Toto (1966/68)

Em Janeiro de 1972, já com 5 meses de comissão, tínhamos alguma experiência das lides da guerra que travávamos no norte de Angola, a base táctica de Cleópatra, onde verdadeiramente nos estreamos já tinha ficado para trás, a base táctica da Cecília já era um pouco melhor, mas as condições em ambas eram tão deprimentes que a nossa próxima etapa só poderia ser melhor que estas e a aproximação dos 6 meses inicialmente programados para esta estadia deixava-nos um pouco mais animados. 

O lugar mais próximo com população civil era o Toto e era aí que de vez em quando nos deslocávamos em busca de aprovisionamentos e outros bens e serviços que faziam daqueles dias um “oásis” no meio do deserto em que estávamos metidos. O pó que na época do cacimbo tínhamos que suportar (o lenço verde a tapar a boca e as narinas que era a nossa imagem de marca, minorava o sufoco), ainda assim valia bem a pena. Pois bem, há dias um nosso leitor, Vítor Saraiva, indicou-nos o link de um blog que contém diversas fotos do Toto, dos anos de 1966 a 1968 e como aquele lugar fez também parte do nosso “curriculum” da guerra, achei por bem divulgá-lo para reavivar a nossa memória.

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Mário Mendes

Belezas naturais da província do Uíge

Com uma bacia hidrográfica composta por rios ricos em peixes, como o pungo, o pargo, a tuqueia e o bagre, e quedas e cascatas cativantes ao olhar de quem procura o conforto da natureza, a província do Uíge é detentora de potencialidades turísticas com cenários inimagináveis. As quedas do Bombo, sobre o rio Cuilo, Massau e Camulungo, merecedoras de melhor exploração, e lugares como as Lagoas do Feitiço, Luzamba, Mavoio, Sacapete, Vale do Loge, Morros do Alto Cauale, Pedras de N’Zinga N’Zambi, Cacula Quimanga, Tunda e a Reserva Florestal do Béu, com uma área de 1.400 quilómetros quadrados, oferecem paisagens inesquecíveis. Quem já visitou as Pedras do Encoje, datadas do século XVIII, Fortaleza do Bembe, construída no século XX, Figuras Rupestres de Quisadi, Pinturas Rupestres da Cabala, Ponte Mágica sobre o rio Vamba Wa Mbamba, Ruínas do Fortim de Maquela, Túmulo do Ancião Mekabango, nome atribuído em homenagem ao grande guerreiro da resistência contra a ocupação colonial, e o Túmulo do Grande Rei Mbianda-Ngunga, outro guerreiro da resistência à ocupação, não duvida da realidade e grandeza turística do Uíge.
É verdade que a província tem recursos para a criação de guias turísticos para os apreciadores das belezas da terra, mas estes ainda não existem e os locais turísticos não são visitados com regularidade. Nos últimos meses, o Governo do Uíge, através da Direcção Provincial da Hotelaria e Turismo, tem vindo a desenvolver um projecto que pode impulsionar o sector turístico. O Turi-Uíge, voltado para a realização de acções destinadas a descobrir, fazer o levantamento e aproveitar os locais turísticos existentes, já permitiu a descoberta de novos sítios atraente para os excursionistas, como é o caso das Pedras Misteriosas da Cabala, Lagoas do Feitiço e Mufututo, e as Grutas do Nzenzo.

Pedras da Cabala no Negage e seus mistérios

O Jornal de Angola embrenhou-se nas matas de Cassadi, aldeia da Cabala, município do Negage, e encontrou pedras titânicas e misteriosas por possuírem escrituras de desenhos que, até agora, ninguém conseguiu descodificar. Para chegar ao local, é necessário observar alguns rituais. A autoridade tradicional tem de espalhar maruvo, cerveja, vinho e alimentos no chão, e enunciar algumas palavras para obter a permissão das sereias que guardam o local.
Durante a ocupação colonial, as pedras da Cabala mereceram a atenção do antigo governador-geral da província de Angola Rebocho Vaz, que mandou fazer uma placa de betão sobre as misteriosas pedras, para proteger as pinturas rupestres dos ventos e chuvas fortes.

Rebocho Vaz encantou-se com a beleza natural do lugar, depois da sua primeira visita efectuada àquelas paragens a 17 de Julho de 1968, sendo, portanto, a partir dessa data, que o local passou a ser considerado ponto de interesse turístico. O sítio é, também, conhecido por ser ali que eram realizadas cerimónias tradicionais, como a circuncisão dos jovens da aldeia.

Um bairro transformado em lagoa

Ngungo Indua era o nome do bairro que submergiu em consequência de uma chuva miúda que caiu sobre a localidade. Hoje, apenas se vê um grande lençol de água parada. Não há vestígios de ter havido casas naquele local. Os mais velhos dizem que o fenómeno ocorreu há muitos séculos, antes mesmo da chegada dos portugueses ao Reino do Congo. A Lagoa do Feitiço localiza-se em Dambi à Ngola, comuna da Aldeia Viçosa, município do Dange Quitexe.
Quando o Jornal de Angola chegou ao local, o silêncio era absoluto e a paisagem muito bela de se ver. Isaac João Capita, o seculo da aldeia Dambi à Ngola, despejava vinho, maruvo e gasosa na água e pronunciava algumas palavras: “Eu não dormi com a promessa. Nós temos a responsabilidade de informar que trouxemos aqui os nossos visitantes. Querem conhecer e descobrir a tua história, por isso trouxemos o maruvo, o vinho e a gasosa, para vos alegrar e permitires que os mesmos possam realizar o seu trabalho sem problema”.
O seculo explicou que aquele ritual era indispensável e as palavras eram dirigidas aos espíritos que habitam a lagoa. Ante a nossa admiração, o mais velho fez questão de assinalar que a lagoa tinha segredos e uma grande história e contou-nos parte dela. “Tudo aconteceu quando, numa manhã, na extinta aldeia do Ngungo Indua, onde viviam mais ou menos 1.500 pessoas, apareceu um homem defeituoso em cujo corpo escorria água e pus. Cheirava mal e estava com sede, mas ninguém lhe queria dar água”, contou.
Duas crianças, um rapaz e uma menina, que estavam sozinhas em casa, correram para o ajudar e deram de beber ao homem misterioso, que agradeceu e à saída deixou uma recomendação. Pediu aos petizes para avisarem os pais, mal eles chegassem a casa, para recolherem todas as suas coisas e irem para a montanha do Quituto, que fica a cerca de cinco quilómetros da lagoa, porque mais tarde haveria uma nuvem negra que cobriria a aldeia e deixaria cair sobre ela água suficiente para a fazer desaparecer. Pediu que não dissessem a mais ninguém além do pais. “Isso aconteceu mesmo, não é mentira”, afirmou o ancião.
“Era uma chuva miúda que caiu apenas nesta área ocupada pelo bairro. As casas inundaram-se e as pessoas morreram afogadas. Foi incrível o que aconteceu, porque até as pessoas da aldeia que estavam fora dela regressavam ao local como se tivessem sido chamadas de emergência e também morreram afogados”, contou o seculo.Kipita Kya Nzambi, pai dos meninos, não conseguia acreditar no fenómeno. “É uma história real que já dura há mais de uma dezena de séculos”, referiu Isaac João Capita.

“Lagoa do Feitiço”
O nome da aldeia também tem a sua história. Conta-se que José Dinis, um fazendeiro português, levou a família e os capatazes à lagoa para fazer um piquenique no local. Comiam e bebiam alegremente até que apareceu um velho de uma aldeia vizinha que os alertou sobre o perigo que corriam. “Aquele fazendeiro português era muito teimoso. Não acreditou mesmo. No gozo, lançou 50 centavos à lagoa dizendo em voz alta que queria ver algum milagre. Não passou muito tempo e apareceu, de repente, uma menina morta, dentro de um caixão que flutuava sobre a água. O fazendeiro ficou assustado e recolheu os
filhos e a mulher e foram para casa”.
À noite, a desgraça tomou conta da sua residência. A filha morreu sem mais nem menos. O fazendeiro passou a tratar o lugar como Lagoa do Feitiço e, segundo o seculo da aldeia, foi a partir daí que nasceu o nome da lagoa, que antes tinha o nome de Ujia Ya Mbuila. Por ter “engolido muita gente”, pois nela aconteciam coisas incríveis, assustadoras e difíceis de acreditar, os mais velhos da aldeia reuniram-se para resolver o assunto. Desde então, passou a ser obrigatório realizar os rituais que até hoje são observados para se ter acesso ao local. “Os velhos levaram comida e bebida para pedir perdão às sereias por todo o mal que os nossos antepassados fizeram, para que nada mais aconteça”, contou.
Hoje, já se pode beber a água da lagoa e tomar banho nela. Mas o seculo alertou que só os nativos de Dambi à Ngola estão autorizados a tocar nela, mesmo sem autorização. Isaac Capita esclareceu que “se um estranho tocar na água sem autorização dos mais velhos da aldeia, pode desaparecer misteriosamente, por isso é que antes de vocês (jornalistas) fazerem o vosso trabalho realizámos o ritual”, explicou.

Grutas do Nzenze e as magníficas pedras do Bombo 

Manhã de domingo, às 6h30 fazia muito frio. Havia nevoeiro e a viagem estava a ser realizada a uma velocidade de 40 km/hora, pelo menos desde a cidade do Uíge até ao desvio da estrada que liga o município do Quitexe ao de Ambuíla, numa distância de cerca de 36 quilómetros. A equipa do Jornal de Angola preparava-se para mais uma empreitada, uma descoberta turística, a “Grutas do Nzenzo”, na aldeia Bombo, regedoria de Ambuíla, município de Ambuíla.
O local também não pôde ser visitado sem a permissão das autoridades tradicionais locais, que devem cumprir rigorosamente um ritual para a protecção do visitante. O som produzido pelo movimento das águas debaixo da ponte de betão construída sobre o rio Loge chamou-nos a atenção. Uma pequena e linda catarata deixava a água cristalina fluir entre as azinhagas rochosas, passando debaixo da ponte, entre os brutos pilares que a seguram, estagnando numa pequena ilha rodeada de pedras rochosas e de uma grande quantidade de plantas e árvores, uma paisagem fantástica e de grande beleza.
Enquanto explorávamos aquele cenário maravilhoso, um grupo de crianças com idades entre os 10 e 12 anos mergulhavam pelados e exibiam coreografias acrobáticas estupendas. Saltavam da ponte para baixo, a cerca de 10 metros de altura. Estavam entusiasmadas com a presença dos jornalistas no local.

Pedras do Bombo

Continuámos a viagem, chegámos à vila de Ambuíla e fizemos mais uma paragem. Cumprimentámos as autoridades locais e deram-nos um guia. Na aldeia Bombo, regedoria de Ambuíla, o regedor Álvaro Pedro Xingue e outras autoridades tradicionais locais aguardavam por nós.
O relógio marcava 14h15 quando a população do Bombo, gente alegre e trabalhadora, nos recebeu com muita emoção e carinho. A vista da aldeia era verdadeiramente fantástica, todos envolvidos em pequenas tarefas. Se os homens estavam empenhados no fabrico de adobes para a construção de pequenas cubatas, as mulheres agarravam a cozinha,
preparavam kizaca com feijão e carne de javali. Naquela hora, uma mulher “biculava” com mestria o funji de bombó numa enorme panela bibiana.
Da vila de Ambuíla até à aldeia Bombo são 17 quilómetros. Chegámos mesmo à hora certa. O estômago já se embrulhava todinho. Sentíamos muita fome, mas a fantástica imagem arquitectónica natural das famosas Pedras do Bombo, que parecem edifícios construídos à volta da aldeia, deixou-nos ainda mais curiosos em relação à descoberta da gruta. A fome passou de repente. Corremos ao encontro da gruta.
Apanhámos o soba e um ancião da aldeia. Avançamos até Ambuíla, mais seis quilómetros, encontrámos o regedor local com muito boa disposição. Álvaro Xingue não perdeu tempo e levou-nos até à Gruta do Nzenzo.
Logo à entrada da gruta fomos todos ungidos na testa com uma mistura de argila e lunguila (bebida extraída da cana) e percorremos cerca de 400 metros a pé até ao local. Antes de entrarmos na caverna, ficámos de joelhos, o soba, regedor e o seculo pediam aos espíritos para nos protegerem do mal. “Nós somos de origem bantu e todas as autoridades
tradicionais de cada localidade definem algumas regras que devem ser rigorosamente cumpridas”, esclareceu.
Na caverna cai água natural a partir de um pequeno orifício localizado na sua parte superior interna. O produto é translúcido, confunde-se com a água mineral. O regedor disse que ninguém sabe dizer de onde vem aquela água, porque nenhum rio passa próximo da gruta. “A água é misteriosa”, afirmou.
Quanto à que jorra na gruta, os habitantes do Bombo beneficiaram da prestimosa ajuda de um empresário que, mesmo não sendo natural da aldeia, e sem cobrar nada em troca, criou um sistema rudimentar que transporta a água até ao chafariz construído para o efeito.
Ao longo da gruta, encontrámos muitas armadilhas montadas pelos caçadores locais, nos diversos acessos que nos levam ao interior do local. No período nocturno, animais como javalis, pacaças, burros do mato, veados, gazelas e cabras da mata juntam-se para descansar, segundo o regedor. “Por isso, eles acham que aqui é o melhor lugar para colocar as armadilhas”.

Jornal de Angola: José Bule |Uíge - 07 de Outubro, 2012

Uíge, a vida em marcha lenta


As vias de acesso que ligam a sede municipal de Maquela do Zombo às comunas de Sacandica, Béu e Cuilo Futa estão muito degradadas. A população percorre a pé os 320 quilómetros entre Maquela e Sacandica, 75 até à comuna do Béu e 185 até Cuilo Futa.
Devido às condições da via, a viajem de carro é longa e espinhosa, chegando a durar dois dias.
Os charcos, buracos e ravinas tornam o trânsito difícil. Pontes e pontões estão degradados ou destruídos. As estradas construídas no período colonial, nunca beneficiaram de obras de restauro. Pelo caminho, observam-se aldeias com casas de pau a pique, cobertas de capim ou chapas de zinco.
Muitas pessoas, principalmente as mulheres jovens, percorrem quilómetros a pé, carregadas de produtos do campo, para vender nos mercados informais ou para o sustento das suas famílias.
Os homens dedicam-se à caça e à pesca para diversificar a dieta alimentar. A fertilidade da terra e os rios que atravessam os campos agrícolas garantem o sucesso na produção da mandioca e jinguba.
As populações também cultivam arroz, batata-doce, banana, café, ananás, abacaxi, feijão, milho, cana-de-açúcar e citrinos.
Nas três comunas, os habitantes também se dedicam à criação, em grande escala, de gado caprino, suíno e ovino, que serve apenas para consumo das suas famílias. A comercialização é dificultada pela falta de transporte, como consequência das condições em que se apresentam as vias de acesso. Em Sacandica, Béu e Cuilo Futa, o comércio é feito através de permutas. Os produtos alimentares cultivados nestas regiões são utilizados para trocar com os pequenos comerciantes ambulatórios.

Paulo Yacala, presidente da Associação das Autoridades Tradicionais da comuna de Sacandica, referiu que a falta de reabilitação das estradas que ligam a Maquela do Zombo, tem criado graves problemas aos habitantes, principalmente no escoamento dos produtos agrícolas produzidos na região.

Falta de escolas

As autoridades tradicionais das comunas de Béu, Sacandica e Cuilo Futa estão preocupadas com a falta de escolas. Faltam também centros e postos médicos, maternidades, professores e enfermeiros.
A falta de uma antena para as operadoras de telefonia móvel deixa as populações mais isoladas. Não existem os serviços de Registo Civil. Na comuna de Sacandica existem apenas dois postos de saúde, um na sede comunal e outro na regedoria de Cuximane.
Estas unidades hospitalares, disse Paulo Yacala, há muito que estão incapacitadas para dar resposta aos problemas dos pacientes, devido ao estado avançado de degradação das suas estruturas.
O presidente da Associação das Autoridades Tradicionais de Sacandica disse que a falta de serviços de saúde com qualidade nas localidades tem obrigado os pacientes em estado crítico a procurarem os serviços de saúde da República Democrática do Congo. Um outro problema apresentado pelas autoridades tradicionais prende-se com a falta de escolas do segundo ciclo do ensino secundário.
Segundo as autoridades, nestas localidades, depois dos alunos concluírem a nona classe ficam impossibilitados de prosseguir os estudos.
As autoridades tradicionais defendem igualmente a construção de casas protocolares, escolas, centros de saúde, fornecimento de energia eléctrica e sistemas de abastecimento de água potável.
Uma comissão do Governo Provincial do Uíge trabalhou nas localidades de Sacandica, Béu e Cuilo Futa, no município de Maquela do Zombo, com o objectivo de radiografar no terreno as condições básicas de vida dos habitantes.
Os membros da comissão, coordenada pelo director provincial da Saúde, Benji Henriques, foram recebidos pelos administradores e autoridades tradicionais, com quem analisaram as áreas reservadas para a construção de novas unidades sanitárias e estabelecimentos escolares, além de outras infra-estruturas de impacto social.
As comunas de Sacandica e Béu têm três mil quilómetros quadrados, cada uma. A Sacandica tem sete regedorias, 67 aldeias e uma população estimada em 28.220 habitantes. A comuna do Béu tem 51 aldeias e uma população de 33.409 habitantes, maioritariamente camponeses.
A localidade de Cuilo Futa tem uma extensão de 2.766 quilómetros quadrados, quatro regedorias, 37 aldeias e uma população de 21.510 habitantes.

Fonte: Jornal de Angola – 26 de Janeiro de 2012.

NR: Senhores do MPLA, bem instalados em Luanda, parece que perderam o norte, Zaire e Uíge, não fazem parte do território? Ou será por serem bakongos e ex-apoiantes da UPA/FNLA, que não têm direito ao desenvolvimento? Esses preconceitos já deveriam ter terminado há muito tempo.

É o fim da picada!

Já passou um mês desde que fomos “plantados” nestas terras inóspitas algures no Uíge e a rotina das dificuldades de todos os dias começava a fazer mossa. O paludismo também já deu sinais de vida provocando algum desânimo nas hostes, mas a vida lá continuava, ainda não era o fim da picada!

As máquinas da engenharia militar trabalhavam a todo o gás para aproveitar a época seca, mas as gargantas e narizes é que “pagavam” a conta do imenso pó que pairava no ar.

Ainda havia muita picada para desbravar, era preciso manter a moral elevada porque o fim da comissão ainda não se vislumbrava no horizonte, tal como esta picada que parecia não ter fim.

Nesta foto vemos um morteiro de 120 mm que lá do alto dominava os montes circundantes e que viria a ser utilizado no dia 7 de Outubro de 1971, o primeiro dia em que ouvimos as Kalashnikov em contraponto com as G3.

 Mário Mendes

Uíge, a vida em marcha lenta

O município do Alto Cauale, na província do Uíge, é daqueles cujo desenvolvimento está refém do mau estado das vias que lhe dão acesso. A equipa de reportagem do Jornal de Angola percorreu os cerca de 220 quilómetros até Cangola, a sede municipal, e constatou no terreno o impacto provocado pela situação de quase isolamento da circunscrição.
São cinco horas da manhã e os cerca de 120 quilómetros de estrada que ligam o município do Negage à comuna da Alfândega, no município de Sanza Pombo, têm de ser percorridos em mais de quatro horas, porque o velho asfalto, aplicado no período colonial, está totalmente degradado. Crateras enormes obrigam o automobilista a reduzir a marcha e a caminhar aos ziguezagues.
Chegados a Alfândega, depois de um breve descanso, começa outra odisseia: a de transpor os cerca de 62 quilómetros até à vila de Cangola, sede municipal do Alto Cauale, passando pela comuna de Caiongo. A estrada terraplanada obriga à maior prudência, pois a via está esburacada e coberta de lama resultante das últimas chuvas.
Sensivelmente às 14h23, estão por fim percorridos os cerca de 220 quilómetros que separam a cidade do Uíge da vila de Cangola. Passaram-se nove horas de uma viagem penosa e cansativa.
A movimentação de pessoas e viaturas, naquela via, é fraca. Como resultado, o comércio em Cangola é pouco animado. A maior parte dos estabelecimentos comerciais tem as portas fechadas e os poucos que funcionam têm pouca clientela. As más condições de circulação da principal via de acesso, ao dificultar o contacto com o exterior da vila, condicionam também a própria qualidade de vida das pessoas, já que limitam os seus horizontes e as opções de consumo.
O administrador municipal do Alto Cauale, Luís dos Santos, disse à reportagem do Jornal de Angola que vários sectores da vida do município enfrentam dificuldades de ordem material, funcional, financeiro e de recursos humanos.  “Ao longo destes anos têm sido direccionados poucos projectos para este município. Com os escassos recursos financeiros que nos são colocados à disposição, através do processo de descentralização financeira e do programa de combate à fome, procuramos intervir nos aspectos mais prioritários, como a saúde e educação. Mesmo assim, muito ainda está por ser feito neste município”, disse.
Na sua óptica, para além da escassez de recursos financeiros, faltam recursos humanos qualificados para pôr a funcionar, na plenitude, os sectores público e privado. Luís dos Santos valorizou a necessidade de os projectos propostos pela administração municipal serem aprovados e financiados. “O pouco que temos feito não é suficiente para inverter a situação social e económica do município. É necessário que sejam aprovados e financiados os projectos que remetemos ao Governo da província, para podermos intervir de forma mais visível na solução dos vários problemas e dificuldades que a população enfrenta”, afirmou.
Aproveitando a oportunidade de estar a falar com a equipa do Jornal de Angola, lançou um apelo aos empresários nacionais para investirem no município. “Aos empresários da província, e outros, gostaríamos de dizer que temos as portas abertas para investimentos no município”, disse.

Escolas  insuficientes

O sector da educação no município do Alto Cauale funciona com grandes dificuldades. As salas de aulas são insuficientes para as necessidades e há, igualmente, um número reduzido de professores. O município não dispõe de boas condições de alojamento e de trabalho para os professores provenientes da capital da província.
Em Cangola e nas comunas do Bengo e Caiongo funcionam escolas do primeiro e segundo ciclo do ensino secundário. As 70 escolas do ensino primário existentes funcionam em instalações de adobe, cobertas com capim, em igrejas e debaixo de árvores.
O governo construiu uma escola de 12 salas de aula na sede municipal, para albergar, a partir do próximo ano lectivo, o segundo ciclo do ensino secundário, e duas escolas de seis salas nas sedes comunais do Bengo e Caiongo.
O processo de ensino é assegurado por 471 professores, número considerado insuficiente, tendo em conta os mais de 9.800 alunos matriculados no ano lectivo findo. Existe um grande contingente, não contabilizado, de crianças fora do sistema de ensino.
De acordo com o administrador, são necessárias 300 novas salas de aula e pelo menos mais 400 professores, para normalizar o funcionamento do sector da educação no município. A maioria dos professores lecciona na condição de colaboradores.
“O número de salas de aula e de professores não é suficiente. No ensino primário a maioria das escolas está localizada nas aldeias, onde as salas de aula são adaptadas à sombra das árvores, casas feitas de adobe e cobertas de capim e em igrejas”, esclareceu.
Luís dos Santos adiantou que está prevista a construção de mais 30 salas de aula, até ao primeiro trimestre do próximo ano. Prevê-se também o fornecimento de chapas de zinco às escolas das aldeias, para substituir a cobertura de capim.

Saúde com problemas

Em todo o município existe apenas um centro de saúde, instalado na vila de Cangola, seis postos de saúde nas sedes comunais e nas aldeias de Marinda, Quizauka, Gunza e Kaunga. A rede municipal de saúde é servida por três ambulâncias. Não existindo nenhum médico, a assistência sanitária é assegurada por seis enfermeiros com formação básica. Com estatísticas como estas, a população está impossibilitada de ter uma assistência sanitária de qualidade e em tempo oportuno.
“Há insuficiência de postos e centros de saúde, falta de médicos e enfermeiros e de medicamentos. Tudo isso tem contribuído para a prestação de uma assistência sanitária de fraca qualidade”, referiu.
O administrador defende a construção de postos de saúde em cada regedoria, centros de saúde nas sedes comunais do Bengo e Caiongo e um hospital municipal na vila de Cangola. Na sua óptica é ainda necessário o envio de um médico especializado em clínica geral, um pediatra, um cirurgião e 44 enfermeiros com formação superior e média.
“Em cada posto de saúde funciona apenas um enfermeiro, e quando este está impossibilitado de trabalhar o posto fecha as portas e a população fica sem assistência sanitária. Nos casos de doenças que ultrapassam a capacidade dos enfermeiros, os pacientes são encaminhados para os hospitais municipais de Sanza Pombo e Negage ou para o Hospital Geral do Uíge”, salientou.

Energia e água

Na vila de Cangola foi instalado um gerador com 45 Kva de capacidade. Nalgumas noites, a vila fica às escuras por falta de combustível. Nos bairros periféricos, os populares utilizam candeeiros a petróleo ou pequenos geradores de electricidade. O uso incorrecto dos candeeiros e geradores tem provocado incêndios, de que resultam, amiúde, ferimentos graves e até mortes.
“O grupo gerador não tem capacidade para fornecer energia a toda a vila. As comunas não têm electricidade. O recurso aos candeeiros e pequenos geradores, infelizmente tem causado alguns incidentes, como é o caso de um professor que morreu asfixiado com o filho, devido aos gases libertados pelo gerador”, relatou o administrador.
Há dois anos foram instalados sistemas de captação, tratamento e distribuição na vila de Cangola e nas sedes comunais do Bengo e Caiongo. Nesta última e em Cangola o sistema está avariado e a população voltou a consumir, directamente, a água dos rios e cacimbas.
“Neste momento só a comuna do Bengo tem água potável a jorrar das torneiras”, disse o administrador, que acrescentou que o seu executivo está empenhado na recuperação dos sistemas de captação e abastecimento de água potável de Caiongo e Cangola, para prevenir o surgimento de doenças derivadas do consumo de água não tratada. Para já, as autoridades sanitárias têm distribuído algumas soluções para desinfecção da mesma.

Investimento na agricultura

A agricultura é a principal actividade de sustento das populações do município do Alto Cauale, embora praticada de forma rudimentar. Na circunscrição existem 25 associações de camponeses. “A Administração Municipal possui um tractor, com as respectivas alfaias, que vai colocar à disposição das associações para permitir o cultivo de vários hectares de terra e fazer com que, nos próximos anos, a agricultura deixe de ser de subsistência e passe a uma actividade também comercial”, concluiu Luís dos Santos.
O município do Alto Cauale possui uma população estimada em 75 mil habitantes, distribuídos pela sede municipal, Cangola, e as comunas do Bengo e Caiongo. Administrativamente está subdividido em 22 regedorias e 118 aldeias.

(Jornal de Angola, 15/12/2010)

NR: Eis o retrato de Angola a não sei quantas velocidades. Luanda em ascensão rapidíssima, outras cidades como o Huambo, Benguela, Lubango em ritmo crescente e províncias inteiras como por exemplo o Zaire ou o Uíge, em marcha lenta, quase parada. No vasto território angolano há não sei quantas angolas …

Do Uíge ao Songo

Em 1 de Setembro de 1971 depois de uma noite dormida no Uíge (ex-Carmona), a C.Caç. 3413 seguiu por estrada alcatroada até ao Songo. Ali começou a picada, o alcatrão ficou definitivamente para trás e  depois nunca mais conseguimos libertarmos-nos do inevitável pó na época seca e da lama durante a época das chuvas. Eram assim as vias de comunicação no norte de Angola.

Já lá vão quase 40 anos e eu pensava que por aquelas bandas se registasse progresso que se visse desde os tempos coloniais, afinal o Songo está tão somente a 40 km da cidade do Uíge, capital de província. Mas não é assim, as dificuldades são mais que muitas, em muitos sectores a situação é bem pior que há 40 anos, quem o diz é a própria imprensa angolana. Esta zona era grande produtora de café e a riqueza que ele proporcionava também serviu para o desenvolvimento social. Esta comparação da situação actual com a época colonial deve servir de referência às autoridades angolanas. Não faço mais comentários, a notícia segue AQUI.

Mário Mendes

Carmona (Uíge)

A província do Uíge situada no extremo norte de Angola tinha  como capital na época colonial a cidade de Carmona. Esta designação aconteceu em 1955, como homenagem ao presidente da república portuguesa Óscar Carmona, falecido em 1951, e manteve este nome até à independência de Angola, em 1975, voltando nessa altura ao seu nome inicial, Uíge.

Carmona, também esteve na rota da C.Caç. 3413, porque lá pernoitamos no dia 31 de Agosto de 1971 (BC 12 – foto abaixo, colhida na net), quando de Luanda rumamos ao nosso primeiro destino (Colonato do Vale do Loge, Quimaria, Toto e BTCleópatra), locais que foram a nossa “casa” nos primeiros meses de comissão.

A estrada de Luanda para Carmona, era também designada por “estrada do café” porque a grande produção da província era o café, havendo grandes fazendas em diversos locais, que o traziam para o mercado de Carmona onde era vendido e depois transportado para Luanda para exportação.

Por ser zona onde havia muitos fazendeiros brancos e trabalhadores bailundos ao seu serviço, foi um dos locais escolhidos pela UPA para começar os massacres em Março de 1961, Quitexe, Cólua, etc.

Nos anos 70, devido à grande riqueza que o café proporcionou, Carmona era uma cidade próspera, com muitas infraestruturas que outras cidades não tinham. Tinha um aeroporto, aero clube, piscina, colégio, escola técnica, uma delegação do Banco de Angola, o Rádio Clube do Uíge, o Grande Hotel do Uíge, Clube Recreativo do Uíge, Hospital e todos os serviços públicos.

A foto que se segue (net) mostra uma vista aérea da cidade nos anos 70.

e esta outra, o mercado do café, razão da sua prosperidade.

Para aqueles que ali viveram, aqui está um vídeo que mostra o quotidiano da cidade na década de 70.

Mário Mendes

Quimaria

Quimaria, comuna pertencente ao município de Bembe, província do Uíge, Angola, faz parte da história da nossa companhia, porque dois grupos de combate, o 3º e o 4º estiveram lá durante algum tempo.

Eu nunca estive naquele local e por isso socorro-me de relatos que vejo na net. Antes de eclodir a guerra em 1961, seria uma localidade com muita gente, prova disso é que ali existia já um cemitério. Durante a guerra, a população teria debandado para outras paragens e durante o conflito armado apenas os militares foram “donos” daquele território. No final da guerra, a população civil voltou em grande número tendo inclusivamente na actualidade dezenas de crianças.

As infra-estruturas básicas é que parecem ser ainda muito deficientes, as estradas então são uma miséria, pois uma viagem para o Toto (cerca de 48 km), dura quase um dia, mesmo em viaturas TT.

No post aqui publicado em 26 de Novembro de 2009, intitulado “Província do Zaire na actualidade”, fiquei deveras impressionado com o relato de uma viagem de Luanda para Mbanza Congo que demora mais de 12 horas a percorrer cerca de 500 Km. Esta situação é pior do que a que deixamos depois do fim da guerra e já lá vão 35 anos. Em 1972 quando percorríamos o mesmo percurso, demorávamos mais tempo, é verdade, mas não era pelo estado da estrada, mas sim pelo facto dos Unimog atingirem uma velocidade máxima de 53 Km/hora. O argumento da guerra civil também já não colhe para justificar a falta de investimento, porque essa já terminou há mais de 7 anos.

S.Salvador do Congo, pela sua história, (capital do antigo reino do Congo) deveria merecer outra atenção por parte do poder em Luanda, ainda para mais, sabendo que alguma parte do crude angolano é extraído no Zaire (Soyo). Se ao menos uma parte da destilação do crude que também serve para a produção do alcatrão fosse ali aplicada, certamente a estrada para Luanda seria mais condigna.

Na realidade parece que toda a riqueza de Angola flui para Luanda, onde vivem 4 milhões de pessoas, ¼ da população total do país. Se os angolanos querem um desenvolvimento sustentado e equilibrado na totalidade do território, terão de fazer uma regionalização a sério, caso contrário, ouvirão por muitos e muitos anos, o slogan: “Angola é Luanda, o resto é paisagem.”

Mas voltemos a Quimaria, para ver o relato que faz no seu blogue,  Alexandre Correia, sobre a sua aventura naquele local. O seguinte link leva-nos lá.

http://asviagensdealex.blogspot.com/2009/07/um-amanhecer-imprevisto-no-mato-acordar.html

Mário Mendes

Café de Angola

angolacafeCafé, uma riqueza em extinção

O café é por excelência uma riqueza, que durante a administração colonial portuguesa contribuiu substancialmente para o desenvolvimento da então província de Angola. A província do Uíge, situada no norte do país, com uma extensão de 58.698 Km2 foi a principal produtora e, nos últimos anos, antes da independência nacional, contribuía com cerca de 30 por cento no orçamento da administração colonial.

No entanto, a criação de empresas territoriais depois da independência deu novo impulso à produção do café, que começou a decair nos anos 86 com o agravamento do conflito armado a nível do país.

Hoje, a produção de café na província do Uíge corre risco de extinção, a julgar pelo derrube sistemático de grandes fazendas cafeícolas em substituição de outras culturas de rápido rendimento, designadamente mandioqueiras, bananeiras e feijoeiros. “Não temos moral para relançar a produção de café, porque ninguém nos apoia”, disse um agricultor em declarações ao Folha 8.

O produtor alega que a produção de café exige recursos financeiros avultados para garantir uma boa colheita. “Optamos agora por produzir o nosso milho, mandioca, feijão, … batata, banana e abacaxi. “São produtos que nos dão algum dinheiro a qualquer hora”, acrescentou o agricultor.

Nas grandes fazendas, como a de Pumba Loji, Candande Loé, São Jorge, Congo agrícola … Songo II Maonde, que antes numa colheita rendiam mais de 10 mil toneladas de café mabuba (café com casca), hoje a produção não passa de 150 toneladas. “É uma pena o estado em que se encontram hoje as grandes fazendas de café que ergueram muitas infra-estruturas em Angola. Será que o nosso Governo não tem recursos para ajudar os agricultores interessados no fomento desta riqueza?” interrogou-se o ancião Lucas Pedro, do município do Songo, 40 quilómetros a norte da cidade do Uíge.

O ancião ainda produz o café apesar da falta de instrumentos de trabalho e recorda que “os colonos apesar de nos explorarem, valorizavam o agricultor”, concluiu.

Fonte: Folha 8