Recordações (IV)

Uma vez que a grande maioria do pessoal da C.Caç. 3413 não abre o baú das recordações, que continua fechado a sete chaves, aqui vão algumas fotos da autoria do nosso amigo Correia. Ao visioná-las pode ser que mais alguém arrombe o baú e traga à luz do dia as suas vivências com fotos ou sem elas dos anos de 1971, 72 e 73 que passámos em Angola.

Vista área do aquartelamento da Mamarrosa, a zona alta onde se situavam o comando, a secretaria, a enfermaria e posto médico, as transmissões e a messe dos oficiais.

Mamarrosa, avenida principal, vista da zona mais baixa, vendo-se lá no alto os edifícios mencionados na foto anterior.

O estádio de futebol da Mamarrosa em primeiro plano com bancada e tudo que se vê no lado direito, onde se realizaram grandes encontros de futebol.

Outra vista geral da Mamarrosa do lado oposto ao da foto anterior.

Do lado direito a picada rodeada de palmeiras que dava acesso ao aquartelamento, o edifício maior é a serração de madeiras e atrás desta a sanzala dos trabalhadores do café.

Mário Mendes

O ciclo do café

A Fazenda Mamarrosa, no norte da província do Zaire em Angola, onde estivemos 17 meses era uma grande produtora de café, propriedade de Salvador Beltrão e para recordar o ciclo do café aqui vão umas fotografias de 1972/73 que ilustram a actividade.

O cafeeiro é um arbusto da família rubiaceae, género coffea, existindo diversas espécies, sendo as mais comuns a arábica e a robusta, do qual se colhem sementes, o café, que produz a bebida mundialmente conhecida e apreciada.

A floração começa em Setembro e a colheita faz-se nos meses de Abril a Junho.

Até 1975, Angola foi o 4º produtor mundial de café, depois desse período a produção foi decaindo e hoje é considerada residual. Os maiores produtores são o Brasil, a Colômbia e o México.


Os trabalhadores partindo da Mamarrosa para as plantações com os cestos para colheita do produto. Atrás, um homem armado de Mauser, controlando todo o movimento.


No cafezal, com os cestos cheios para encher as sacas que seriam transportadas numa camioneta para o terreiro de secagem.

O café espalhado no terreiro para secar ao sol. Nesta fase retiram-se as folhas e outras impurezas. É maioritariamente de cor verde, denomina-se “cereja” e à medida que vai amadurecendo toma diversos tons que vão do amarelo ao vermelho.

O café espalhado deve ser mexido várias vezes ao dia para melhor secar e não fermentar com a humidade. Nesta fase de secagem ganha um tom castanho escuro e designa-se por “mabuba”.

Depois de seco é descascado por máquinas mecânicas e volta para o terreiro para secar. Já seco e limpo volta a ser ensacado, tornando-se assim finalmente grão de café.

Mário Mendes

Fotos de: Sacramento Correia

Vista aérea da Mamarrosa

Companheiros da C.Caç. 3413, eis uma foto da vista aérea do aquartelamento da Mamarrosa, província do Zaire, norte de Angola, onde estivemos desde Abril de 1972 a Setembro de 1973.

Também para aqueles que nos antecederam no local e para os que nos renderam, esta foto trará algumas recordações dos tempos que ali passaram e haverá outros a quem estas coisas do passado pouco ou nada lhes interessa.

O nosso amigo e companheiro Toni Araújo tem esta foto encaixilhada, que nos mostrou no encontro de 2011 em Algés, porque certamente os momentos que ali passou, bons e maus, ficaram gravados para todo o sempre, e com a sua autorização, aqui partilho com todos os que por ali passaram algum tempo da sua juventude.

A picada que se vê do lado esquerdo era o ramal da principal que ia para o Luvo (norte) e para São Salvador (sul). A que se vê à direita ia para a exploração da cultura do café, uma das actividades a que se dedicava o proprietário da fazenda, Salvador Beltrão.

A outra actividade era a serração de madeiras que vemos no canto inferior esquerdo, bem como a casa do responsável deste sector, Sr. Carvalho. A outra casa, mais acima era a do gerente da cafeicultura, Sr. Garcia.

As casas onde residiam os trabalhadores do café não estão na foto e estavam a sul da serração.

Mário Mendes

Recordações (III)

Aqui estão mais três fotos do nosso amigo e companheiro Correia, para recordar a nossa estadia no norte de Angola, na Mamarrosa, fazenda de café Nª Senhora da Graça, propriedade de Salvador Beltrão, em 1972.


Formatura para o rancho. Vamos lá companheiros, quem identifica quem? Já lá vão 38 anos!


Prontos para partir, para onde? Talvez para a capital, São Salvador do Congo.


E esta hein?! Na época já se fabricavam casas ambulantes. Torce mas não parte. A que se deveu esta mudança que efectuam os trabalhadores do café?

RECORDAR É VIVER.

Mário Mendes

Capinar, é preciso!

O norte de Angola é um mosaico de savanas e florestas, sendo que o capim cresce espontâneamente nas áreas abertas, atingindo uma altura maior que um homem, transformando assim o terreno num bom esconderijo onde o inimigo se podia deslocar, aproximando-se das picadas  e dos aquartelamentos sem ser visto, situação que não era nada favorável às nossas tropas.

No aquartelamento da Mamarrosa, o capim só terminava no arame farpado e quando teimava em invadir as instalações da fazenda do café, o patrão não descurava a capinagem do terreno como podemos ver nesta foto.

Assim, com o terreno limpo, qualquer intruso (homem ou animal) que tentasse “pisar” o risco de segurança era corrido a tiro. A segurança dos trabalhadores da fazenda era feita pelos próprios, mas com certeza que haveria um acordo tácito com os guerrilheiros, pois nunca se deu conta de eles serem atacados, nem no seu aglomerado populacional, nem nos campos de cultivo do café.

Como já aqui referiu o ex-furriel Carlos Santos, da C.Caç. 2676, que nós rendemos, até iam à caça com o capataz, mas na condição de irem vestidos à civil.

Mário Mendes

Carmona (Uíge)

A província do Uíge situada no extremo norte de Angola tinha  como capital na época colonial a cidade de Carmona. Esta designação aconteceu em 1955, como homenagem ao presidente da república portuguesa Óscar Carmona, falecido em 1951, e manteve este nome até à independência de Angola, em 1975, voltando nessa altura ao seu nome inicial, Uíge.

Carmona, também esteve na rota da C.Caç. 3413, porque lá pernoitamos no dia 31 de Agosto de 1971 (BC 12 – foto abaixo, colhida na net), quando de Luanda rumamos ao nosso primeiro destino (Colonato do Vale do Loge, Quimaria, Toto e BTCleópatra), locais que foram a nossa “casa” nos primeiros meses de comissão.

A estrada de Luanda para Carmona, era também designada por “estrada do café” porque a grande produção da província era o café, havendo grandes fazendas em diversos locais, que o traziam para o mercado de Carmona onde era vendido e depois transportado para Luanda para exportação.

Por ser zona onde havia muitos fazendeiros brancos e trabalhadores bailundos ao seu serviço, foi um dos locais escolhidos pela UPA para começar os massacres em Março de 1961, Quitexe, Cólua, etc.

Nos anos 70, devido à grande riqueza que o café proporcionou, Carmona era uma cidade próspera, com muitas infraestruturas que outras cidades não tinham. Tinha um aeroporto, aero clube, piscina, colégio, escola técnica, uma delegação do Banco de Angola, o Rádio Clube do Uíge, o Grande Hotel do Uíge, Clube Recreativo do Uíge, Hospital e todos os serviços públicos.

A foto que se segue (net) mostra uma vista aérea da cidade nos anos 70.

e esta outra, o mercado do café, razão da sua prosperidade.

Para aqueles que ali viveram, aqui está um vídeo que mostra o quotidiano da cidade na década de 70.

Mário Mendes

Os putos da Mamarrosa

Era habitual alguns putos,  filhos dos trabalhadores da fazenda de café fazerem uma visita à messe de sargentos, em busca de sobras das refeições, conforme se vê nesta foto onde estou juntamente com o cozinheiro.

Nesta esplanada passámos noites sem fim a contemplar as estrelas, bebendo cervejas em amenas cavaqueiras, esperando que o calendário avançasse para o tão desejado dia do regresso. Atente-se nas poltronas da esplanada principalmente no modelo “barril”.

Se a vida dos militares aqui era difícil e sempre com o perigo à espreita, não era melhor a dos trabalhadores bailundos que trabalhavam no cultivo do café, contratados ou melhor dizendo arrancados à força dos seus locais de origem, o planalto central angolano, região do Bailundo e por isso a designação de bailundos  ou “monangambas” como lhes chamavam os outros angolanos nativos.

Efectivamente, estes trabalhadores eram forçados a deixar as suas terras, recrutados pelos administradores de posto de que dependiam os seus quimbos de residência para trabalharem durante um ano nas fazendas de café,  onde recebiam um mísero salário (20 escudos angolanos diários).

Geralmente, metade do salário era paga ao trabalhador, a outra metade retida para lhe ser entregue quando terminava o contrato. Segundo o contrato o trabalhador tinha direito a alguns bens, aguardente e cerveja aos sábados, mas todos os outros bens que o trabalhador necessitava, alimentação, cigarros, fósforos, sabão, lâminas de barbear, pilhas para o rádio, etc, eram comprados na cantina e assim o dinheiro recebido na fazenda entrava logo a seguir nos bolsos do patrão através da cantina.

Quando alguns trabalhadores mais gastadores excediam o orçamento e não podiam pagar as dívidas eram obrigados a ficar mais tempo além do contrato para saldar as mesmas. Aqueles que tinham mulheres, acrescentavam mais alguns “angolares” ao orçamento, uma vez que elas exerciam a profissão de lavadeiras e por certo os militares eram muito menos exploradores que os fazendeiros.

Estes trabalhadores do café, com o seu esforço contribuíram para uma riqueza enorme que Angola possuía nas décadas de 50, 60 e 70. A produção actual de café em Angola é muita diminuta e vai sendo incrementada a pouco e pouco. Notícias de Angola, referem que só daqui a 5 anos,  a produção total seja de apenas 1/4 da que foi no auge da época colonial.

Os responsáveis angolanos com certeza que terão consciência que o café é um enorme recurso que o seu país pode explorar, tão importante quanto o petróleo ou os diamantes.

Mário Mendes

A bruxa da Mamarrosa

A população civil em 1972/73 da fazenda de café da Mamarrosa, situada a cerca de 60 Km a norte da cidade de S. Salvador do Congo (agora designada por M´Banza Congo), onde esteve a C.Caç. 3413 era composta por cerca de 60 pessoas. Os trabalhadores  das plantações de café, viviam na única rua do aglomerado composta por casas fabricadas em tijolo e pintadas de branco, conforme se vê nesta foto.

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Ali havia também uma loja onde os trabalhadores se abasteciam de alimentos, principalmente peixe seco, base da sua alimentação, e outros bens de consumo. Quando caçavam algum animal, a carne era também posta a secar nos mesmos arames onde secavam a roupa.

À entrada da rua, numa casa isolada, feita de madeira, vivia uma mulher enigmática, e que era designada por “bruxa”. Na realidade, nunca a ouvimos falar, vivia completamente isolada de tudo e de todos. Não sei qual  seria  a sua função, seria feiticeira talvez, e por isso quando nos cruzávamos com ela, pelo sim pelo não, o melhor era fazer “figas”.

bruxa

Mário Mendes