização desenvolvido esforços no sentido de introduzir clandestinamente agitadores em Angola e Moçambique.

14- O posto da PIDE em São Salvador difunde uma informação em que se afirma que, no dia seguinte, se verificará um ataque da UPA.

15- Ataques dos elementos sublevados do Norte de Angola a algumas povoações, como Carmona, Aldeia Viçosa e Bessa Monteiro. A partir da fronteira e da região dos Dembos, membros da tribo Bakongo empreendem uma insurreição que alastra pelos distritos de Luanda, Cuanza-Norte, Malange, Uíge e Zaire. São chacinados dezenas de europeus, homens, mulheres e crianças, para além da destruição de bens. Estes acontecimentos, relatados detalhadamente na Imprensa nacional e internacional, causam um impacto emocional profundo na opinião pública portuguesa. A responsabilidade destas acções pertence à UPA, de Holden Roberto, movimento rival do MPLA, que distribuíra panfletos, dias antes dos acontecimentos, onde era anunciado “o início das festas para 15 de Março”. A nível operacional a Direcção da UPA elaborou uma senha que se tornou famosa: “A FILHA DO SENHOR NOGUEIRA CASA-SE NO DIA 15 DE MARÇO DE 1961″.

- O 15 de Março foi escolhido porque sendo uma época de chuvas torrenciais, seria muito difícil ao exército colonial português movimentar a sua tropa motorizada, o que daria largas vantagens aos guerrilheiros capazes de movimentarem-se nas densas matas e a pé, infligindo assim pesadas baixas ao inimigo.

- Partida de Lisboa de duas Companhias de Caçadores Especiais, (7ª e 9ª) para reforço da guarnição de Angola.

16- Das unidades aquarteladas em Luanda e Carmona partem pequenas colunas militares para a zona afectada a fim de socorrer e recolher núcleos de populações isoladas. Portugal, apenas dispunha, em toda a Província, de cerca de cinco mil soldados africanos e mil e quinhentos europeus, dos quais só uma reduzida parte estava disponível para as operações de socorro, que se tornaram extremamente difíceis, em especial nos Dembos.

- Telegrama das associações económicas de Angola ao Governo central a pedir providências.

- Chegada a Luanda da 1ª Companhia de Caçadores Pára-quedistas.

- Morre mais um militar em combate.

17- Na manhã de 17 de Março, as rádios do mundo inteiro anunciaram com grande destaque os acontecimentos ocorridos em Angola. Todos afirmaram que os mesmos tinham sacudido Angola de Cabinda ao Cunene.

- Primeiro comunicado oficial sobre os acontecimentos do Norte de Angola.

18- Início da actuação da Força Aérea no Norte de Angola.

19- Em Angola, são evacuadas para Luanda, via Engage, as mulheres e crianças de Mucaba.

20- Concentração de tropas no Norte de Angola.

- A Força Aérea bombardeia povoações nos distritos do Congo, Cuanza Norte e Malange.

- O ministro do Ultramar, almirante Lopes Alves, parte para Angola.

- Em Luanda, cerca de quatrocentos brancos cercam e isolam o consulado americano e atiram às águas da baía o carro do cônsul William Gibson. A inspiração americana da revolta da UPA é indisfarçável. Henry Kissinger, secretário de Estado, confirmou mais tarde o apoio a Holden Roberto.

21-A Imprensa informa que “No Congo português caminha-se para a completa normalidade”, e que pára-quedistas chegaram a Carmona, tendo sido “carinhosamente recebidos pela população”.

22- A Imprensa refere que o número de refugiados em Luanda ronda os 3.500, após os acontecimentos dos últimos dias.

24- O ministro do Ultramar, Lopes Alves, chega a Luanda, com competência legislativa. A estadia prolongar-se-á até dia 3 de Abril.

- Os estudantes de Lisboa festejam o Dia do Estudante, apesar da vigilância policial, sendo a última vez que a sua comemoração não será proibida.

25- Carta do general Botelho Moniz a Salazar, em que manifesta preocupação pela condução da política ultramarina.

27- A UPA e o PDA fundam a FNLA – Frente Nacional de Libertação de Angola.

30- Decreto que dá aos governadores-gerais o encargo da política de defesa de cada colónia.

31 – Criação do corpo de voluntários civis, para actuação no Norte de Angola.
- É preso em Luanda o reverendo Mendes das Neves, vigário-geral da diocese de Luanda, acusado de “ser o chefe da organização responsável pelos actos de terrorismo ocorridos em Angola”.

- Prisão e deportação para Portugal de nove padres católicos angolanos, acusados de ligações com os movimentos nacionalistas.

Do livro: “Cronologia da Guerra Colonial”, de José Brandão

O 4 de Fevereiro – A rebelião de um sacerdote

“Na origem da rebelião de 1961, como seu inspirador, esteve o cónego Manuel Joaquim Mendes das Neves, mestiço, natural da vila do Golungo-Alto e missionário da arquidiocese de Luanda. Umas três centenas de homens escutaram a sua voz e hastearam o pendão da revolta. Nenhum tinha ligações ao MPLA.
Já demonstrei em livro e em vários outros textos que o o MPLA jamais existiu antes de 1960. Quando detonaram os motins de 4 e 10 de Fevereiro de 1961 em Luanda, esse agrupamento político (superiormente dirigido por Viriato da Cruz) achava-se confinado na Guiné-Conacri ainda em fase embrionária, sem implantação em Angola. Nesta ex-colónia portuguesa quem de facto reinava era a UPA (União das Populações de Angola), apoiada por grupúsculos clandestinos que cedo desapareceram engolidos pela vaga de prisões em 1959.
Na origem da rebelião de 1961, como seu inspirador, esteve o cónego Manuel Joaquim Mendes das Neves, mestiço, natural da vila do Golungo-Alto e missionário secular da arquidiocese de Luanda. Ele dizia na roda dos seus íntimos aliados ter chegado a hora de provocar um violento abanão no sistema colonial português tantas eram as injustiças contra os africanos. Perto de três centenas de homens escutaram a sua voz e hastearam o pendão da revolta. Nenhum tinha ligações ao MPLA. Oriundos a maior parte de Icolo e Bengo, muitos haviam sido recrutados por Neves Adão Bendinha (empregado de escritório), que passava por ser então um dos maiores activistas políticos da UPA.
Depois de aturadas pesquisas em arquivos e de entrevistas realizadas com os sobreviventes, consegui reconstituir com relativa minúcia o plano dos amotinados. A figura central desse processo foi inegavelmente Bendinha, que fazia a conexão ao cónego e dele recebia instruções. Sempre auxiliado por Domingos Manuel Mateus (pintor da construção civil) e por Paiva Domingos da Silva (carpinteiro), ele formou os grupos de ataque, nomeou um chefe para cada unidade e designou os locais estratégicos da cidade a serem acometidos. Na última semana de Janeiro, organizou a concentração dos insurrectos nas pedreiras do Cacuaco (arredores da capital), onde, sob a orientação de Bento António (pedreiro e cabo do Exército português), se ministraram rudimentos de treino militar e se ritualizaram sessões de feitiçaria de forma a imunizá-los “contra as balas dos brancos”. Enquanto decorriam estes preparativos, Luanda foi de súbito invadida por dezenas de jornalistas estrangeiros por causa da captura do Santa Maria. Corria o boato de que Henrique Galvão conduzia o navio para as costas de Angola. Este acontecimento caiu como uma bomba. Os ataques em Luanda estavam previstos acontecer somente a 13 de Março, de modo a coincidirem com o levantamento no Norte e com o debate de Angola nas Nações Unidas. Que fazer, neste caso? Não esperar mais (pensaram os insurgentes), a presença dos jornalistas era crucial, os seus relatos in loco por certo iriam provocar o maior estrondo internacional. Apenas faltava obter a aprovação do cónego. Salvador Sebastião (estafeta da Junta de Povoamento) foi o escolhido para essa missão. Na manhã de sexta-feira, 3, deslocou-se à Igreja dos Remédios e explicou ao sacerdote a mudança de planos por motivo da nova situação; comunicou que os chefes tinham deliberado passar à acção na madrugada do dia seguinte. O diálogo foi longo, com muitas reticências por parte do reverendo. Este, por fim resignado, abençoou o ataque, mas reputou-o de prematuro. Ele entendia que as coisas careciam de mais tempo e melhor preparação. O grupo responsável por atacar o Aeroporto Craveiro Lopes e incendiar os aviões estacionados na pista e nos hangares era encabeçado por Bendinha, que tinha como lugar-tenente o carpinteiro Raul Agostinho Cristóvão (ou Raul Deão). Esta investida, no entanto, falhou, ao passo que noutros pontos – Casa da Reclusão, Companhia Móvel da PSP (4.ª Esquadra), Cadeia da Administração de São Paulo, Companhia Indígena e Estação dos Correios – se registaram escaramuças entre os rebeldes e as forças da ordem. Paiva Domingos comandou o grupo de assalto à Companhia Indígena com 20 homens, mas, ao ouvir os primeiros disparos, o grupo recuou. O colectivo que carregou sobre a Cadeia da Administração ao sentir a situação mal parada correu em direcção da Companhia Móvel (4.ª Esquadra) e não conseguiu lá chegar. Os militares portugueses já tinham saído dos quartéis no encalço dos rebeldes.
No rescaldo deste assalto, que mobilizou cerca de 220 homens e deixou no terreno quinze mortos e um número indeterminado de feridos, o novo chefe-geral dos sublevados, Agostinho Cristóvão, reorganizou com Paiva Domingos os efectivos que restavam e no dia 10 pela madrugada, ambos à testa de 124 indivíduos, atacaram as dependências da Administração Civil de São Paulo, mais o Pavilhão Prisional da referida administração e a Companhia Indígena. O plano de Agostinho era desferir ataques em simultâneo com dois grupos, um chefiado por ele próprio (ou por José Carmona Adão), e outro por Paiva Domingos. O desastre, no entanto, foi catastrófico: saldou-se numa matança para os insurgentes, que tiveram dificuldade em se evadir. Raros sobreviveram em liberdade. Presos, torturados e interrogados, centenas encontraram a morte no Forte de São Pedro da Barra. De uma assentada, este antigo baluarte transformado em prisão acolheu 112 revoltosos – facto que logo gerou uma súbita acumulação de serviço, conforme se lê num relatório da PIDE, e deu azo a não se instruírem os processos em “moldes legais”. Um belo pretexto forjado pela polícia para fazer desaparecer tantos nacionalistas.
A mobilização geral principiou em Novembro de 1960, sob a batuta dos chefes que se reuniam sucessivamente em casa de uns e de outros. Os cabecilhas eram Neves Bendinha, Domingos Manuel, Paiva Domingos da Silva, Raul Deão e Virgílio Francisco (este último comandante do grupo que atacou a estação dos Correios, Telégrafos e Telefones). Eles davam conhecimento de tudo ao cónego Neves. O tecido para as fardas envergadas pelos revoltosos foi comprado na Mabílio de Albuquerque e as catanas na casa de ferragens Castro Freire. A fim de não levantar suspeitas, o cónego pediu a um fazendeiro amigo que as comprasse, alegando querer distribui-las por camponeses nativos. Em depoimento que me prestou Francisco Pedro Miguel, integrante do grupo de ataque à estação dos Correios, disse ter ido pessoalmente buscar duas caixas com catanas àquela empresa levando-as para a Sé Catedral onde as guardou num dos campanários. Mais tarde, ele e Neves Bendinha retiraram-nas de lá cautelosamente para serem limadas.
De Léopoldville, em vão, se esperou a remessa de armas de fogo, depois que Luís Alfredo Inglês (quadro superior da UPA) partiu para o Congo em meados de 1960, acompanhado por Pedro César de Barros, a pedir ajuda à direcção do movimento. Holden Roberto ignorou os apelos de Luanda. Os nacionalistas ficaram entregues a si próprios, diante do tremendo risco de um enfrentamento com forças superiores. Encenava-se um suicídio colectivo. Não obstante isso, conforme testemunho de todos os sobreviventes, havia que avançar assim mesmo, com armas brancas, sob o risco de se assistir a uma desmobilização geral e o projecto se desmoronar.”

Um texto de Carlos Pacheco, Historiador angolano, sobre o “4 de Fevereiro”
Foto: Sé de Luanda.

Cronologia da Guerra Colonial (Fevereiro/1961)

4 - Na madrugada de 4 de Fevereiro, alguns grupos de angolanos sob a orientação de Neves Bendinha, Paiva Domingos da Silva, Domingos Manuel Mateus e Imperial Santana, dispondo de cerca de 200 homens empunhando catanas efectuam várias acções na cidade de Luanda. Um primeiro grupo começou por montar uma emboscada a uma patrulha da Polícia Móvel tendo eliminado os seus quatro ocupantes, capturaram-lhe as armas e tentaram tomar de assalto a Casa da Reclusão Militar com o principal objectivo libertar os presos políticos.

Outros grupos, atacam simultaneamente, com armas artesanais a cadeia da PIDE no bairro de S. Paulo, a cadeia da 7ª esquadra da Polícia de Segurança Pública onde igualmente havia presos, e tentam ainda ocupar a emissora estatal de rádio «Emissora Oficial de Angola». Nos confrontos morrem quarenta assaltantes, seis polícias e um cabo do exército abatido junto da Casa da Reclusão.

- O MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola, reclama o 4 de Fevereiro como o início da luta armada em Angola, embora na origem da rebelião, como seu inspirador, esteja o cónego Manuel Joaquim Mendes das Neves, mestiço, natural da vila do Golungo-Alto, missionário secular da arquidiocese de Luanda e que não está ligado a esse movimento.

 5 - Novos incidentes durante os funerais das vítimas do dia anterior e tumultos nos bairros africanos dos subúrbios de Luanda, (muceques), que causam numerosas vítimas entre a população negra.

- Nota oficiosa publicada na Imprensa sobre o assalto ao paquete Santa Maria ocorrido em 22 de Janeiro.

6 - Assalto aos bairros do Prenda, do Marçal e do Sambizanga. A Polícia de Segurança Pública de Luanda cercou os muceques onde são efectuadas mais de 3.000 prisões das quais resultaram cerca de 50 desaparecidos.

- Um militar da 4ª Companhia de Caçadores Especias (4ª CCE) é morto em combate.

7 - Nos dias que se seguem aos ataques da madrugada de 4 de Fevereiro, verifica-se uma frenética e desvairada “caça ao homem”. Ecoavam por toda a cidade gritos de “mata que é turra!, agarra que é Lumumba!, mata esse filho da puta!”

- Algumas fontes indicam que nos dias 5 e 6 foram massacrados 3.000 africanos em Luanda.

- Morte de mais um militar da 4ª CCE em combate.

9 – A Imprensa revela que “estão presos em Luanda cerca de 100 terroristas implicados nos acontecimentos daquela cidade”. As autoridades coloniais designavam os resistentes africanos de “terroristas” ou, ainda mais depreciativamente, de “turras”. Para os mais radicais, todos os negros eram “terroristas”.

10 - Pela madrugada, 124 indivíduos atacam as dependências da Administração Civil de São Paulo, mais o Pavilhão Prisional da referida administração e a Companhia Indígena. Os novos tumultos redundam em sete mortos e dezassete feridos.

- As milícias brancas repetem as batidas aos muceques: novos massacres e mais vítimas sem conta.

11 – Ocupação de Caombo. Informação que os indígenas amotinados se haviam dividido em duas colunas armadas, que tinham iniciado já marcha sobre esta povoação. Uma por Bange-Angola e outra por Chiquita-Canzage.

12 – Recontro de Zungue, sendo destroçada a primeira daquelas colunas. Reconstruídos vários pontões e a ponte sobre o Rio Luaxe, que havia sido incendiada.

16 - Recontro de Canzage, onde foi destroçada a segunda daquelas colunas. Reconstruídos vários pontões.

- Após o assalto comandado pelo capitão Henrique Galvão, o paquete Santa Maria, depois de resgatado, chega a Lisboa, sendo recebido por milhares de pessoas e também por Salazar, que se desloca ao cais.

17 – Em Lisboa, no Diário Popular procura-se limitar o âmbito dos acontecimentos e afastar a possível suspeita de um levantamento nacional: «Não passa do nível tribal a influência exercida pelos agitadores.»

20 – Pedido de uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU para apreciação do caso de Angola, apresentado pela Libéria. O Governo português protestará contra esta solicitação, que considera ilegal.

24 – É criada em Portugal a classe de Fuzileiros com o Decreto-Lei 43515.

25 – O CEMGFA e o CEME, generais Beleza Ferraz e Câmara Pina, deslocam-se a Angola a fim de se informarem sobre a situação militar.

27 - É anunciado que a região da Baixa do Cassange está pacificada após a recusa de recolha de algodão pelos nativos por serem espoliados nos pagamentos.

- A 4ª Companhia de Caçadores Especiais (4ª CCE) que actuou nessa região junta-se às três outras Companhias de Caçadores Especiais estacionadas em Cabinda, no Toto e em Malange.

- As 4 primeiras CCE, formadas no CIOE (Centro de Instrução de Operações Especiais) de Lamego, chegaram a Angola ainda em 1960: a 1ª, comandada por Soares Carneiro, que foi para Cabinda; a 2ª, do comando de Seia Ramos, que foi para o Toto, nas vizinhanças de Carmona; a 3ª, chefiada por Teles Grilo, com destino a Malange; e a 4ª comandada pelo capitão Teixeira de Morais, que foi enviada para a Baixa do Cassange e aí enfrentou os primeiros problemas de revolta, no início de 1961, da apanha de algodão.

- Estão em Luanda mais duas Companhias de Caçadores Especiais, (5ª e 6ª) vindas de Lisboa.

Do livro: “Cronologia da Guerra Colonial”, de José Brandão

A conquista de Nambuangongo (09/08/1961)


Edição Correio da Manhã

OPERAÇÃO VIRIATO

A conquista de Nambuangongo
Angola 1961

A vila de Nambuangongo, localizada num planalto a cerca de 200 quilómetros de Luanda, está transformada no quartel-general da União dos Povos de Angola (UPA) – o movimento independentista de Holden Roberto que, em 15 de Março, levou ao massacre de colonos e de trabalhadores bailundos por todo o Norte de Angola, A resposta militar é lenta. Apenas em finais de Abril, o pequeno contingente da província, calculado em 1.500 militares, começa a ser reforçado com tropas enviadas da metrópole. A partir de Nambuangongo, a guerrilha domina as povoações mais próximas e ameaça outras mais distantes como Ambriz, Carmona e até mesmo Luanda.

Os colonos que conseguem escapar aos massacres deixam o Norte. A maior parte das fazendas fica ao abandono. A época das chuvas está a terminar. Os meses do cacimbo costumavam anunciar os carregamentos de café para o porto de Luanda – um dos mais prósperos negócios da colónia, para cima de dois milhões de contos por colheita. Este ano, porém, será diferente. É a guerra. O governador da província, Silva Tavares, e o comandante-chefe, general Libório Monteiro, respondem como podem – e, na verdade, podem muito pouco: a reocupação do Norte não é possível com tão escasso contingente militar disponível e ainda por cima mal distribuído. Os guerrilheiros dominam uma vasta região desde as margens do Rio Zaire até ao Sul dos Dembos. Mas os comunicados oficiais publicados pelos jornais de Luanda dizem o contrário: “A situação encontra-se inteiramente sob o domínio das autoridades”.

“Mas que estucha, Botelho!”

O ministro da Defesa, general Júlio Botelho Moniz, tem em marcha um golpe de Estado. Pretende substituir Salazar por Marcelo Caetano para “modernizar” o regime e, sobretudo, encontrar uma solução para as colónias. A conspiração é abafada ainda antes de eclodir, mais por inépcia dos golpistas do que por mérito dos fiéis salazaristas. Botelho Moniz entende que deve dar uma oportunidade ao Presidente da República, almirante Américo Tomás, para demitir Salazar – e assim evitaria todos os incómodos de um golpe. Pede para ser recebido.

Moniz e Tomás eram amigos. Em privado, tratavam-se por ‘tu’, desde que se conheceram jovens cadetes na Escola de Guerra. O ministro da Defesa diz ao Presidente que tem um dia para demitir Salazar – caso contrário, levaria por diante um golpe de Estado de consequências imprevisíveis. Tomás, afundado no maple, escuta-o em pânico. Bate com as mãos nos joelhos – e desabafa alarmado: “Mas que estucha, Botelho!”.

Mal o general abandona o Palácio de Belém, o Presidente da República corre para o telefone e põe Salazar ao corrente. O chefe do Governo não perde tempo: demite Botelho Moniz e assume a pasta da Defesa Nacional. Num discurso transmitido pela rádio e televisão, em 13 de Abril de 1961, Salazar explica as mexidas no Governo. A mudança, diz, justifica-se com uma única palavra – e essa palavra é Angola. Termina com uma exaltação: “Para Angola, rapidamente e em força”.

Abafada a tentativa de golpe militar, conhecida como “Abrilada”, o presidente do Conselho e ministro da Defesa Nacional mobiliza os primeiros grandes contingentes para Angola. As tropas embarcam com pompa e circunstância no cais da Rocha do Conde de Óbidos, em Lisboa. Os primeiros batalhões, transportados no paquete Niassa, chegam a Luanda no dia 1º de Maio, uma segunda-feira.

O governador de Angola, Silva Tavares, e o comandante militar da província, general Monteiro Libório, são demitidos e mandados regressar a Lisboa. Avança para Luanda o general Carlos Silva Freire – militar que nunca saíra dos gabinetes e nunca experimentara os rigores dos trópicos: tinha como credenciais o prestígio de professor nos cursos de Estado-Maior e a cega fidelidade ao regime. Recusara participar na tentativa de golpe de Botelho Moniz a quem, de resto, lhe reconhecia escasso mérito militar: “É o melhor segundo-comandante do mundo, mas eu não lhe dava nem o comando de um pelotão”.


Testa da coluna do Batalhão 96, em Julho de 1961, na zona do Alto Lifune (foto livro)

Ordem de batalha

O general Silva Freire, à beira dos 54 anos, chega a Angola em 6 de Junho, uma terça-feira, na dupla função de governador e comandante-chefe. Mas, no dia 23, sexta-feira, desembarca em Luanda o seu substituto, o general piloto-aviador Venâncio Deslandes. Silva Freire fica encarregado do mais difícil, o comando das operações de reconquista do Norte da província.

Silva Freire recebe ordens de Lisboa para andar depressa – e bem. É criada a Zona de Intervenção Norte (ZIN). A manobra militar tem vários objectivos: interditar a fronteira, atacar a guerrilha, abrir itinerários, dar segurança às populações, restabelecer a administração civil.

O governo de Lisboa exige a vitória em menos de três meses. As instruções enviadas para Luanda são claras: (…) há a necessidade absoluta de restabelecer totalmente a paz em Angola até à reabertura da Assembleia Geral da ONU, em princípios da segunda quinzena de Setembro (…) a não dominação do terrorismo até à próxima época das chuvas representaria uma nítida vantagem em seu favor dada a dificuldade de actuação das nossas forças nessa época (…) O tempo corre a favor do inimigo. A nossa luta é verdadeiramente a contra-relógio. Há que vencer até meados de Setembro (…) o problema militar é sem dúvida de primeira prioridade, mas deve ser acompanhado e seguido da acção política, psicológica e social para recuperação das populações (…) evitar a divisão entre brancos e pretos (…) impor a disciplina e o respeito mútuo nas povoações (…) disciplinar rigidamente, através duma organização e comandos adequados e capazes, as milícias ou formações do corpo de voluntários (…).

Em meados de Maio, três semanas antes da chegada do general Silva Freire, começam as primeiras movimentações das tropas a caminho do Norte. A principal preocupação do comando militar é criar dificuldades à progressão da guerrilha e cortar-lhes as linhas de abastecimento através da fronteira com o Congo ex-Belga.

A manobra é lenta: apenas fica concluída no início de Julho. Os itinerários, na sua maior parte, estão dominados pela guerrilha. A progressão é difícil. Os guerrilheiros atrasam a marcha: derrubam árvores de grande porte sobre as picadas, cavam valas profundas, destroem pontes. As colunas militares movem-se a passo, vencem as distâncias palmo a palmo, caem nas primeiras emboscadas.

Os batalhões de Caçadores 88 e 92, desembarcados no Porto de Luanda, no dia l de Maio, recebem a missão de ocupar de Damba e Sanza Pombo – e, mais junto à fronteira, Maquela do Zombo e Santa Cruz. O Batalhão de Caçadores 156 ocupa São Salvador e Cuimba. Enquanto unidades de fuzileiros, desembarcadas em Ambriz, Ambrizete e Santo António do Zaire, tomam posições em Tomboco, Quinzau e Quelo. O general Silva Freire, que gostava de elogiar as capacidades militares de Montgomery, inicia então a segunda fase das operações, que tem como objectivo reconquistar a zona dos Dembos. O primeiro grande momento desta manobra é a Operação Viriato – para a tomada de Nambuangongo, a vila transformada em quartel-general dos guerrilheiros. Por esta altura, já estão em Angola cerca de 30 mil soldados portugueses

O Batalhão 96

No remanso da Iha de São Miguel, nos Açores, longe dos viperinos corredores dos altos comandos de Lisboa, o tenente-coronel Armando Maçanita, de 44 anos, algarvio teimoso e valente, comanda o Regimento Independente de Infantaria 18. O sossego é quebrado nos primeiros dias de Abril. Chega uma guia de marcha, que o manda apresentar-se no Continente e seguir para Luanda à frente do Batalhão de Caçadores 96. Mal sabia ele os perigos que o esperavam em Angola. Muito menos imaginava que ia ficar na história – como o primeiro a reconquistar Nambuangongo.

O Batalhão 96, constituído por quatro companhias, embarca ao som da fanfarra, no dia 5 de Maio, uma sexta-feira, na Rocha do Conde de Óbidos, em Lisboa. Desfilou pela primeira vez em Luanda em 14 de Maio, domingo, imediatamente após o desembarque. Fica aquartelado no Campo Militar do Grafanil, a cerca de 10 quilómetros da capital da província.

Duas semanas depois, as companhias já estão na zona, de guerra. Primeira missão: garantir a segurança num longo corredor entre Caxito e a Ponte do Dange. Travam aí os primeiros combates. Os guerrilheiros da UPA atacavam em hordas, às centenas: enfrentavam a saraivada de fogo de peito aberto, aos gritos, armados de catanas, paus e canhangulos.

Os guerrilheiros acreditavam na ressurreição: mesmo que fossem mortalmente atingidos voltariam a viver – e isso dava-lhes coragem para enfrentar a tropa. Os comandantes portugueses receberam instruções para decapitar os guerrilheiros mortos e espetar as cabeças em estacas. Os nacionalistas da UPA, a maior parte de etnia bacongo, estavam convencidos de que não ressuscitariam se lhes fosse amputada uma parte importante do corpo. A exibição das cabeças decepadas servia para lhes provar que morriam de cada vez que atacavam os militares portugueses e não podiam ressuscitar.

O tenente-coronel é um homem de acção. Não frequentou o curso de Estado-Maior: sente-se mais talhado para a ‘porrada’ do que para as teorias desenvolvidas nos gabinetes. Tem até uma maneira muito particular de fazer as coisas – o que causa arrepios ao superiores que preferem agir segundo a doutrina dos livros. Os homens do Estado-Maior, em Luanda, remexem-se incomodados a cada relatório do Batalhão de Caçadores 96 em campanha: “Mais uma à Maçanita…”, resmungam. É a unidade que mais munições gasta em operações.

O comandante tem ainda um modo muito próprio de se relacionar com os subordinados. Trata toda a gente por ‘tu’ – dos soldados aos oficiais. “Era muito afectivo com nós todos, mas em operações, quando as coisas não eram executadas como ele queria, chamava-nos os piores nomes e às vezes até ameaçava que, se fosse preciso, dava-nos um tiro” – recorda o coronel médico Carlos Tapadinhas, então alferes da Companhia 103.

Na zona de Caxito, uma companhia do batalhão depara-se com um numeroso grupo calculado em mais de um milhar de guerrilheiros. Maçanita põe a pistola-metralhadora FBP a tiracolo e vai ver. A mole de negros começa a formar um círculo para cercar a companhia. O tenente-coronel avança com o cabo Armindo Grilo ao lado – e os dois ficam a meia dúzia  de metros de um guerrilheiro armado de canhangulo. Parece ser o chefe. É um gigante com quase dois metros de altura. Maçanita é o primeiro a disparar: faz uma rajada e mata-o.

Vem a saber depois que o homem da guerrilha abatido é Maneca Paca – de quem os militares portugueses já tinham ouvido falar com temor.


Batalhão de Caçadores 96 desaloja guerrilheiros numa fazenda da zona de Santa Eulália
(Foto livro)

Apostas no quartel-general

Cumprida a missão entre o Caxito e a Ponte do Dange, o Batalhão de Caçadores 96 recebe novas ordens. O general Silva Freire tinha decidido lançar a Operação Viriato – a primeira acção militar de grande envergadura da Guerra Colonial. Objectivo: conquistar Nambuangongo, a vila localizada a cerca de 200 quilómetros e que desde Março estava ocupada pelos guerrilheiros da UPA.

A operação consistia na progressão de dois batalhões de Caçadores e de um esquadrão de Cavalaria por três eixos de ataque convergentes sobre Nambuangongo. O Esquadrão de Cavalaria, comandando pelo capitão Rui Abrantes, parte de Ambriz, no litoral. O Batalhão de Caçadores 114, do tenente-coronel Oliveira Rodrigues, abala da zona de Caxito – enquanto ao tenente-coronel Maçanita, à frente do Batalhão de Caçadores 96, é confiado o caminho mais longo (ver infografia na pág. 3).

A Operação Viriato, além da conquista de Nambuangongo, tem ainda como objectivo abrir três itinerários fundamentais para apoiar a reocupação militar do Norte. O mês de Julho já vai a meio e o Governo de Lisboa exige aos altos comandados de Luanda a vitória total até meados de Setembro – antes do início da época das chuvas e antes da reabertura da Assembleia Geral da ONU. Não há tempo a perder.

Está em marcha uma verdadeira corrida disputada por três unidades militares que tem como meta a vila ocupada pelos guerrilheiros. Quem chega primeiro a Nambuangongo? No quartel-general em Luanda apostavam singelo contra dobrado no Batalhão de Caçadores 114. Era comandado pelo tenente-coronel Henrique de Oliveira Rodrigues – oficial com o curso de Estado-Maior e que fora um dos alunos dilectos do general Silva Freire no Instituto de Altos Estudos Militares.

Oliveira Rodrigues foi um aluno aplicado. Aprendeu tudo o que os livros ensinam sobre estratégia, táctica e acção de comando. Silva Freire, o comandante máximo da manobra de reocupação do Norte de Angola, tinha orgulho no seu pupilo. Estava convencido que o discípulo seria o primeiro a chegar a Nambuangongo. O general, porém, estava a cometer um erro imperdoável: subestimava a tenacidade e o desembaraço do tenente-coronel Armando Maçanita que, sem os preceitos da doutrina aprendida nos altos estudos, conduzia a operação à sua maneira – “à Maçanita”, como diziam entre dentes os oficiais do estado-maior de Silva Freire.

A caminho de Nambuangongo

Na marcha para Norte, o Batalhão de Caçadores 96 foi reforçado com um pelotão de engenharia comandado pelo alferes miliciano Jardim Gonçalves, o homem que anos depois daria cartas na Banca. Armando Maçanita guardou até à morte, aos 88 anos, grande admiração pelo engenheiro. “Se não fosse o alferes Gonçalves não sei se teria conseguido chegar a Nambuangongo” – ouviam-no repetir, de lágrima traiçoeira ao canto do olho, nos almoços que todos os anos juntava os bravos do batalhão. O pelotão de engenharia, sob as ordens de Jardim Gonçalves, construiu jangadas com que atravessaram rios, removeu árvores de grande porte que impediam a passagem, ergueu pontes através das quais venceram os rios. No fim da operação, o alferes foi condecorado com uma Cruz de Guerra.

Os homens do tenente-coronel Maçanita, ao mesmo tempo que ultrapassavam as armadilhas do terreno, defendiam-se de emboscadas da UPA e rechaçavam assaltos dos guerrilheiros. Entraram várias vezes em combate – como no Rio Luica, na Fazenda Portugal, no Cassungo e no Mucondo. Enquanto o Batalhão de Caçadores 96 progredia a caminho do objectivo – o Batalhão de Caçadores 114, comandado pelo tenente-coronel Henrique Oliveira Rodrigues, não conseguia contornar as dificuldades. Tanto o comandante, Oliveira Rodrigues, como o segundo-comandante, major Balula Cid, passando pelo oficial de operações, capitão Lemos Pires – todos eram oficiais com o curso de Estado-Maior. O batalhão não consegue passar de Quissacala, sensivelmente a meio caminho entre o ponto de partida, na região de Caxito, e a vila de Nambuangongo.


Chegada do Batalhão 96 a Nambuangongo em 9 de Agosto de 1961 (foto livro)

Ordem para parar

Ao princípio da tarde do dia 9 de Agosto de 1961, uma quarta-feira, o Batalhão de Caçadores 96 estava às portas de Nambuangongo. O tenente-coronel Maçanita tinha perdido quatro homens para ali chegar. Recebe pelo rádio uma comunicação do quartel-general de Luanda. Dizem-lhe para não entrar em Nambuangongo, porque iriam lançar pára-quedistas na zona com a missão de ocupar a vila. A resposta do comandante do batalhão deixou gelados os oficiais do Estado-Maior: “Quem entra ali sou eu. E se lançarem pára-quedistas vou toma-los como inimigos, porque não sei se são portugueses” – e desligou o rádio para não receber mais mensagens.

Não queriam em Luanda que fosse o Batalhão 96 o primeiro a entrar em Nambuangongo. Estava previsto que essa honra seria concedida ao Batalhão 114.

Mas esta unidade estava irremediavelmente atrasada. Planearam então o lançamento de uma companhia de pára-quedistas – para evitar que fosse um oficial de Infantaria, sem penacho, a receber os louros da vitória. Mas o tenente-coronel Maçanita, como era próprio do seu feitio, não ligou às ordens. Estava a cerca de seis quilómetros de Nambuangongo. Montou três auto-metralhadoras à frente da coluna, que faziam fogo rasante e ininterrupto, e marchou atrás delas. A primeira companhia a entrar na vila foi a 103, comandada interinamente pelo alferes Casimiro. A honra de içar a bandeira na torre da igreja coube ao pelotão do alferes Santana Pereira. No dia seguinte, cerca das dez da manhã, chegou a Nambuangongo o Esquadrão 149, comandado pelo capitão Rui Abrantes. O Batalhão 114 continuava acantonado na zona de Quissacala onde seria reforçado por um pelotão de Cavalaria comandado pelo então alferes Manuel Monge.

A teimosia do tenente-coronel Maçanita custou-lhe um rol de pesadas acusações. Foi mandado regressar a Luanda e tiraram-lhe o comando do Batalhão 96. Mandaram-no para Lisboa para responder no Tribunal Militar. Acusavam-no de 13 crimes, entre eles, desobediência, ter recebido dinheiro de um fazendeiro e de ter mantido relações sexuais com uma negra chamada Madalena. Já na Metrópole, foi chamado ao Ministério do Exército. Um brigadeiro rasgou o processo e perguntou-lhe onde queria ser colocado. Maçanita disse-lhe que gostava de voltar a comandar o Batalhão 96, em Angola. O brigadeiro, homem previdente, aconselhou-o a escolher outra unidade: “Se quiser, vai. Mas não o aconselho, porque, como deve calcular não deixou muitos amigos em Luanda”. Maçanita pediu então para voltar ao Batalhão Independente de Infantaria 18, em São Miguel, nos Açores.

NR: Este feito ocorreu há 50 anos. O coronel Armando Maçanita faleceu em 17 de Novembro de 2005 na sua terra natal, Portimão, aos 88 anos de idade.

Operação “Pedra Verde”

De 26 a 31 de Julho de 1961, há 50 nos, a operação militar “Pedra Verde” foi uma das primeiras e mais  emblemáticas operações que o exército português efectuou em Angola para desalojar a UPA depois dos sangrentos massacres praticados pelo movimento independentista no norte do território.

A 4ª Companhia de Caçadores Especiais que chegou a Angola a bordo do navio “Timor” proveniente do RI 10 de Aveiro foi uma das intervenientes na operação e por isso nada melhor que observar o relato vivido por quem nela participou e que pode ser lido clicando AQUI.

Clicando em  “Pedra Verde” fica com mais informações.

Dembos e Demos

Para aqueles que se interessam pela história do que foi a guerra colonial em Angola, aqui está um artigo muito interessante, datado de 2007, da autoria de Eurico Mendes, que se transcreve:

Dembos são povos indígenas do Norte de Angola, demos são génios que tanto podem ser do bem como do mal e vêm a propósito de um dembo que foi demo: Holden Roberto, nascido a 12 de Janeiro de 1923 em Mbanza Kongo e falecido a 2 de Agosto em Luanda, com 84 anos. Foi o homem que, nos anos 60, desencadeou a luta armada contra o poder colonial português em África e parecia destinado a tornar-se o primeiro presidente de Angola independente graças ao apoio dos Estados Unidos.

Os nossos destinos cruzaram-se em 1961 nas matas de Angola. Cruzaram-se é como quem diz. Eu era sargento da C.C. 319 e andava pelas matas dos Dembos, onde até os mosquitos e a chuva eram nossos inimigos, Holden circulava por Washington em carro americano de luxo.
Desembarquei em Luanda dias depois da maka dos pára-quedistas, que resolveram lançar uma granada de mão da varanda da pastelaria Versalhes, mataram um polícia, cortaram a perna de um furriel e feriram outro.
Criados pelo general Kaulza de Arriaga, os pára-quedistas estavam na moda, como mais tarde estiveram os fuzileiros e depois os comandos, mas no fundo eram todos a mesma tropa mal paga, só que com boinas diferentes. Por falar em boinas, recorde-se que o Congresso dos Estados Unidos proibiu o fornecimento de equipamento militar a Portugal, mas o uniforme de campanha dos pára-quedistas era americano denominado modelo PQ/9, assim como a  arma individual, o AR-10 Armalite de 7,62mm, em vez da G-3 distribuída no Exército. Em 22 de Novembro de 1963, quando John Kennedy foi assassinado, Kaulza teve este desabafo: “Devia ter sido quatro anos antes para se ter evitado o massacre de 15 de Março de 1961”.
Kennedy deu luz verde para a guerra em Angola, mas antes convém lembrar que Holden era bakongo, a tribo do legendário Reino do Congo, cuja capital era Mbanza Congo, rebaptizada São Salvador do Congo pelos portugueses, que ali chegaram em 1482.

Em 1878, começaram a aparecer missionários protestantes ingleses e americanos, que conquistaram os angolanos com quinino e ideais revolucionários. Uma das revoluções foi a do Tulante Bula, (1913-1915), apoiada pelo pastor J. Bowskill, da Sociedade Baptista Missionária e um dos conspiradores foi Miguel Nekaka, um dos primeiros evangelizadores angolanos, tradutor de passagens da Bíblia do inglês para bakongo e avô materno de Holden Roberto.
Um filho de Miguel, Manuel Sidney Barros Nekaka, foi enfermeiro na Missão Congregacional Americana do Dondi, no Huambo e, em 1942, fixou-se em Leopoldville e, com apoio do pastor James Russel, organizou a União dos Povos do Norte de Angola (UPNA), surgida em 1954 e dois anos depois convertida na União dos Povos de Angola (UPA), para lhe retirar o carácter tribal, que nunca perdeu. A trajectória política do clã Nekaka foi sempre acompanhada pelos americanos.
Holden foi criado em Leopoldville, onde foi baptizado pela Igreja Baptista e, em homenagem ao missionário americano que o apadrinhou, adoptou o nome de Holden Carson Graham. Usou ainda outros nomes como Joy Gilmore em cartas que enviou a Salazar, o que, segundo o anedotário angolano, levou o ditador a comentar: “Eles usam vários nomes para parecerem muitos”. Durante oito anos, Holden foi funcionário na administração colonial belga, mais interessado em futebol do que em política, mas, não podendo ser Matateu, aderiu ao movimento do tio em 1956. A sede da UPA no porto de Matadi, Congo-Brazaville, era frequentada por marinheiros negros americanos que introduziam material de propaganda para Angola e um desses marítimos, George Barnett, fundou no Lobito a primeira célula do movimento em Angola.
Mais tarde, as missões protestantes americanas em Angola tornaram-se também células clandestinas da UPA e, graças aos missionários, Holden estabeleceu ligações com o American Committee on Africa, presidido por Eleanor Roosevelt, viúva do presidente Franklin Roosevelt e activistas dos direitos cívicos como o bispo Homer Jack, da Igreja Unida América e Canadá, que o apresentou ao então senador John Kennedy em Setembro de 1959. “Estive duas horas a explicar a Kennedy o sentido da nossa luta em Angola. Ele disse-me que os Estados Unidos tinham uma tradição anticolonial e não podiam continuar a apoiar o regime de escravatura em Angola. Concordámos que era preciso fazer alguma coisa para evitar que os comunistas tomassem conta do movimento de libertação de Angola”, escreveu mais tarde Holden.
As chatices de Salazar começaram a 20 de Janeiro de 1961, quando Kennedy entrou na Casa Branca e dois dias depois o capitão Henrique Galvão se apoderou do paquete Santa Maria e ameaçou rumar a Luanda.
Kennedy estava convencido de que o nacionalismo era a melhor alternativa ao comunismo para os povos do Terceiro Mundo e, além do apoio técnico, incluindo envio de agentes americanos para as bases da UPA, Holden Roberto foi incluído na folha de pagamentos da CIA em 1961 recebendo $6.000 anuais, o que foi posteriormente aumentado para $10.000 e depois para $25.000/ano.
Marcello Mathias, ministro dos Negócios Estrangeiros, escreveu ao seu homólogo americano afirmando “ter razões para considerar os contactos da embaixada americana em Leopoldville com Holden Roberto como suspeitos e inamistosos para Portugal”.
A 4 de Março de 1961, o embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, C. Burke Elbrick, informou o ministro da Defesa, general Botelho Moniz, da decisão da UPA de desencadear ataques em Angola, o Governo português menosprezou a informação.
Na madrugada de 15 de Março, milhares de bakongos pegaram nas catanas e massacraram mais de 1.000 brancos e 8.000 trabalhadores no Norte de Angola. Os brancos improvisaram milícias, que responderam também com violências gratuitas e começou uma guerra que se prolongou por 13 anos, com responsabilidade moral de quem a decidiu ou provocou.
Holden Roberto, que no dia 15 de Março estava nas Nações Unidas, em New York, viu dias depois imagens da matança numa televisão local e escreveu: “Vi homens esquartejados, crianças retalhadas e mulheres violadas. Estava no meio de brancos e não tive coragem de reivindicar a acção.”
Em Luanda, os brancos atiraram o carro do cônsul americano à baia, enquanto em Lisboa, em 21 de Março, houve manifestações frente à embaixada. Apesar dos protestos, o secretário de Estado Dean Rusk visitou Lisboa em 27 de Março com uma proposta de Kennedy, a independência das colónias sob a forma de autodeterminação.
O livro “Engaging Africa: Washington and the Fall of Portugal’s Colonial Empire” (Envolvimento em África: Washington e a Queda do Império Colonial de Portugal), de Witney Schneider, vice-secretário de Estado adjunto para os Assuntos Africanos durante a administração Clinton, revela que Paul Sakwa, assistente do vice-director de planeamento dos serviços de espionagem CIA elaborou um plano, o “Commonwealth Plan”, que visava convencer Portugal a conceder a auto-determinação a Angola e Moçambique, após um período de transição de oito anos, durante o qual seria realizado um referendo nas duas colónias para se determinar que tipo de relacionamento seria mantido entre os dois territórios e Portugal após a independência. Durante esse período, Holden Roberto e Eduardo Mondlane, líder da Frelimo surgida em Moçambique, seriam preparados para serem os líderes dos novos países.
“Para ajudar Salazar a engolir a pílula amarga da descolonização, Sakwa propôs que a NATO oferecesse a Portugal 500 milhões de dólares para modernizar a sua economia”, escreve Schneider.
Um ano depois a proposta foi ampliada pelo diplomata Chester Bowles, mais 500 milhões de dólares de ajuda a Portugal durante um período de cinco anos, ou seja um total de mil milhões de dólares durante o período de transição. O plano dos EUA, apresentado em Agosto de 1963 pelo vice-secretário de Estado George Ball, esbarrou na inflexibilidade da resposta de Salazar: “Portugal não está à venda”.
Em 1962, a CIA previa a derrota militar portuguesa em África, mas enganou-se.
Em 1970, um estudo do National Security Council sobre a África Austral excluía peremptoriamente a “possibilidade de um colapso português em África”. Com efeito, em 1974, o Exército português controlava todo o território, as operações tinham cessado em 1972, a livre circulação era um facto e os movimentos estavam minados por divisões internas. Agostinho Neto mandara fuzilar vários comandantes do MPLA e o movimento estava recuado na Zâmbia. Na FNLA, Holden também ordenara o fuzilamento de dezenas de oficiais e sucumbira à influência do cunhado, o (então) presidente do Zaire, ao ponto de Mobutu Sese Seko ter proposto que permitisse a independência de Angola, aceitando que Portugal escolhesse o nome de quem desejasse colocar no lugar de Holden Roberto, como o embaixador Luiz Gonzaga Ferreira revelou no livro “Quadros de Viagem de um Diplomata: África-Congo/Zaire-Angola”.
Quanto à UNITA, de Jonas Savimbi, que nas administrações Reagan e Bush pai se tornara o principal aliado de Washington em Angola, encontrava-se abaixo da linha do caminho-de-ferro de Benguela sem actividade militar conhecida e mais ou menos feita com a tropa portuguesa.
Em Janeiro de 1975, Holden, Neto e Savimbi assinaram com o Estado português oAcordo do Alvor, que marcava a independência de Angola para 11 de Novembro desse ano. Na véspera, a bandeira portuguesa desceu pela última vez no palácio do Governo, 492 depois das naus portugueses ali terem largados ferros.

Proclamada a independência, Holden Roberto borrifou-se no Acordo do Alvor, reuniu um exército com o que restava da FNLA, mercenários portugueses e ingleses, tropas da África do Sul do apartheid e avançou sobre Luanda.
Foi travado pelo MPLA e, sobretudo, pelos cubanos às portas de Luanda. Ainda se juntou a Savimbi para proclamar a efémera República Democrática de Angola, com sede no Huambo, mas que se desfez com a retirada sul-africana e não obteve apoio de nenhum país. Nessa altura, a FNLA  e o seu líder eram já uma sombra do passado. Holden exilou-se em Paris e só voltou a Luanda em 1991. O apagamento progressivo do velho líder bakongo foi consumado em 1992, nas primeiras legislativas democráticas, a FNLA obteve apenas 2,4% dos votos e cinco assentos no Parlamento. Crises internas levaram ao afastamento de Holden da presidência do partido, passando a mero presidente honorário.
Em 1974, os americanos já previam a queda de Holden e passaram a apoiar Savimbi para tentar impedir uma vitória soviética e (ainda por cima) cubana em Angola. Mas garantida a posse de Luanda, o Governo do MPLA conseguiu o reconhecimento da OUA e de Portugal em Fevereiro de 1976 e seguiram-se outros países. Os EUA, embora a Gulf continuasse a exploração do petróleo de Cabinda, só em 1993, durante o governo Clinton e 18 anos após a independência, reconheceram a República Popular de Angola.
Que me perdoem os meus amigos bakongos, mas memória que guardo do Holden Roberto é a de um líder racista e tribalista e prende-se com o Cólua, uma das pequenas localidades dos Dembos cuja população branca foi massacrada.

No dia 2 de Abril de 1961, o capitão Castelo da Silva, comandante da 7a CCE, que estava em Aldeia Viçosa, mandou um pelotão para o Cólua, com uma viatura de reparação de pontes, a fim de recolher os 30 cadáveres de homens, mulheres e crianças chacinadas. Dois dias depois, o pelotão ainda não voltara e o próprio capitão foi num jipe à sua procura, acompanhado pelo tenente Jofre dos Prazeres, dois soldados e um cipaio. O capitão cruzou-se com o pelotão que  vinha de regresso, mas preferiu avançar até ao Cólua reforçado com alguns homens do pelotão. Mas no dia seguinte, o capitão ainda não tinha voltado e o pelotão foi à sua procura e encontrou, nas proximidades do Cólua, os corpos esquartejados dos cinco militares.

O jipe, as armas e os corpos de seis militares tinham desaparecido. Mais tarde, um avião da Força Aérea avistou e socorreu dois dos desaparecidos, que tinham conseguido fugir e contaram que tinham caído numa emboscada. Um ano depois, a companhia de Aldeia Viçosa recebeu instruções para reabrir a picada do Cólua e o trabalho decorreu normalmente vários dias, mas uma manhã o pelotão foi emboscado.
O primeiro tiro furou a blindagem do unimog e o capacete de um soldado, que teve morte imediata. A tropa reagiu ao ataque, mas decidiu regressar a Aldeia Viçosa em busca de reforços abandonando o morto no capim. Quando voltaram, mais tarde, não encontraram o corpo do militar morto. Dias mais tarde, a C.C. 319 recebeu ordens para ocupar o que restava do Cólua.
O Cólua era num morro, onde meia dúzia de brancos tinham construído as suas lojas, que viviam  da compra do café aos pretos das sanzalas vizinhas do Quingenga e Cauanga e da venda das mercadorias que iam buscar a Carmona.

Das casas só restavam algumas paredes e a sanzala tinha desaparecido. A 319, nessa altura já cacimbada, tratou de instalar-se o melhor possível e ergueu uma cerca de arame farpado. Uma manhã, estávamos ocupados a carpinteirar, quando vimos sair da mata um grupo de 30 negros ou mais, com túnicas brancas e um pano branco num pau.
Pensámos que vinham em paz e ninguém foi buscar a arma. Paz uma gaita. Já dentro do acampamento, ouviu-se um apito, surgiram as catanas escondidas debaixo das túnicas e uma pistola-metralhadora começou a matraquear.

Dos nossos, três sofreram catanadas nos braços e nas costas. Valeu-nos o capitão lançar uma granada de mão que neutralizou o tipo da metralhadora (que mesmo ferido fugiu sem largar a arma) e uma sentinela que abateu dois a tiro.

Mas o grande herói foi médico, um tenente miliciano gay, que era de Viana do Castelo. No meio da confusão, dois bailundos que trabalhavam para a companhia como carregadores, procuraram refúgio no posto clínico, o tenente tomou-os por turras, empunhou a parabelum e matou os pobres.
Noutro país daria lugar a julgamento em tribunal militar, mas no Portugal de Salazar os bailundos foram convertidos em turras e deu direito a medalha entregue em solene cerimónia no dia 10 de Junho, no Terreiro do Paço, em Lisboa.

Quanto às túnicas brancas, vim a saber mais tarde que eram tocoistas, seguidores da seita evangélica Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo em África, de Simão Gonçalves Toco e apoiada pela Watch Tower, seita fundada em 1872 na Pensilvânia e cuja sede é em Brooklyn, New York.
Para os tocoistas, Simão Toco é o profeta nacionalismo angolano. Esteve preso no campo de S. Nicolau, espécie de Dachau portuguesa, mas foi exilado em 1963 para a ilha de S. Miguel, onde esteve 11 anos como faroleiro nos Ginetes.

Dias depois do inesperado assalto, um pelotão capturou nas matas o bailundo Severino José, que dizia ser obrigado a acompanhar os turras desde o 15 de Março e revelou com pormenores horrorosos a sorte dos desaparecidos homens do capitão Castelo e Silva e do soldado da 321ª CC.
Segundo o Severino, o Bomboco e Simão Lucas, chefes da sanzala do Cólua fugida nas matas, tinham obrigado os bailundos a cozinhar os quatro soldados agarrados no Cólua, depois de lhes terem cortado os dedos e as “matubas” (testículos) pendurando-os nuns paus para secarem.
Um sargento que fugira do Cólua foi capturado pelo pessoal da sanzala Quinguenga e também cozinhado e comido num festim em que, segundo a testemunha, participaram bakongos e bailundos, “pois os que se negavam a isso eram mortos e igualmente comidos, tendo o declarante assistido à morte de pelo menos 25 bailundos e que o declarante teve igualmente de comparticipar.”

O nosso soldado morto na emboscada também acabou no espeto. O canibalismo existiu no passado em todo o continente africano e em certas tribos do mais recôndito da selva africana a prática arrepiante ainda parece perdurar. Há anos, um grupo de aviadores italianos enviados pela ONU  para a República Democrática do Congo caiu nas mãos de uma dessas etnias antropófagas e deles só sobraram os esqueletos. Mas os povos do Cólua não são propriamente primitivos, há mais de 400 anos que estão em contacto com os brancos, o que levanta o problema de saber em que consistiu afinal a missão civilizadora dos europeus em África, neste caso portugueses. Mas acontece que a antropofagia não existe apenas nas sociedades primitivas. Tal como hoje, nos Estados Unidos 2007 de George W. Bush e a embrulhada do Iraque, também no Portugal 1961 de Salazar e Angola, havia muito político a tentar comer os outros. Por parvos.

Eurico Mendes – Portuguese Times

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Efectivos militares em Angola

Quando em Março de 1961 a guerra rebentou em Angola, o número de efectivos era de apenas cerca de 5 mil. Houve da parte do governo de Portugal um erro crasso na avaliação da situação militar no território. A recém independência do ex-Congo Belga em 30 de Junho de 1960, a revolta na Baixa de Cassange em Janeiro de 1961 e a revolta em Luanda em 4 de Fevereiro desse mesmo ano, parece que não foram alertas suficientes para o governo de Salazar tomar as devidas precauções para aquilo que já há muito se previa e foi preciso esperar pelo massacre de 15 de Março de 1961 para que Salazar proferisse em Abril, o célebre slogan: “Para Angola, rápido e em força“.

Esta negligência teve como consequência a morte de muitas centenas de portugueses e angolanos, barbaramente assassinados pela UPA, que “passeava” na zona devido à inexistência das nossas tropas e até se deu ao luxo de estabelecer um quartel-general em Nambuangongo, a que pomposamente chamaram de “Reino de Nambuangongo” e de onde só em Agosto de 1961, 5 meses depois do eclodir da guerra foram desalojados.

Socorrendo-me de um estudo elaborado pelo ex-furriel José da Silva Marcelino Martins sobre recenseamento, inspecção e distribuição de pessoal, elaborei o mapa que se segue, que pretende por em foco a percentagem do recrutamento local durante a evolução do conflito em Angola:

Ano Total Metrópole Rec. Local % Rec. Local
1961 33.477 28.477 5.000 14,94
1962 44.925 33.760 11.165 24,85
1963 47.400 34.530 12.870 27,15
1964 52.493 37.418 15.075 28,72
1965 57.073 41.625 15.448 27,07
1966 55.816 38.519 17.297 30,99
1967 57.420 43.051 14.369 25,02
1968 58.230 37.547 20.683 35,52
1969 55.574 36.911 18.663 33,58
1970 55.233 36.174 19.059 34,51
1971 62.060 36.127 25.933 41,79
1972 60.317 34.856 25.461 42,21
1973 65.592 37.773 27.819 42,41

É sabido que nunca se ganha uma luta de guerrilha sem o apoio maioritário da população e esta incorporação de militares africanos nas forças armadas portuguesas reflecte bem este propósito, sendo que esse número foi em crescendo, chegando a atingir cerca de 42% do efectivo total no final do conflito.

Efectivamente ao nível militar parece que a guerra não tinha fim à vista, o inimigo à excepção dos primeiros cinco meses, nunca dominou qualquer parcela do território e da nossa parte o cansaço de 13 longos anos começava a fazer-se sentir porque cada vez mais, os milicianos que eram os operacionais da guerra se aperceberam que aquilo nunca mais acabava e ali só estavam a perder dois anos da sua vida, limitando-se a defender a sua posição nos aquartelamentos.

Da parte dos efectivos dos quadros permanentes, talvez houvesse outra interpretação, porque na realidade a guerra dava-lhes dinheiro, quantas mais comissões melhor, geralmente bem protegidos pelo arame farpado, convém referir que à época quem tinha “divisas” era muito bem pago, tal como agora, pois os militares de carreira foram sempre privilegiados.

Não tendo solução militar, a solução política apareceu depois do 25 de Abril em Portugal, só foi pena que mesmo depois dessa data ainda tivessem morrido tantos militares e civis em Angola, porque sabemos como foi feita a transição para a independência.

A guerra em Angola custou a vida a 3.258 militares (2.434 da metrópole e ilhas, 824 do recrutamento local).

Mário Mendes

15 de Março de 1961

A manhã de 15 de Março de 1961 surgiu clara na região dos Dembos, distrito angolano do Cuanza-Norte, mas no horizonte divisavam-se já as nuvens que, da parte da tarde, encharcariam as espessas matas de cafezais.
As estradas e as picadas ficaram lamacentas e quase intransitáveis, porque, embora o Governo tivesse gasto milhares de contos na via que liga Luanda a Carmona, nenhuma delas tinha o piso alcatroado. Que importa, se em meados de Maio começa a época do «cacimbo», que secará os lamaçais e alisará os trilhos por onde o precioso ouro correrá em quantidades sempre maiores para o sôfrego porto de Luanda, deixando nos cofres da província perto de dois milhões de contos?
A ninguém pareceu estranho que, logo às sete da manhã, grupos de negros estacionassem às portas das «cantinas» da povoação de Quitexe. Todos eram «contratados», fregueses conhecidos e obrigatórios que pagavam com café as dívidas que faziam. Os comerciantes sempre tinham confiado na sua própria acção e nas autoridades para que assim fosse. O Posto Administrativo estava agora instalado num edifício moderno, alinhado pela estrada nova, pois Quitexe progredia de ano para ano.
Nessa manhã, cerca das seis horas, o gerente da fazenda Zalala fez o chefe do Posto levantar-se, para lhe comunicar que, na véspera, haviam fugido mais de cem homens da sua propriedade e ele notava agitação invulgar entre os que ficaram em Nova Caipemba. O gerente regressou à sua fazenda e o chefe decidiu percorrer algumas roças da região.Tudo parecia em ordem e lembrou-se da pequena demarcação que um colono fizera recentemente nas terras que viriam a produzir mais café. Era a última da área.
O funcionário do Governo não queria acreditar no que via: o colono, um empregado e a mulher deste jaziam num charco de sangue, cortados à catanada. Voltou apressadamente ao posto, alertando de passagem as outras fazendas, mas, ao cruzar-se com uns brancos que vinham do Quitexe, estes avisaram-no que não fosse ao Posto, pois não ficara lá ninguém vivo.
E a sua mulher? E os seus filhos?
Ninguém sabia.
A surpresa foi completa para os fazendeiros e para os funcionários administrativos que viviam na região.
De catana em riste, os atacantes perseguiram os que não tinham caído logo e que corriam a buscar uma espingarda.
No Posto de Quitexe, o aspirante administrativo que auxiliava o chefe do Posto fora assassinado na casa de banho e um auxiliar morreu agarrado ao emissor de rádio. A mulher e os filhos do chefe foram salvos por um criado negro, mas noutros locais criados negros, alguns com anos de casa, tinham eles próprios degolado os seus patrões.
O Quitexe não foi a única vítima dos acontecimentos de Março de 1961.
Nambuangongo, outra povoação dos Dembos, sofreu assalto idêntico e, porque fica mais isolada, foi eleita como quartel-general dos assaltantes. Igual má sorte tiveram os habitantes de Quicabo, Zalala e Quimbunde, e depois Aldeia Viçosa, Vista Alegre!
Ao regressar a Zalala, depois de ter ido a Carmona pedir auxílio, o gerente da fazenda deparou com um quadro de horror: corpos jazem sem vida, aqui e além, retalhados à catanada, corpos de homens, de mulheres e de bebés, brancos e negros.
O sistema foi sempre o mesmo e seria repetido nas fazendas dos Dembos e do Uíje. Os atacantes agem de surpresa, apossam-se de todas as armas que encontram, arrancam as canalizações para com elas fazer canos para os canhangulos e retiram rapidamente para as matas.
Também na região mais a norte, na fronteira com o Congo ex-Belga, entre o Posto de Buela e o Posto Fiscal de Luvaca, ocorrem assaltos idênticos.
São destruídas pontes na estrada São Salvador – Maquela; o administrador de Luvaca, Orestes Fontes e a sua mulher são assassinados; no Posto de Madimba, o chefe foi trucidado com mais quatro mulheres e cinco crianças.
Nas grandes plantações do M’Bridge, propriedade da CUF, a sul de Cuimba, o engenheiro-chefe da fazenda é salvo pela chegada de um avião da Força Aérea Portuguesa.
No concelho do Ambrizete ocorreu, na noite do dia 15, tentativa de assalto ao Posto de Bessa Monteiro.
O comunicado oficial do início destes acontecimentos foi tornado público nos jornais de Angola, em 17 de Março, pelo seguinte comunicado oficial:
«Verificaram-se na zona fronteiriça do Norte de Angola alguns incidentes a que deve atribuir-se gravidade por demonstrarem a veracidade de um plano destinado a promover actos de terrorismo que assegurem, a países bem conhecidos, um pretexto para continuarem a atacar Portugal perante a opinião pÚblica internacional. ( … ).
Chegaram a Luanda alguns feridos que foram carinhosamente recebidos, e toda a população de Angola demonstra a mais clara determinação em colaborar com as autoridades. ( … ).»
Em Luanda, foram apressadamente organizados serviços de socorro e de evacuação. Centenas de mulheres e crianças vieram das regiões atingidas e ameaçadas. Dos Dembos, porém, a evacuação era mais difícil devido à falta de pistas de aterragem, ou mesmo de vias de comunicação; por isso poucos foram os colonos desta região que receberam aviso a tempo de se salvarem.
Em meia dúzia de dias, o Norte de Angola transformou-se num mar revolto de sangue.
Os habitantes de Luanda vivem as horas mais dramáticas da sua história contemporânea, como dizia o escritor afecto ao regime Amândio César, no seu livro Angola 1961:
«Cerca de 200 000 negros cercam 50 000 brancos!. .. A polícia é mais do que exígua, os efectivos militares mais do que escassos, como ainda o poderia justificar um passado de sossego, mas já não um presente de anteriores e verificadas efervescências, que o caos em que entrara o Congo Belga só era susceptível de atear, como ateou. »
Um mau começo com piores consequências A preparação deste ataque, que semeou o terror indiscriminado e quase não teve resistência, ocorreu no Congo, durante os primeiros meses de 1961, sob a orientação do UPA (União das Populações de Angola), movimento influente entre os Bacongos, dirigido por Holden Roberto, com o apoio de militares do exército congolês. Apesar do aparente sucesso inicial, esta foi uma acção de pesadas consequências. A sua actividade caracterizou-se por assaltos, levados a efeito por pequenos grupos, e pelo massacre de populações. Usavam a arma branca, as catanas e algumas espingardas, os canhangulos, e procuravam apoderar-se das armas das fazendas e dos postos administrativos. Não visaram nunca consolidar o domínio territorial, conseguido nos primeiros dias, nem apresentaram qualquer programa politico. Mas as imagens dessa violência cega e desmedida, praticada nesses dias, constituem uma mancha que marcará para sempre os seus autores e mentores e terá efeitos perversos na luta pela independência de Angola, que se prolongarão muito para além do fim da guerra contra a potência colonial.
Em Angola, os efectivos militares resumiam-se, no início de 1961, a cerca de 5000 militares africanos e 1500 metropolitanos, organizados em dois regimentos de infantaria (cada um com dois batalhões de instrução e um batalhão de atiradores) e um grupo de cavalaria. Dos dois regimentos, um encontrava-se em Luanda, a capital, e o outro em Nova Lisboa, sobre a linha dos Caminhos de Ferro de Benguela, enquanto o grupo de cavalaria tinha a sede em Silva Porto e parte dos efectivos se encontrava em Luanda. A densidade média era de um soldado para 30 km2, estando imediatamente disponíveis para acorrer à zona afectada apenas mil soldados europeus e 1200 africanos! Nos Dembos não estava aquartelada qualquer unidade militar nem fora construída qualquer pista de aviação.

Adaptado de: Guerra Colonial, Aniceto Afonso e Carlos Gomes, Editorial Notícias

O que aconteceu há 49 anos pode ser visto no vídeo que se segue:

Génesis da guerra em Angola

Muito antes de 15 de Março de 1961, já havia sinais evidentes de que algo estaria para acontecer em Angola, mas que o governo de Salazar menosprezou grosseiramente. Desde logo a independência do Congo Belga em 30 de Junho de 1960. Lá diz o ditado: “quando vires as barbas do teu vizinho a arder, põe as tuas de molho“.

Depois, no final de 1960, os chamados acontecimentos da Baixa do Cassange, uma extensa depressão geográfica que vai da região de Malange às Lundas, com uma superfície de cerca de 80 mil Km quadrados (quase do tamanho de Portugal Continental). Nesta região viviam os bakongos, tribo que tinha raízes comuns no Norte de Angola e no Congo, e que sofria enorme influência daquele país recém-independente, e por isso se reavivavam sentimentos de nacionalismo. Os trabalhadores indígenas eram obrigados a trabalhar  na cultura do algodão para a empresa luso-belga Cotonang, e em Novembro de 1960 começaram a fazer greves porque as suas condições de vida e de trabalho eram degradantes.

angola_1961O tenente-coronel António Lopes Pires Nunes, é autor do livro “Da Baixa do Cassange a Nambuangongo”, onde retrata com precisão a situação vivida naquela zona.

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Um excerto está neste link:  Antecedentes da Sublevação da Baixa do Cassange

Em 4 de Janeiro de 1961, a Força Aérea Portuguesa foi chamada para reprimir as manifestações na Baixa do Cassange  tendo bombardeado a região. Quantos mortos? Ninguém sabe ao certo. Há relatos que dizem que foram mil, outros 10 mil.  Esta data é assinalada na República Popular de Angola como o “Dia dos Mártires da Repressão Colonial”, sendo feriado nacional.

A 4 de Fevereiro de 1961, algumas centenas de  revolucionários assaltam a  Prisão de S. Paulo, a Casa da Reclusão Militar e a Esquadra da Polícia Móvel em Luanda. O resultado destas operações saldou-se pelo bárbaro assassinato  de 7 polícias  à catanada, e cerca de 40 revoltosos mortos. Nos dias a seguir aos funerais dos polícias, alguns civis brancos invadem os musseques (bairros de lata) e matam também centenas de negros.

No dia 15 de Março de 1961, a UPA (União dos Povos de Angola) ataca várias fazendas de colonos brancos no Norte de Angola, chacinando a golpes de catana famílias inteiras incluindo mulheres e crianças, bem como os seus trabalhadores bailundos (povo originário do Huambo). Os relatos apontam cerca de 800 mortos e uma onda enorme de deslocados que procuram refúgio na cidade de Luanda.  Só depois deste acontecimento, Salazar solta a célebre frase: “Para Angola, Depressa e em Força“.

Só a 13 de Abril de 1961 segue para Angola o 1º contingente de tropas (3 companhias = 400 homens) a bordo do navio Niassa. A 19 de Abril embarcam na TAP os 1ºs pelotões de pára-quedistas e outros que estavam em Moçambique deslocam-se para Angola. A 10 de Julho de 1961 no âmbito da “operação Viriato”, sai de Luanda o Batalhão 96, comandado pelo tenente-coronel Armando Maçanita  e depois de grandes dificuldades de progressão com estradas  obstruídas e pontes destruídas, chega a Nambuangongo, onde é hasteada a Bandeira Portuguesa em 9 de Agosto de 1961. A 16 de Setembro desse ano, é tomada a “Pedra Verde” uma zona de morros escarpados e grutas, reduto muito importante dos guerrilheiros,  e que custou vários mortos e feridos à tropa Portuguesa.

Antes do começo da guerra não havia em Angola mais de 5 mil efectivos militares, quase todos do contingente local. No final de 1961 a tropa portuguesa contava com cerca de 33 mil homens,  e em 1973 esse número ascendia já a cerca de 65 mil.

(Mário Mendes)

Este vídeo mostra o que foram aqueles dias de 1961.