Divertimento em tempo de guerra

AOS “MADUROS” DO B.CAÇ. 1900

Em mais uma visita ao meu “baú de recordações” descobri esta “relíquia” com quase quarenta seis anos.
O acontecimento teve lugar no início de fevereiro de 1967, a que assistiram membros das quatro subunidades foi organizado pela companhia 1407 que estava colocada no Luvo. Do elenco artístico faziam parte “artistas” de gabarito que integravam a CCS e as restantes subunidades do B.Art.1852.
Hoje, sabe-me bem recordar esses momentos.

Um abraço para todos.

H.T. Marcelino

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C.Caç. 3413 – Memórias

O nosso companheiro Ramiro Carreiro, que vive em Toronto, no Canadá, descobriu há pouco tempo este nosso blog onde revivemos o nosso passado militar na guerra em Angola e enviou-me esta foto do seu espólio. Eu só consegui identificar o Romão, o da direita em cima da viatura. Segundo o Ramiro, o da esquerda na viatura é o Ambrósio, mecânico, e os que estão de pé, todos condutores auto, são da esquerda para a direita, o Luís Fernando Sousa, o Alfredo Manuel Pereira, o António Machado (vítima mortal de mina anti-carro) e quanto ao último a identificação não nos ocorre e por isso solicitamos àqueles que ainda tenham a memória em bom estado que nos ajudem a completar esta tarefa.

Mário Mendes

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Toto (1966/68)

Em Janeiro de 1972, já com 5 meses de comissão, tínhamos alguma experiência das lides da guerra que travávamos no norte de Angola, a base táctica de Cleópatra, onde verdadeiramente nos estreamos já tinha ficado para trás, a base táctica da Cecília já era um pouco melhor, mas as condições em ambas eram tão deprimentes que a nossa próxima etapa só poderia ser melhor que estas e a aproximação dos 6 meses inicialmente programados para esta estadia deixava-nos um pouco mais animados. 

O lugar mais próximo com população civil era o Toto e era aí que de vez em quando nos deslocávamos em busca de aprovisionamentos e outros bens e serviços que faziam daqueles dias um “oásis” no meio do deserto em que estávamos metidos. O pó que na época do cacimbo tínhamos que suportar (o lenço verde a tapar a boca e as narinas que era a nossa imagem de marca, minorava o sufoco), ainda assim valia bem a pena. Pois bem, há dias um nosso leitor, Vítor Saraiva, indicou-nos o link de um blog que contém diversas fotos do Toto, dos anos de 1966 a 1968 e como aquele lugar fez também parte do nosso “curriculum” da guerra, achei por bem divulgá-lo para reavivar a nossa memória.

Clique AQUI.

Mário Mendes

Cronologia da guerra colonial (Dezembro/1961)

? – Embarcaram para Angola, em 1961, seis Companhias de Caçadores Especiais cujos comandantes receberam instrução no CIOE – Centro de Instrução de Operações Especiais. Os instrutores do CIOE eram oficiais e sargentos com formação obtida além-fronteiras e conhecedores das envolventes da luta anti-guerilha, com passagem prolongada por centros de instrução e treinos conjuntos com forças estrangeiras nomeadamente nos Estados Unidos, em França e na Argélia.

- Acordo entre Mário de Andrade, líder do MPLA, e Humberto Delgado, para a formação de uma Frente Unida contra o regime português.

- O Bispo de Luanda, D. Moisés, afirma em Carta Pastoral apoiar “as aspirações justas e legítimas dos negros” e bate-se pela libertação do padre Joaquim Pinto de Andrade, preso pela PIDE.

2 - Expulsão de Portugal de quatro missionários norte-americanos, acusados de apoio aos movimentos angolanos.

4 – Um grupo de militantes comunistas – Francisco Miguel, José Magro, Costa Carvalho, António Gervásio, Domingos Abrantes, Ilídio Esteves e Rolando Verdial – evadem-se da prisão de Caxias, utilizando o automóvel blindado que estivera ao serviço de Oliveira Salazar.

9 – A Índia concentra tropas junto à fronteira de Goa.

12 – Evacuação de mulheres e crianças de Goa.

14 – Determinação de Salazar sobre a Índia: «Apenas pode haver soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos». Salazar ordena a sua defesa a qualquer preço.

- Portugal dispunha neste local de um total de cerca de 3.500 homens, mal armados, contra uma força que, no mínimo, integrava 45.000 soldados indianos, com apoio aéreo e marítimo.

- Início da operação “Marlene” em Angola, executada por duas Companhias de Caçadores, tendo o IN atacado Quissalávoa e reagido defensivamente ao longo do itinerário Aldeia Viçosa-Cólua-Quissalávoa-Quipedro, especialmente nas regiões de Zeia Tema, Quicas e Quissalávoa.

16 – Intimação do Governo da União Indiana para a evacuação dos territórios de Goa, Damão e Diu.

- Veto da União Soviética a um projecto de resolução do Conselho de Segurança da ONU, a condenar a União Indiana pela ameaça militar contra Goa, apresentado pelos Estados Unidos, França a Turquia.

17 – Início da operação militar que leva à ocupação de Goa, Damão e Diu por parte da União Indiana.

19 – Apresentação da rendição das tropas portuguesas ao comando indiano, contrariando as ordens de Salazar. Nos combates morreram 25 militares portugueses. Os restantes foram feitos prisioneiros. Salazar deixou-os ficar prisioneiros largos meses. Quando regressaram, demitiu os oficiais do quadro a partir da patente de capitão.

- Instituição pela Assembleia-Geral da ONU de um Comité Especial para os Territórios Administrados por Portugal (Comité dos Sete), a convidar os estados membros a recusar qualquer ajuda ou assistência utilizável contra as populações dos territórios coloniais.

- Uma brigada de agentes da PIDE assassina numa rua de Alcântara, o escultor José Dias Coelho, militante e funcionário clandestino do PCP.

25 – Dois militares da CArt 118 morrem em combate.

28 – Mais 2 militares da CArt 118 morrem em combate.

30 – Discussão de Salazar com alguns ministros sobre a hipótese de abandono da ONU por Portugal.

- Humberto Delgado entra clandestinamente em Portugal, passa por Lisboa e dirige-se a Beja, para comandar a revolta que deverá eclodir a partir do Regimento de Infantaria 3.

31 – Durante este mês as baixas das forças portuguesas totalizaram 15 mortos. Em acções de combate morreram 7 militares.

- No final do ano Portugal tem 33.477 efectivos militares em Angola, 4.736 na Guiné e 11.209 em Moçambique, tendo as tropas portuguesas sofrido oficialmente um total de 240 mortos em Angola sendo 151 em combate.

A percentagem das despesas com as Forças Armadas representou 38,6 por cento das despesas públicas.

Do livro: “Cronologia da Guerra Colonial“, de José Brandão

22/12/1971 – A primeira baixa

Neste dia, quando nos preparávamos para o 1º Natal passado em clima de guerra na base táctica de Cecília, província do Uíge, norte de Angola, sofremos a primeira baixa, o soldado Emanuel Firmino Nunes Aguiar, um madeirense residente em Angola que fazia parte do contingente africano da nossa companhia, incorporado pelo RI 22 de Sá da Bandeira e que foi vítima de acidente com arma.

Durante muito tempo, aquele cenário em que tantas vezes participámos e que era rotina diária de recolher a água necessária para os diversos fins da base, num ribeiro ali próximo, ficou bem presente na minha memória.

Enquanto os operacionais procediam à recolha da água através de motobomba para os depósitos, a guarnição de segurança tomava as posições mais adequadas para proteger a operação e eis que a certa altura se ouve um tiro que ecoa forte na densa mata. Arma em riste, olhar atento e o que vejo é um dos nossos tombar. Um único tiro, inimigo nem vê-lo, que raio de guerra é esta que faz vítimas sem confronto, foi esta a sensação do momento.

Infelizmente, foram muitos os que tombaram na guerra em África, certamente a maioria, vítimas das armas inimigas, mas houve também muitos mortos e acidentados por acidentes vários, em que nos é difícil perceber as ocorrências.

Neste caso, 41 anos passados, e porque fui relator do processo, a minha mente ainda guarda aquele instante, o Natal de 1971 ficou manchado com aquele episódio. Fiquei com a sensação que o disparo da arma do companheiro Abílio foi puramente acidental e como já não era possível devolver a vida ao malogrado Emanuel, o autor material do disparo depois de cumprir algum tempo em prisão no Toto, enquanto decorreu o processo foi integrado no seio da companhia mas as sequelas deste facto ficaram-lhe marcadas para o resto da comissão, porque afinal os dois eram amigos. O nosso companheiro foi sepultado em Folgares, uma vila da província da Huíla em Angola, que aqui se mostra.

Nesta quadra natalícia recordo também a outra vítima mortal da nossa companhia, o soldado condutor António de Amaral Machado, que está sepultado na sua terra natal, a freguesia de Santo António, Ponta Delgada, Açores.

Dos companheiros que já nos deixaram de que tenha conhecimento, o sargento Ramalho e os açorianos Valadão, Joel Carreiro e Dinis. Há um tempo atrás, “apareceu” neste blog o Ramiro Carreiro, dos Açores que reside no Canadá em Toronto e deu também conhecimento da morte do Silvino Resende há cerca de meia dúzia de anos.

Se alguém tiver alguma foto do companheiro Emanuel Aguiar, falecido no dia 22-12-1971, com 21 anos e a quiser partilhar connosco, agradecemos.

Aos familiares dos companheiros que neste Natal só estarão presentes na nossa memória, desejamos BOAS FESTAS.

Mário Mendes

Luvo, última fronteira


Quem em 1973, do lado da República do Zaire, agora denominada República Democrática do Congo entrasse em Angola através da ponte sobre o rio Luvo que dividia os dois países, deparava-se com esta barreira onde o escudo com as 5 quinas de Portugal significava para os forasteiros que estavam em território nacional e por isso era necessário proceder às burocracias alfandegárias e de segurança e para os trâmites apropriados, a Guarda Fiscal e a DGS (Direcção Geral de Segurança) que até 1969 se chamou PIDE (Policia Internacional de Defesa do Estado) estavam presentes no Luvo.

Ali, Portugal já fez fronteira com a Bélgica entre 1908 e 1960, período de tempo em que administrou este território africano e depois com a República do Congo, nome adoptado quando da independência em 30 de Junho de 1960, nome a que em 1964 se acrescentou o adjectivo “Democrática”. Em 1971, sob o comando de Mobutu Sese Seko o país passou a designar-se por República do Zaire e à capital foi mudado o nome de Leopoldville para Kinshasa. Nos últimos dois anos têm sido muitos milhares os angolanos refugiados na RDCongo que passaram neste local expulsos daquele país.

A C.Caç. 3413 que em 1972 e 1973 esteve nestas paragens, que na época era um local isolado do mundo, onde não havia nem entradas nem saídas nesta fronteira, temos hoje consciência da importância que este local já teve e tem na actualidade.

Hoje, já não temos que defender fronteiras a milhares de quilómetros de distância, estamos confinados a um pequeno território, como nos tempos da fundação da nacionalidade, mas esta “pequenez” não nos inibiu de sermos respeitados e admirados no mundo.

Agora, estamos outra vez na boca do mundo, mas por razões que não nos orgulham, estamos de mão estendida à caridade, não somos capazes de tomar conta do nosso futuro, os capitais estrangeiros “invadem” a nossa economia, vendemos os anéis que ainda nos restam e ironia do destino, estamos a tornar-nos “colónia” de um país africano que já foi “nosso”. Voltou-se o feitiço contra o feiticeiro!

Mário Mendes

250 mil visitas

Um quarto de milhão de visitas a este blog foi atingido ontem. Lançado em Abril de 2009 tem vindo paulatinamente a merecer a atenção de muitos ex-combatentes e também de gente mais jovem principalmente de angolanos que não viveram a guerra colonial mas querem conhecer a história do seu país.

Aos companheiros da C.Caç. 3413, lanço mais uma vez o desafio de aqui colocarem os seus comentários, artigos, opiniões, lembranças do tempo da guerra que vivemos. Felizmente, temos tido também a colaboração de outras unidades e com muita satisfação constatamos que este sítio tem também proporcionado encontros de companheiros que querem recordar o tempo da juventude que em consequência da guerra nos levou para África.

BEM HAJAM, todos os que fazem deste sítio um local de encontro e de convívio.

Mário Mendes

Sá Carneiro morreu há 32 anos

A 4 de Dezembro de 1980, o então primeiro-ministro de Portugal, Francisco Sá Carneiro, o ministro da defesa Adelino Amaro da Costa e respectivas comitivas, ao todo 7 pessoas morreram na queda do pequeno avião em Camarate em que se deslocavam para o Porto. Acidente ou atentado, esta pergunta ainda paira no ar, já houve diversas comissões de inquérito, mas nada foi desvendado.

Para recordar esse dia, pode visionar o vídeo que se segue AQUI.