Pescaria no rio Luvo

Do nosso companheiro Ramiro Carreiro, açoreano de São Miguel, que vive em Toronto, no Canadá, recebi estas duas fotos que ilustram uma pescaria levada a cabo no rio Luvo.
Alguns entusiastas da pesca entretinham-se com canas, umas artesanais outras mais sofisticadas, mas havia ainda outros que não tinham a paciência suficiente que a arte de pescar requer e utilizavam outras artimanhas e apetrechos com que conseguiam belas pescarias.
Aqui o “aparelho” utilizado foi uma granada ofensiva. Uns miolos de pão a servir de engodo e quando o cardume já fosse coisa que se visse, aí vai disto.
A primeira foto documenta o rebentamento e na segunda vemos o resultado do acto e a panela que serviria para confeccionar o manjar.

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NR: Em relação ao último artigo no nosso companheiro Joaquim Alves em que se refere um acidente com arma de fogo (tiro no ombro), diz o Ramiro que o protagonista não foi o Geraldo, mas sim o Augusto Coroa. O Geraldo, teve algum tempo depois um grave acidente, em que bebeu formol e ficou com o cognome de “embalsamado”. Era demais, digo eu, atribuir-lhe outra “avaria”, melhor é dividir o mal pelas aldeias. Ainda bem que existe contraditório, já passaram uns “anitos”, a memória vai ficando gasta.
Diz o Ramiro Carreiro que o Coroa era seu vizinho nos Açores e actualmente vive também no Canadá e que o José Pavão do quarto grupo de combate é seu vizinho em Toronto. No último verão em que se deslocou aos Açores, esteve com o Pimentel, outro elemento do quarto GC.

Mário Mendes

Recordações da guerra colonial

 COISAS DO SÉCULO PASSADO EM TEMPO DE GUERRA

Em mais uma visita ao meu “baú da guerra colonial”, considerei interessante
dar a conhecer mais algumas das minhas relíquias. A primeira foto é a imagem
referente ao estado de construção da ponte de Lisboa sobre o Rio Tejo, a 21
de agosto de 1965, data da nossa partida para Angola. A seguinte retrata o
transporte da refeição na Magina, reservado aos soldados, depois de
recebida no “Self Service” junto das panelas de um local chamado de
cozinha, assim foi durante cerca de dezassete meses. A seguinte,
pode contribuir para garantir o contraditório, palavra muito em voga nos
debates que agora por aí se travam. Esta ideia foi ganhando corpo na medida
em que se iam divulgando algumas das condições existentes no transporte das
tropas no Paquete Vera Cruz, algumas dessas condições eram uma autêntica
miragem para as praças que também aí eram levadas para o território
desconhecido, muito diferente daqueles que tinham direito, nomeadamente, a
uma ementa impressa em papel couchet, eu ainda tive a sorte de ser
instalado numa tarimba, com mais cerca de cinquenta camaradas, na sala das
senhoras, outros, muitas centenas foram transportados nos porões.  Contudo,
não foram certas “mordomias” para algumas  classes que impediram que essas
mesmas classes se envolvessem, de forma determinante, desde a primeira
hora, nessa jornada maravilhosa que foi o 25 de Abril de 1974. A última é fotocópia
de um recibo referente ao salário de um soldado, que no caso sou eu,
já com a subvenção, quando em campanha na guerra colonial (menos de quatro
euros da moeda agora em vigor) .

Texto e fotos de: Horácio Marcelino (C.Art. 1405 do B.Art. 1852)

HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DA C. CAÇ. 3413 (VII)

Num cenário de guerra, onde armas são presença constante e se lida diariamente com elas, por mais cuidado que se tenha, a hipótese de um acidente está sempre presente a todo o momento. Para contrariar isso, ao princípio e como medida de precaução, sempre que vínhamos da frente os graduados de cada grupo, antes do pessoal descer das viaturas, encarregavam-se de toda a minha gente tirar a bala da câmara. Com o passar do tempo, os nossos soldados acharam que esta rotina se tornara desnecessária, e este ritual até desprestigiante para alguns, perante as outras companhias. E deixou de se fazer. Mandavam as regras de segurança os seguintes movimentos:

1- Tirar o carregador – 2- manobrador atrás com extracção da bala que estava na câmara – 3 -pancada no manobrador para levar a culatra á frente já sem bala – 4 – arma apontada para cima – 5- pressão no gatilho para levar o percutor a bater em seco visto a bala já ter sido extraída.

Ora a sequência correcta seria: 1 – 2 – 3 – 4 – 5

Mas havia de vez em quando alguém que trocava os movimentos e em vez da sequência correcta, fazia 2 – 3 – 1 – 4 – 5

E de quando em vez lá se ouvia o estrondo dum disparo e o consequente silvar da bala em movimento. Até que um dia, tinha que se dar, um soldado de seu nome Geraldo (?) fez o segundo movimento, só que em vez de levantar a arma para cima, apoiou-a no chão e encostou o cano ao ombro. O resultado, foi uma evacuação aérea e uns dias de férias forçadas no hospital de Luanda. Coisas…

    Já passado uns tempos de estarmos na Cecília, fomos reforçados com o 3º Grupo e alguns especialistas que estavam no Toto, reagrupando-se em certa medida a Companhia na sua quase totalidade, uma vez que o 4º Grupo continuava em Quimaria, para onde o 3º passado pouco tempo acabou por ir. Por sua vez, o 1º Sarg. Ramalho continuava a “tratar de assuntos de interesse da Companhia, em Luanda”…Pois! Nesta onda veio também o Fur. enfermeiro José do Sacramento Correia. Foi-lhe montada uma tenda novinha, a “Enfermaria”. Por fora era verde, mas por dentro era duma brancura imaculada. Toda vaporosa, com muito tecido esvoaçante, tipo tule, em nada se assemelhando às demais. Toda branquinha. Um enlevo. Claro que tudo isto era o perfeito contraste com as nossas, que já não eram verdes mas sim castanho-escuro de tanto pó que já acumulado, quanto mais branquinhas.

    Mas não era só com armas que se davam acidentes. Aos domingos ninguém saía para a frente em trabalhos na picada, fazendo-se só os serviços mínimos e de manutenção, com excepção dum Grupo que tinha que ficar na frente a guardar as máquinas. O resto da rapaziada aproveitava como muito bem lhe aprouvesse. Jogos de futebol e “brutovólei” eram bastante disputados e muito renhidos. Com a temperatura que estava mais o esforço despendido, originava uma sede tremenda. Certo dia, um dos jogadores, açoriano e da nossa Companhia, no fim do jogo subia a rampa de acesso á sua tenda, e o que vê ele. Á porta da enfermaria um garrafãozinho de água mesmo ali á mão. E zás. Empinou-o á boca, e…uma aflição que ninguém entendia a razão. Mas o Correia deu logo por ela. É que o garrafão não tinha água, mas sim “FORMOL”…e o nosso homem lá teve que ser evacuado, visto no nosso “hospital” pouco mais se poder fazer que uns pensos, dar uns comprimidos “LM” e dar umas injecções. E sobre as injecções posso garantir-vos que ninguém tinha a mestria do Correia. Começava com “ameaças” e por entre umas gargalhadas de terror batia na nádega tanto e com tanta força, que sem nos apercebermos a agulha já lá estava. Resultado, o que doía eram as nalgadas, até porque ele era exímio a dar injecções.

    Ainda sobre a tenda enfermaria, não sei como, mas o nosso Zé Correia, arranjou um Camaleão que se pavoneava por entre as cordas e espias da tenda, tornando-se numa das grandes atracções da Cecília. Toda a minha gente ia apreciar um bicho nunca antes visto, eu incluído. Quem não lhe achava grande graça, era o enfermeiro Machado da 1311.Dizia ele que se estivéssemos a comer perto do bicho, ele lá de cima cuspia no prato e era morte certa. Acreditando ou não o bicharoco lá se foi passeando pela tenda, limpando-a de todo o tipo de insectos que ele devorava para alívio e alegria do Correia.

 


Fotos e texto de: Joaquim Alves

Na primeira foto com elementos da C.Eng. 3478, na esplanada do “Resort do Luaia”, na segunda em plena mata virgem do planalto do Luaia, que os “engenheiros” iam desflorando e na terceira pode-se ver a frente de trabalho junto ao morro do Tomba.

Ainda não é o fim da picada!

Viaturas pesadas e ligeiras enfrentam grandes dificuldades para circular na estrada

Fotografia: Arimateia Baptista|Lubango

A estrada que liga a vila piscatória do Nzeto à comuna da Musserra, um percurso de 50 quilómetros, em terra batida, na província do Zaire, está a degradar-se dia após dia, em consequência das chuvas torrenciais que caem sobre a região. A via tem enormes buracos que estão a dificultar a vida dos automobilistas que transportam pessoas e mercadorias.
Os automobilistas reclamam uma intervenção urgente para normalizar o trânsito. Nos últimos dias os motoristas encontram tantas dificuldades que acabam por pernoitar na estrada, porque as viaturas ficam atoladas nos lamaçais ou caem nos buracos.
Preocupado com a situação, o governador provincial do Zaire, Joanes André, visitou a via para se inteirar das dificuldades e definir, com a empreiteira encarregada das obras de, a forma de inverter o quadro.No encontro com os responsáveis da construtora, o governador pediu celeridade nos trabalhos de manutenção para facilitar a circulação de pessoas e bens.
O governador do Zaire referiu ser necessário efectuar obras de manutenção na estrada entre o Nzeto e o Soyo, onde decorre a construção de pontes e valas de drenagem das águas pluviais.  Face às dificuldades, Joanes André garantiu às populações que estão a ser desenvolvidos esforço para se ultrapassar o impasse.
O responsável da construtora explicou ao Jornal de Angola que os trabalhos de construção na estrada decorrem dentro do possível. Mas as chuvas constantes que caem na região impedem mais avanços. Na estrada entre o Caxito e o Nzeto, a construtora já asfaltou 60 quilómetros, a partir da comuna da Musserra em direcção a Luanda.

Jornal de Angola (28/01/2013)

NR: Já vimos este filme há 40 anos. Tenho bem presente uma noite em que ficamos retidos na picada entre S. Salvador do Congo e a Mamarrosa, porque a camioneta civil da firma Salvador Beltrão que escoltávamos não conseguiu superar uma íngreme  subida devido ao lamaçal em que se tornou a picada. Só de madrugada conseguimos levantar “ferro”.

Mário Mendes

Mina assassina

Faz hoje 40 anos que uma mina anti-carro ceifou a vida ao condutor do Unimog António de Amaral Machado que podemos reviver nesta foto, na fila da frente, o terceiro a contar da esquerda. O nosso companheiro foi sepultado no cemitério da freguesia de Santo António, concelho de Ponta Delgada, ilha de São Miguel, Açores. 

machado

Há tempos atrás dirigi um e-mail ao presidente da junta de freguesia solicitando-lhe se possível uma foto digital da campa deste companheiro da C.Caç. 3413, para aqui lhe prestarmos a homenagem que lhe é devida, mas não obtive qualquer resposta.

Penso que continua de pé a possibilidade de alguns de nós ainda este ano se deslocarem aos Açores e se assim for tudo faremos para “in loco” o homenagearmos colocando  um ramo de flores na sua sepultura.

Este blog já publicou outro artigo sobre este episódio que pode ser lido clicando AQUI.

Mário Mendes

Divertimento em tempo de guerra

AOS “MADUROS” DO B.CAÇ. 1900

Em mais uma visita ao meu “baú de recordações” descobri esta “relíquia” com quase quarenta seis anos.
O acontecimento teve lugar no início de fevereiro de 1967, a que assistiram membros das quatro subunidades foi organizado pela companhia 1407 que estava colocada no Luvo. Do elenco artístico faziam parte “artistas” de gabarito que integravam a CCS e as restantes subunidades do B.Art.1852.
Hoje, sabe-me bem recordar esses momentos.

Um abraço para todos.

H.T. Marcelino

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C.Caç. 3413 – Memórias

O nosso companheiro Ramiro Carreiro, que vive em Toronto, no Canadá, descobriu há pouco tempo este nosso blog onde revivemos o nosso passado militar na guerra em Angola e enviou-me esta foto do seu espólio. Eu só consegui identificar o Romão, o da direita em cima da viatura. Segundo o Ramiro, o da esquerda na viatura é o Ambrósio, mecânico, e os que estão de pé, todos condutores auto, são da esquerda para a direita, o Luís Fernando Sousa, o Alfredo Manuel Pereira, o António Machado (vítima mortal de mina anti-carro) e quanto ao último a identificação não nos ocorre e por isso solicitamos àqueles que ainda tenham a memória em bom estado que nos ajudem a completar esta tarefa.

Mário Mendes

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Toto (1966/68)

Em Janeiro de 1972, já com 5 meses de comissão, tínhamos alguma experiência das lides da guerra que travávamos no norte de Angola, a base táctica de Cleópatra, onde verdadeiramente nos estreamos já tinha ficado para trás, a base táctica da Cecília já era um pouco melhor, mas as condições em ambas eram tão deprimentes que a nossa próxima etapa só poderia ser melhor que estas e a aproximação dos 6 meses inicialmente programados para esta estadia deixava-nos um pouco mais animados. 

O lugar mais próximo com população civil era o Toto e era aí que de vez em quando nos deslocávamos em busca de aprovisionamentos e outros bens e serviços que faziam daqueles dias um “oásis” no meio do deserto em que estávamos metidos. O pó que na época do cacimbo tínhamos que suportar (o lenço verde a tapar a boca e as narinas que era a nossa imagem de marca, minorava o sufoco), ainda assim valia bem a pena. Pois bem, há dias um nosso leitor, Vítor Saraiva, indicou-nos o link de um blog que contém diversas fotos do Toto, dos anos de 1966 a 1968 e como aquele lugar fez também parte do nosso “curriculum” da guerra, achei por bem divulgá-lo para reavivar a nossa memória.

Clique AQUI.

Mário Mendes

Cronologia da guerra colonial (Dezembro/1961)

? – Embarcaram para Angola, em 1961, seis Companhias de Caçadores Especiais cujos comandantes receberam instrução no CIOE – Centro de Instrução de Operações Especiais. Os instrutores do CIOE eram oficiais e sargentos com formação obtida além-fronteiras e conhecedores das envolventes da luta anti-guerilha, com passagem prolongada por centros de instrução e treinos conjuntos com forças estrangeiras nomeadamente nos Estados Unidos, em França e na Argélia.

- Acordo entre Mário de Andrade, líder do MPLA, e Humberto Delgado, para a formação de uma Frente Unida contra o regime português.

- O Bispo de Luanda, D. Moisés, afirma em Carta Pastoral apoiar “as aspirações justas e legítimas dos negros” e bate-se pela libertação do padre Joaquim Pinto de Andrade, preso pela PIDE.

2 - Expulsão de Portugal de quatro missionários norte-americanos, acusados de apoio aos movimentos angolanos.

4 – Um grupo de militantes comunistas – Francisco Miguel, José Magro, Costa Carvalho, António Gervásio, Domingos Abrantes, Ilídio Esteves e Rolando Verdial – evadem-se da prisão de Caxias, utilizando o automóvel blindado que estivera ao serviço de Oliveira Salazar.

9 – A Índia concentra tropas junto à fronteira de Goa.

12 – Evacuação de mulheres e crianças de Goa.

14 – Determinação de Salazar sobre a Índia: «Apenas pode haver soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos». Salazar ordena a sua defesa a qualquer preço.

- Portugal dispunha neste local de um total de cerca de 3.500 homens, mal armados, contra uma força que, no mínimo, integrava 45.000 soldados indianos, com apoio aéreo e marítimo.

- Início da operação “Marlene” em Angola, executada por duas Companhias de Caçadores, tendo o IN atacado Quissalávoa e reagido defensivamente ao longo do itinerário Aldeia Viçosa-Cólua-Quissalávoa-Quipedro, especialmente nas regiões de Zeia Tema, Quicas e Quissalávoa.

16 – Intimação do Governo da União Indiana para a evacuação dos territórios de Goa, Damão e Diu.

- Veto da União Soviética a um projecto de resolução do Conselho de Segurança da ONU, a condenar a União Indiana pela ameaça militar contra Goa, apresentado pelos Estados Unidos, França a Turquia.

17 – Início da operação militar que leva à ocupação de Goa, Damão e Diu por parte da União Indiana.

19 – Apresentação da rendição das tropas portuguesas ao comando indiano, contrariando as ordens de Salazar. Nos combates morreram 25 militares portugueses. Os restantes foram feitos prisioneiros. Salazar deixou-os ficar prisioneiros largos meses. Quando regressaram, demitiu os oficiais do quadro a partir da patente de capitão.

- Instituição pela Assembleia-Geral da ONU de um Comité Especial para os Territórios Administrados por Portugal (Comité dos Sete), a convidar os estados membros a recusar qualquer ajuda ou assistência utilizável contra as populações dos territórios coloniais.

- Uma brigada de agentes da PIDE assassina numa rua de Alcântara, o escultor José Dias Coelho, militante e funcionário clandestino do PCP.

25 – Dois militares da CArt 118 morrem em combate.

28 – Mais 2 militares da CArt 118 morrem em combate.

30 – Discussão de Salazar com alguns ministros sobre a hipótese de abandono da ONU por Portugal.

- Humberto Delgado entra clandestinamente em Portugal, passa por Lisboa e dirige-se a Beja, para comandar a revolta que deverá eclodir a partir do Regimento de Infantaria 3.

31 – Durante este mês as baixas das forças portuguesas totalizaram 15 mortos. Em acções de combate morreram 7 militares.

- No final do ano Portugal tem 33.477 efectivos militares em Angola, 4.736 na Guiné e 11.209 em Moçambique, tendo as tropas portuguesas sofrido oficialmente um total de 240 mortos em Angola sendo 151 em combate.

A percentagem das despesas com as Forças Armadas representou 38,6 por cento das despesas públicas.

Do livro: “Cronologia da Guerra Colonial“, de José Brandão