Toto (1966/68)

Em Janeiro de 1972, já com 5 meses de comissão, tínhamos alguma experiência das lides da guerra que travávamos no norte de Angola, a base táctica de Cleópatra, onde verdadeiramente nos estreamos já tinha ficado para trás, a base táctica da Cecília já era um pouco melhor, mas as condições em ambas eram tão deprimentes que a nossa próxima etapa só poderia ser melhor que estas e a aproximação dos 6 meses inicialmente programados para esta estadia deixava-nos um pouco mais animados. 

O lugar mais próximo com população civil era o Toto e era aí que de vez em quando nos deslocávamos em busca de aprovisionamentos e outros bens e serviços que faziam daqueles dias um “oásis” no meio do deserto em que estávamos metidos. O pó que na época do cacimbo tínhamos que suportar (o lenço verde a tapar a boca e as narinas que era a nossa imagem de marca, minorava o sufoco), ainda assim valia bem a pena. Pois bem, há dias um nosso leitor, Vítor Saraiva, indicou-nos o link de um blog que contém diversas fotos do Toto, dos anos de 1966 a 1968 e como aquele lugar fez também parte do nosso “curriculum” da guerra, achei por bem divulgá-lo para reavivar a nossa memória.

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Mário Mendes

Companheiros de aventuras

A C.Caç. 3413 chegou a Angola no dia 9 de Agosto de 1971 e 3 semanas depois, mais precisamente no dia 31 de Agosto, deixamos para trás a bonita cidade de Luanda e lá fomos para a guerra, rumo ao Norte. Os 1º e 2º grupos de combate foram juntar-se à C.Eng. 3478 e à C.Caç. 1311, pessoal que durante cerca de 6 meses foram nossos companheiros de aventuras. Neste blog, aparecem diversos comentários de ex-combatentes que estiveram nos locais que aqui se vão referindo e é sempre com enorme satisfação que por vezes nos chegam notícias de alguns que apesar de pertencerem a outras unidades, viveram connosco, nos mesmos locais, as mesmas agruras da guerra. O ex- furriel miliciano Artur Rodrigues, da C.Engª 3478, deixou alguns comentários que a seguir se transcrevem:

Caro Mário Mendes.
Não tendo como recordação o seu rosto, estivemos nos mesmos locais e na mesma altura, em Angola.
A C ª de Engª 3478 a que pertenci, fez esse percurso de Outº de 71 a Dezº de 73, fomos render a Cª de Engª 2579 e tivemos apoio e proteção da C Caç. 3413, a vossa e da C.Caç.1311, para além de outras.
Estivemos no Toto, depois da viagem, Luanda, Carmona (Uíge), Vale do Loge, Toto, e com destacamentos em Quimaria, Cleopatra, Cecília ,etc. Na abertura de picadas tácticas, sendo o percurso para os seus acessos, a perigosidade e cuidados, que transmite nas suas descrições. Depois regressamos a Luanda na época das chuvas e voltamos de novo, desta vez através da estrada Ambriz, Ambrizete, que nos levou até Zala, outro ponto quente. Houve algumas frações da nossa Cª, que depois prestaram serviço e apoio noutros locais, onde era preciso. Claro que estávamos com a construção de estradas e outras vias, pontes e aquedutos, a valorizar aquele País. Não havia razão para sermos flagelados com ataques e com minas! Contámos sempre com o V/ apoio e protecção.
Seria interessante, um destes dias, em data oportuna conseguir-se juntar quem, irmanado nos mesmos propósitos, gastou alguns anos da sua vida, outros a própria vida (paz à sua alma) e as condolências aos que já foram e seus familiares, juntarem-se os intervenientes de todos quantos estivemos lá.
Os m/ Cumprimentos
e um Abraço.
Artur Rodrigues

Angola é potencialmente, um dos países mais ricos de Africa e até do Mundo.
Queiram os angolanos e os seus Governantes e Lideres, seguir o caminho da paz, da justiça e da Concordia, terão certamente, muito onde aplicar as suas energias e os seus conhecimentos, sem descurarem claro está, o seu passado, como Povo e como País. Portugal teve o seu papel, tal como o fez, por onde andou e esteve. Não é qualquer país, tão pequeno como o nosso Portugal, que tendo cerca de três milhões de pessoas no seculo Xlll/XlV e fez o que fez. Cometeu erros é certo, mas deu mostras do que é possível fazer-se com tantas e tantas limitações. Angola tem um potencial de crescimento e desenvolvimento enormes, mas não se podem esquecer as pessoas, os seus habitantes, de qualquer proveniência, credo, raça, etnia, etc. Portugal tem também a sua cota parte de responsabilidade e deve dar também o seu contributo como o fez ao longo de séculos. Toda a costa angolana é duma beleza soberba, tal como o interior.
Luanda é duma beleza impar. Tem espaço para crescer, a Norte/Sul e Nascente e uma ponta de terra “ILHA” e uma Baia, dignas de “Quadro/Pintura”, que devem ser requalificados com competência, com profissionalismo, mas com amor, porque é um pedaço que a todos diz respeito. Quer se avance para a barra do Cuanza, quer de avance para a barra do Dande, quer para o interior, pode fazer-se uma Luanda digna do nome São Paulo de Luanda.

A C.ª de Engª 3478 chegou a Angola de barco em Outº de 1971. Fomos para o Agrupamento de Engª de Angola e tb Grafanil, onde estivemos algum tempo, pouco. Seguidamente fomos para o Toto, Quimaria e Cecília, inicialmente Cleópatra, dando seguimento à construção de picadas tácticas e construção de pontes, viadutos e drifts. Do Toto mudámos para Zala.
Portanto, ao longo desse tempo, partilhamos convosco todas as peripécias porque passaram nesses locais. Daqui fica o desafio para quem lá esteve, contar as suas histórias que só dignificam o empenho com que aplicamos parte da n/ vida numa terra que deve saber ser grata, a quem lutou por ela, dando-lhe a base da pujança que é hoje e que há-de ser no futuro e que sem ressentimentos, se procure um diàlogo que na altura faltou, sem ser necessário a perda de vidas humanas e os sacrifícios, porque tiveram de passar. Que esse esforço sirva para que todos, sem mágoas, analisem de forma isenta o que poderá ser hoje em dia o engrandecimento de um País como Angola, dando aos seus melhores condições de vida, com mais humanismo e receber de braços abertos e com cordialidade, quem deseja e precisa para colaborar, com aquele belo País e hospitaleiro Povo de Angola, que de Cabinda ao Kuando Kubango, sempre souberam dignificar a sua Terra.

Nota. Também concordo com a ideia de um dia tentar reunir o pessoal da C.Eng. 3478 e da C.Caç. 1311, para um convívio com a nossa C.Caç. 3413, para recordar aqueles tempos na Cleópatra e Cecília. O Artur Rodrigues não se importará de fazer a ponte para a C.Eng. 3478. Pode ser que apareça alguém da C.Caç. 1311. Quanto à C.Caç. 3413, penso que a disponibilidade é total. Mãos à obra! Mas enquanto não chega esse dia, vamos recordar os retratos que o nosso amigo ex-furriel Joaquim Alves fez das bases tácticas onde estivemos, com o humor tão característico de um alentejano de gema.

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Mário Mendes

Na frente, tudo na mesma, como a lesma!

Na Cecília, os “sicilianos” vão fazendo pela vida, as saudades apertam cada vez mais, os dias passam lentamente, a picada avança não sabemos para onde, é preciso rasgar montes, florestas e vales.

Ainda hoje não sei a finalidade da abertura daquela picada que do Toto penetrava para o planalto do rio Luaia e não me parece que a mesma servisse para ligar a algum lugar mais remoto do interior da província do Uíge, mas isso também não era da nossa conta, a nossa missão era tão-somente proteger os homens e as máquinas da engenharia militar que tal como nós ali sofriam as agruras daquele lugar ermo.

Esta imagem do Google revela que por ali não existe vivalma, o aglomerado do canto superior esquerdo da imagem representa o Toto e parece que a picada que se construiu ainda se pode ver para sul, será um caminho sem saída, ou uma obra inacabada porque entretanto o 25 de Abril em Portugal acabou com a guerra colonial.

Aqui vão mais 2 fotos com 40 anos de existência, onde se verifica que apesar de tamanho isolamento os jornais nacionais também ali chegavam, certamente com muitos dias de atraso, mas para quem estava ávido por notícias pouco importava tal facto.

A segurança não podia ser descurada e lá do alto do planalto os olhos iam perscrutando a paisagem, porque o IN andava por ali.

Mário Mendes

Aniversário no mato

Estávamos há uma semana no acampamento de tendas de lona, habitado por cerca de quatro centenas de homens, na gíria militar chamava-se base táctica e ao local tinha sido dado o nome de Cleópatra, geograficamente localizado no planalto do Luaia, um rio afluente do Loge, na província do Uíge, norte de Angola. Não sei qual o significado daquele nome em terreno tão no meio do nada, talvez lá do alto do morro algum homem tentasse descortinar por ali alguma sereia que no seu devaneio seria a Cleópatra, acampamento idêntico ao do cabeçalho, Cecília. Pelos vistos o baptizador daqueles locais gostava da letra C.

O 8 de Setembro de 1971, ficou para sempre gravado na minha memória, que sítio mais inóspito me haveria de sair na rifa para festejar o 22º aniversário. Mesmo assim, não faltou o espumante e rodeado dos meus companheiros a festa de arromba.

Muita cerveja, e outras bebidas com mais teor alcoólico contribuíram para um “cocktail molotov” e a explosão foi forte.


No meio dos festejos, descobri que na nossa companhia, outro companheiro de armas era também aniversariante e a repetição de brindes aumentou ainda mais a carga explosiva.


Aqui estão os “donos” da festa desse dia. Quem sabe do Vítor Manuel Ferreira Tomás, de Lisboa, à direita? Caro amigo, parabéns, temos mais 40, é a vida!

Para melhor conhecerem o que eram estas bases tácticas, façam o favor de ler este artigo clicando AQUI.

Mário Mendes

NR: No ano de 1949 houve acontecimentos relevantes tais como:

  • Criação do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
  • Lançada a primeira sonda espacial norte americana, a Viking que chegou a 80 km da terra.
  • A União Soviética (URSS) testa a sua primeira bomba atómica.
  • Fundação da República Federal da Alemanha e criação da República Democrática Alemã (Divisão da Alemanha depois da 2ª guerra mundial).
  • Criada a República Popular da China por Mao Tse-Tung.

HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DA C. CAÇ.3413 (III)

Entretanto na frente, a abertura da picada seguia em bom ritmo. Não só por o terreno a isso ser propício, mas também pela grande capacidade de trabalho e experiência que a C. Eng. tinha. Autênticas máquinas, ou não fosse a “velhice” um posto, e tivemos que acompanhar o avanço da picada, mudando nós também de poiso. E mais uma vez temos que prestar homenagem á C. Eng. 2579, pelo excelente trabalho realizado. Dum dia para o outro, deixámos para trás a linda e maravilhosa “Cidade de Cleópatra” para irmos para a imponente e extraordinária “Cidade de Cecília”! Era um espanto! Não só a configuração e a arquitectura, mas o seu todo. Tudo nela se conjugava para dar a cidade fantástica que era e que se encontrava muito avançada em relação á época. Era uma cidade ECOLÓGICA e não só, que muitos hoje tentam imitar…

Senão vejamos. Estava localizada no cimo dum morro, donde se tinha uma vista espectacular e se avistavam muitos kms em redor! Um deslumbramento! Até tínhamos um “SPA” (espaço envolvente) muito maior e mais espaçoso que o anterior. Muito íngreme dum dos lados, mas muito suave e acessível pelo outro, onde a picada passava e que dava directamente para a “1ª circular”. E era só aqui que podiam circular veículos automóveis. Nas ruas, nunca, visto ser cidade “PEDONAL”.As ruas e avenidas eram amplas e largas, geometricamente distribuídas, tal qual uma cidade Pombalina. No largo principal, estava o comando, a enfermaria, as transmissões e dois bons “Pubs”. Um para as praças e outro para os graduados. A restante população distribuía-se ordenadamente em redor do núcleo central, e á hora das refeições, que era anunciada pelo bater de dois ferros um no outro, os soldados iam ordeiramente em bicha de pirilau á cozinha em estilo sef-service, que o bom do Fontoura e os demais cozinheiros iam deitando uma ou duas conchas dos preciosos pitéus, que deixariam qualquer “Chef” impressionado. O que não era de admirar tendo á disposição tão alta qualidade e variedade de produtos alimentares na dispensa frigorífica, e tudo isto confeccionado em preciosos trens de cozinha novinhos em folha, limpinhos e a brilhar que certamente a Filipa Vacondeus não desdenharia…E não era usado gás butano, (POUPANÇA MONETÁRIA E ENERGÉTICA) mas sim lenha natural da mata e de borla.

Os graduados estavam um bocado melhor, e tinham até uma “Messe” onde democraticamente, ou á falta de meios, comiam do rancho e bebiam conjuntamente oficiais e sargentos. A “Messe”, era composta por umas quantas estacas verticais amparadas por outras tantas na diagonal, suportadas ainda por umas folhas de chapa de zinco por cima. Não era fechada até acima propositadamente, para assim o ar fluir melhor, evitando o sempre incómodo ar condicionado e o aumento do buraco do “OZONO” …As chapas até tinham uns buraquitos que serviam para refrescar o ambiente, e só deixava de ser agradável quando chovia… Mas também não se pode ter tudo, caramba! A servir as bebidas, normalmente pouco frescas não fôssemos estragar a garganta, tínhamos o simpático “BARBA AZUL” da 1511. O balcão era do mais moderno e original que havia nos arredores, tal como as mesas e os bancos mas sempre respeitando o meio ambiente: madeira, ou como diz o ditado, era pau para toda a obra.

No meu edifício ficámos a morar só seis e todos furriéis, que agora em vez de cónico, era rectangular e muito mais espaçoso, além de que as camas eram mesmo camas com colchão e tudo! Um luxo a que já não estávamos habituados, mas que gostámos. Aquecimento era desnecessário, e até aproveitávamos os raios solares durante o dia para fazer sessões de “SAUNA”ou“BANHO TURCO” conforme o gosto de cada um. Modernices…

E as casas de banho? Que luxo! O nosso exército tratou-nos sempre com enorme zelo, e eu confesso que não estava habituado a tanta mordomia, mas uma vez ao dispor havia que aproveitar. E era ver os cerca de 400 homens a dirigirem-se aos chuveiros, encimados por três ou quatro bidons cheios de água aquecida através dos raios solares…Nada de esquentadores. Ecologia pura. Água á temperatura ambiente para ninguém se queimar, nem muito fria o que também não convinha. E nunca faltou, só algumas vezes…E quem reclamava eram alguns mais exigentes e distraídos que não se regulavam pela guita que funcionava como bóia e indicava o nível da água. Feitios…

E o parque desportivo? Um assombro de modernidade. Um campo de futebol amplo e último modelo, com as balizas em madeira da boa e já redondas em vez de rectangulares como ainda se viam muitas. As bancadas albergavam toda e qualquer multidão que ali se deslocasse, e havia lugares para todos de pé ou sentados. No chão é claro. Um campo de vólei, com rede e tudo, onde se disputavam renhidos encontros de bruto-vólei, também com uma boa bancada, e ás vezes muita pancada. Como vêem, razões de sobra para que estas linhas fossem seguidas já não digo por todo o mundo, mas pelo menos no nosso país. Os nossos“AUTARCAS”, e principalmente os nossos “DEPUTADOS E GOVERNANTES “deviam ir lá para verem como com pouco se pode fazer muito e bem.

Não pensem que me tinha esquecido, mas deixei para o fim e de propósito a nossa principal atracção: “A PISCINA”. Era aqui que de bom gosto convidava a mergulhar, depois de bem cheia, toda a nossa“CLASSE POLÍTICA, GOVERNANTES E DEMAIS PARASITAS”… Bem situada e com duas pranchas, uma para cada lado, onde nós íamos depositar a comida que o corpo rejeitava! Algumas vezes até servindo para manter a conversa em dia enquanto despejávamos a tripa, uns virados para um lado, outros para o outro em amena cavaqueira. Era tão funcional e moderna que nem precisávamos de autoclismos ou sequer água, esse bem precioso que tanto nos esforçávamos por poupar.

Agora digam lá, com tanta inovação, se era ou não uma cidade modelo!!!

(ps) – Para quem lá esteve percebe bem a sátira. Para quem nunca lá foi, deixe-se ficar pela fantasia… e sonhe…como nós sonhávamos!

Joaquim Alves

HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DA C. CAÇ. 3413 (II)

A noite tinha passado quase sem se dar por ela. A excitação, embora disfarçada, era bem sentida por todos. Estava tudo ansioso e sentíamos uma mistura de sentimentos, que iam da ansiedade, da expectativa, à vontade de partir quanto antes à procura do desconhecido e da aventura, tão pródigas nestas idades… Madrugada dentro e há hora combinada, estava já toda a malta montada nas viaturas, novinhas em folha, tal como nós, as armas, os camuflados, tudo…Tudo “maçaricada”. Ainda era noite cerrada quando é dada a ordem há muito esperada, e um frio interior que certamente não seria só frio, nos invade, mas …Há sempre um mas. O que nos espera? Para onde vamos? O que será a nossa vida daqui para a frente? Será que vamos e voltamos? E é dada a ordem de “PARTIDA”! Bala na câmara e lá arrancamos nós rumo ao desconhecido.

Passados os postos de controlo que circundavam Luanda, entramos, ainda de noite, nas estradas angolanas ainda mais para Norte. E passados dois dias de muita ração, muito calor, muitos kms e quilos de pó, chegamos ao Colonato do Vale do Loge! Embora fôssemos pela “auto-estrada”, os nossos “Mercedes” não passavam dos 53 Kms/hora, e não podia ser a subir. Como é normal e fruto da inexperiência, eu, e julgo que os demais graduados, seguíamos” garbosamente”ao lado do condutor, como “chefes de viatura”… Situação que se alterou logo com o início das hostilidades, e o tomar de consciência da situação…Eu seguia ao lado do condutor, o Giesta! Um Açoreano alegre e sempre pronto para a brincadeira, que já era e continuou a ser o meu condutor”privativo”. Por onde andas rapaz…Se leres estes rabiscos, ou não, entra em contacto connosco…

Assim que chegámos ao Loge, das primeiras coisas que fiz, foi dar um corte enorme no cabelo, vulgo “carecada. Tão grande e tão saborosa que ainda hoje a mantenho…Um bom banho, almoço e umas “bejecas”. Ida ao civil comprar umas coisas de última hora, e com o aviso de ser esta a última oportunidade de compras. Daqui para a frente era só mato. Umas camisolas negras, porque mesmo sujas com tanto pó não se notava tanto, e um lenço tipo cow-boy para comer menos pó. O Vale do Loge era uma povoação praticamente só com uma rua, pelo menos é do que me lembro, e tinha dum lado e doutro umas casas bem engraçadas, tipo colonial, e bem espaçadas entre si. Tinha população nativa e civis brancos, além do pessoal militar. Resumindo, era bom. Um luxo. Aqui ia ficar um pelotão, o 3º, mais o pessoal da secretaria e demais “aramistas”. Outro, o 4º, iria para Quimaria. Os outros dois iam para “Cleópatra”! Vocês já viram bem o nome? “C L E Ó P A T R A”. Como hierarquicamente tínhamos direito a escolher, 1º e 2º pelotão, “cientes” e atrás da magnitude do nome…lá fomos nós. E logo a seguir fomos em coluna até ao “TOTO”, onde nos esperavam alguns companheiros da C. Caç. 1311, com quem estivemos juntos na Cleópatra e na Cecília, até voltarmos a Luanda. Daqui seguimos finalmente para a Cleópatra onde iríamos ficar uns tempos!

E a nossa chegada foi apoteótica! Para a rapaziada que já lá se encontrava, além da 1311 estava também a C. Eng. 2579, foi dia de festa. Era dia de chegar maçaricada, caras novas, novidades, o que pouco tempo depois confirmámos que fosse o que quer que fosse que quebrasse o quotidiano, era sempre motivo de celebração… Para nós era o” início do princípio do fim”…e o 1º contacto com o “Mato” e com o vasto sertão Angolano. E confesso que fiquei agradavelmente surpreendido! A paisagem era de sonho, e a cidade “fantástica”! Só que em vez de Faraós e belas Egípcias, de todo o lado apareciam barbudos e guedelhudos, meio vestidos com um simples calção a tapar as partes ou uma mistura de civil com fardas. Uns de botas, outros de sapatilhas, outros de chinelos…“Uma impecável bandalhice”.

O nosso exército, sempre zeloso por nós e pelo nosso conforto, atribuiu-nos um dos muitos “Palácios” que ali foi montado. Este ficava bem localizado e desfrutávamos duma vista magnífica sobre os arredores. Era composto por uma só divisão mas soberba, até na sua assimetria, e certamente que qualquer “Sultão” não desdenharia…Sabedores do nosso desconhecimento de tudo aquilo que nos rodeava, e prevendo qualquer fobia ou medo de estarmos sós, precavidamente colocaram-nos, todos, os 2 Alferes mais os 6 Furriéis no dito “Palácio”, que militarmente era conhecido por “8P” (tenda cónica para oito pessoas). Como se vê as contas eram pensadas ao milímetro. Nós é que nem um milímetro para qualquer dos lados podíamos pender, sem correr o risco de cair em cima do que estivesse ao lado. Como o terreno não era plano, os que se encontravam lateralmente deitados, passavam a noite a pender para o lado…E as camas! “Puro chão africano”, amaciado com um colchão tipo praia do mais confortável que se possa imaginar! Ortopédico puro e Ideal para endireitar a espinha.

O nosso trabalho consistia em fazer protecção à C. de Eng., e todos os dias lá marchávamos ao som dos motores dos burros do mato, no meio duma nuvem de pó. Mas pó mesmo do bom! No princípio era uma zona de alguma mata e muito capim, mais alto que qualquer de nós. E para nossa protecção e mais fácil detecção do I.N., à medida que íamos avançando, íamos-lhe deitando fogo. E aí estavam as célebres queimadas no seu esplendor! Kms e Kms de capim a arder…só visto!

Calhava á vez um Grupo de combate ficar na frente durante a noite para defender as máquinas. Estas ficavam no alto dum morro e garanto-lhes que não era nada agradável…Duma dessas vezes, com o meu Pelotão, o 1º, foi, por castigo, um rapaz conhecido por Bombeiro da 11. Chegada a noite, que era a parte pior, dividimo-nos em pequenos grupos e cada um colocou-se no melhor sítio para passar a noite e no caso de chatice, defender-se o melhor possível. O capim já tinha ardido, mas á mais pequena brisa, lá se reacendiam pequenos focos, que vistos ao longe pareciam lanternas que alguém acendia para ver o caminho. Víamos turras por todo o lado. E nós á rasca. Ainda para apimentar mais a coisa, logo no sopé dum dos lados do morro começava uma mata fechada atravessada por um riacho. Era desse lado que estava o grupo do Bombeiro. E sempre que lhe calhava estar de sentinela e sozinho, era fogachada que fervia. Lá íamos a rastejar ter com ele que garantia ouvir e até ver movimentos estranhos e daí abrir fogo. Foi um desassossego toda a noite! E a conclusão a que chegamos, já madrugada alta e depois de uma noite de pesadelo, que, do que o nosso homem precisava era de companhia. Bem, até os valentes também têm os seus dias, e é como vulgarmente aparece escrito nas casas de banho: “Aqui todo o cobarde faz força e todo o valente se caga”…

Joaquim Alves

A Jibóia

A Jibóia

Aqui falamos muito de Cleópatra e Cecília. Certamente alguns leitores alheios à C.Caç. 3413, mais curiosos, já pesquisaram em mapas antigos do norte de Angola, para saberem onde ficam esses lugares. Pois é, caros amigos, não vêm no mapa!

Como companhia independente, era “pau para toda a obra” e nos primeiros quatro meses de comissão, dois grupos de combate foram mobilizados para a zona do Toto para fazerem protecção a uma Companhia de Engenharia que abria uma picada, desbravando matas naquela área. À medida que a picada avançava a logística acompanhava esse avanço, e foi assim que nos instalamos em dois morros que transformamos em acampamento, os quais foram baptizados de Cleópatra e Cecília, nomes bem escolhidos, só os nomes eram “lindos” de propósito, para contrastar com o isolamento do local e a dureza das condições de vida. As construções eram de lona, o colchão de ar, o wc latrina, o banho de bidon de água do rio, etc… Eis a foto da Cecília!

ceciliaUm dia, ao regressar da protecção das obras, e percorrendo a poeirenta picada no Unimog, o angolano Nené enxerga uma jibóia no tronco de uma pequena árvore e avisa-me do facto. Faço sinal ao condutor para parar e com a G3 acerto um tiro junto da cabeça do bicho, que cai no chão. Mais dois tiros na cabeça para certificar que está bem morta e lá vai ela para cima do Unimog. À chegada foi um alarido com toda a tropa a admirar o exemplar com cerca de 3 metros, algumas fotos registadas, como por exemplo esta.

A tarefa a seguir foi arranjar alguém que a esfolasse, e eis que no meio da multidão se chega à frente um militar de cor, que era perito no assunto e a primeira coisa que fez foi comer cru o coração da dita. jiboia

Depois de retirada toda a gordura possível da pele foi posta ao sol para secar. Após vários dias de seca, ainda mantém um cheiro algo desagradável, mas lá a meti numa mala para a mandar curtir quando chegasse a Luanda. Ouvi muitas reprimendas dos meus companheiros da “suite”, pois quando abria a mala o “pivete” ainda dava sinal, mas fui amenizando a situação lançando de vez em quando na pele umas borrifadelas de after shave.

Chegado a Luanda, lá me informei de um profissional na arte do curtimento, e como podem ver a obra ficou muito bem-feita, cor natural.

Nos anos 80 estas peles eram muito utilizadas em cintos, malas e sapatos de senhora, e um dia por curiosidade contactei um fabricante destes acessórios, que me ofereceu sete escudos por cm2, o que daria por volta de 40 contos, mas continua ainda comigo, à espera de melhores dias…

(Mário Mendes)

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