GUERRA NO ULTRAMAR PORTUGUÊS 1961 – 1974

De muito interesse para os historiadores e para a MEMÓRIA dos ex-combatentes. pois a generalidade dos que combateram na Guiné, principalmente no fim da guerra, opinava que ESTAVA PERDIDA A GUERRA COLONIAL PORTUGUESA

GUERRA COLONIAL PORTUGUESA 1961 – 1974

Jonathan Llewellyn

Espero que perdoem a um estrangeiro intrometer-se neste grupo, mas é preciso que alguém diga certas verdades.

A insurreição nos territórios ultramarinos portugueses não tinha nada a ver com movimentos nacionalistas. Primeiro, porque não havia (como ainda não há) uma nação angolana, uma nação moçambicana ou uma nação guineense, mas sim diversos povos dentro do mesmo território. E depois, porque os movimentos de guerrilha foram criados e financiados por outros países.

ANGOLA – A UPA, e depois a FNLA, de Holden Roberto foram criadas pelos americanos e financiadas (directamente) pela bem conhecida Fundação Ford e (indirectamente) pela CIA.

O MPLA era um movimento de inspiração soviética, sem implantação tribal, e financiado pela URSS. Agostinho Neto, que começou a ser trabalhado pelos americanos, só depois se virando para a URSS, tinha tais problemas de alcoolismo que já não era de confiança e acabou por morrer num pós-operatório. Foi substituído pelo José Eduardo dos Santos, treinado, financiado e educado pelos soviéticos.

A UNITA começou por ser financiada pela China, mas, como estava mais interessada em lutar contra o MPLA e a FNLA, acabou por ser tolerada e financiada pela África do Sul. Jonas Savimbi era um pragmático que chegou até a um acordo com os portugueses.

MOÇAMBIQUE – A Frelimo foi criada por conta da CIA. O controleiro do Eduardo Mondlane era a própria mulher, Janet, uma americana branca que casou com ele por determinação superior. Mondlane foi assassinado por não dar garantias de fiabilidade, e substituído pelo Samora Machel, que concordou em seguir uma linha marxista semelhante à da vizinha Tanzânia. Quando Portugal abandonou Moçambique, a Frelimo estava em tal estado que só conseguiu aguentar-se com conselheiros do bloco de leste e tropas tanzanianas.

GUINÉ –- O PAIGC formou-se à volta do Amílcar Cabral, um engenheiro agrónomo vagamente comunista que teve logo o apoio do bloco soviético. Era um movimento tão artificial que dependia de quadros maioritariamente cabo-verdianos para se aguentar (e em Cabo Verde não houve guerrilha). Expandiu-se sobretudo devido ao apoio da vizinha Guiné-Konakry e do seu ditador Sékou Touré, cujo sonho era eventualmente absorver a Guiné portuguesa.

Em resumo, territórios portugueses foram atacados por forças de guerrilha treinadas, financiadas e armadas por países estrangeiros. Segundo o Direito Internacional, Portugal estava a conduzir uma guerra legítima. E ter combatido em três frentes simultâneas durante 13 anos, estando próximo da vitória em Angola e Moçambique e com a situação controlada na Guiné, é um feito que, miitarmente falando, é único na História contemporânea.

Então porque é que os portugueses parecem ter vergonha de se orgulharem do que conseguiram?

Publicado a 01 de Junho 2013 por Jonathan Llewellyn em “Publicações recentes de outras pessoas”.

42 anos depois


No dia 31 de Agosto de 1971, depois de 3 semanas de boa vida em Luanda, chegou a hora de marchar para a guerra. O nosso destino foi a ZIN (Zona Intervenção Norte), o itinerário seguido foi a chamada “estrada do café” como era designada a via de Luanda para Carmona, cidade onde pernoitamos, depois de cerca de 350 km percorridos.

No dia seguinte, o alcatrão ficou para trás e rumamos mais para norte até ao Vale do Loge onde ficou o terceiro GC (grupo de combate). Os restantes três depois de algum tempo de descanso e de “emborcar” algumas cervejas para refrescar as goelas secas pelo pó continuaram ainda mais para norte e no próximo entroncamento, nova divisão da companhia, o 4º GC rodou para a esquerda em direcção a Quimaria e os restantes dois rodaram à direita para o Tôto. Aqui ficaram alguns elementos da companhia, sorte a deles, mas para os operacionais dos 1º e 2º GC a viagem só terminaria algumas dezenas de km depois de ultrapassar montes, vales e floresta no planalto do Luaia e finalmente a companhia estava toda instalada.

Como integrante do segundo GC, calhou-me este último destino e depois de ter conhecido de passagem o Vale do Loge e o Tôto, esperava um alojamento ao nível destes dois, o nome “Cleópatra” até indiciava um local paradisíaco, mas quando da picada vislumbramos o sítio que seria o nosso destino, o que vimos foi um amontoado de barracas de lona e a cama que nos esperava, foi o colchão de ar que fazia parte do equipamento individual de campanha.

42 anos depois, o melhor mesmo, é recordar o que deixamos para trás em Luanda, os dias de praia na Ilha, a Portugália, o Marçal, etc., etc.

Foto: Grafanil, Agosto/1971.

Mário Mendes

Rio Loge/Freitas Morna

O rio Loge nasce na província do Uíge, na zona de Quitexe, norte de Angola e desagua no oceano atlântico a norte de Ambriz, dividindo as províncias do Zaire a norte e do Bengo a sul. A ponte em Freitas Morna era a passagem e paragem obrigatória para quem se dirigia da capital Luanda para todo o distrito do Zaire, levando o abastecimento para todos os aquartelamentos daquela região, movimento esse designado por MVL (Movimento de Viaturas Logístico), um enorme “comboio” de viaturas civis e militares carregadas de todo o tipo de bens e materiais necessários ao regular funcionamento dos aquartelamentos.

Junto dessa ponte em estrutura metálica estava instalado o destacamento de Freitas Morna, para dar protecção à referida ponte, um equipamento estratégico e também para dar apoio às colunas do MVL que por ali passavam. A seguir transcrevo um excerto de quem esteve no local e que encontrei em: http://batalhao2833.blogspot.pt.

Também daqui tenho algo para contar. Este destacamento era reabastecido de 15 em 15 dias, tempo demasiado para comer pão fresco, coisa que todos nós gostávamos mas que passados estes dias ficava cheio de bolor. Embora sabendo que ia ser criticado pois os meus rapazes diziam que nos destacamentos só nós trabalhávamos e os outros gozavam daquilo que tínhamos feito, perguntei se haveria alguém que soubesse fazer fornos. A resposta, sim, foi rápida, dada por alguns dos meus companheiros e após pedir os respectivos materiais e logo que os mesmos nos foram entregues começámos a construção do nosso forno. Deixámos de trazer carcaças e começámos a trazer farinha, depois cozíamos pão quase todos os dias (pois além de um cozinheiro profissional tínhamos também um padeiro, profissões que já tinham antes de irem para a tropa) e ao mesmo tempo servia também para assarmos as nossas peças de caça.

Mais um depoimento de quem esteve em Freitas Morna e que colhi no blog: http://franquelino.blogs.sapo.pt

O meu grupo de combate foi incumbido de fazer uma comissão de duas semanas neste último destacamento, com a finalidade de proteger a ponte.

O destacamento era ponto de paragem das colunas que se deslocavam de Luanda para o norte de Angola, pelo que nos dias de passagem dos MVL’s tínhamos a preocupação de abastecer bem os nossos frigoríficos e nossas arcas com cervejas e refrigerantes para refrescar as gargantas dos nossos camaradas que por ali paravam.


 Quando não havia colunas, os nossos dias eram muito monótonos. Tínhamos o rio, a cerca de 50 metros do destacamento, que podia servir de distracção, mas estava infestado de jacarés. Ainda assim, de vez em quando, ainda arriscávamos uns mergulhos.

A pouco mais de cem metros da ponte havia umas quedas de água espectaculares. O som das águas do rio Loge a precipitarem-se de algumas dezenas de metros de altura ouvia-se a quilómetros de distância. Sei que hoje existe nesse local um hotel. Deve ser um local paradisíaco.

Quase todas as noites éramos visitados por javalis, que iam comer os restos de comida depositados na lixeira do destacamento. Chegamos a fazer esperas de madrugada para tentar caçar um daqueles exemplares mas nessas noites os bichos nunca apareciam.

Depois de quinze longos e monótonos dias regressamos novamente a Ambriz.

As fotos da primeira ilustração pertencem ao ex-combatente, ex-alferes miliciano Humberto Fernandes (C.Art 3447), datam de Janeiro de 1974 e como se pode ver são de rara beleza, um oásis no meio de um terrível isolamento.

Mário Mendes

Nota: A ponte sobre o rio Loge em Freitas Morna foi destruída em 1990 no auge da guerra civil angolana, foi reparada e está actualmente em muito mau estado interdita a carros pesados, mas segundo a imprensa angolana está a ser construída uma nova em betão.

Os perigos da selva

Norte de Angola (Zona de Quitexe) – Durante uma progressão nocturna, um soldado português afasta-se alguns metros dos seus camaradas para fazer as suas necessidades. O tempo passa e ele não regressa; todos ficam em alerta até o dia nascer. Quando rompe o dia começam a explorar a zona e encontram……

A arma do soldado junto desta enorme jibóia.

Não restam dúvidas, com as lágrimas nos olhos, os militares começam a abrir o animal e …….

O seu camarada e amigo de tantos bons e maus momentos jazia ali esmagado no ventre duma cobra.

O médico da sua Unidade militar foi chamado ao local para confirmar o óbito do soldado Domingos que terminava ali a sua missão de homem, militar e combatente.

(Oficial médico e Comandante da Unidade)

OBS: Estas fotos e o relato dos factos foram-me dados a mim (na altura Furriel Santos) do Serviço de Administração Militar em Julho de 1968, pelo 1º Sargento Loures, do Batalhão de Infantaria que na altura se encontrava aquartelado em Quitexe.

Fotos de autor desconhecido. Se alguém tiver testemunhado esta trágica ocorrência agradeço que entre em contacto com J.Santos (jotamdsantos@clix.pt)

O calor africano

Por cá, embora alguns especialistas prevejam um Verão mais ameno que o habitual, nestes dias o calor tem apertado com força, esperando-se temperaturas perto dos 40 graus em alguns locais, mesmo assim bem longe dos 50 que se fazem sentir na Califórnia.

Ao sentirmos este calor não podemos deixar de recordar o que suportamos em Angola nos anos de 1971 a 1973. Era um calor diferente daquele a que estávamos habituados no continente e quando no auge de uma tarde tórrida se formava uma trovoada e a chuva caía “a potes” sabia bem um banho de água destilada mesmo ali no meio da parada.

Para recordar esses tempos, aqui está uma foto que representa o descanso dos guerreiros protegendo-se do sol impiedoso. Como os colchões de ar fazem também parte do recheio das mochilas, tratar-se-ia de alguma nomadização, que na gíria militar se define como uma acção de forças militares de efectivo reduzido, muito móveis, em zona afectada pela subversão, com o fim de colher informações, destruir meios de combate e atacar pequenos objectivos.

Nestas curtas operações, normalmente de dois ou três dias, algumas vezes, o pior inimigo que enfrentámos foram os mosquitos, uma praga difícil de suportar por mais repelente que se utilizasse.

Caros companheiros da C.Caç. 3413, como devem constatar, vai aqui um silêncio muito profundo, tragam notícias para que este sítio se anime.

Mário Mendes

O 10 de Junho de 2013

UM LAMENTÁVEL DIA 10 DE JUNHO

12/10/13 “Mouros em terra, Moradores às armas!”

Brado que se ouvia nas terras portuguesas desde o tempo do Rei D. Afonso II

O país está esquizofrénico. A esquizofrenia – cabe aqui lembrar – é uma doença mental que afecta o ser no seu todo. Infere-se, pois, que o País está doente (e vai a caminho de ficar ligado à máquina).

Esta coisa de se comemorar o “Dia de Portugal” nunca teve grande brilho, nem foi devidamente organizada e sentida, apesar de já se terem ensaiado vários figurinos.

Foi sempre algo sem uma tradição bem fundada.

A razão maior – estamos em crer- tem a ver com o facto de não se haver determinado o dia em que devemos comemorar a nacionalidade, pois não há uma data fundacional definitiva.

Poderia ser o dia 24/6/1128, data em que o Condado se autonomizou “de facto”;[1]  o dia 25/7/1139, data em que Afonso Henriques foi alçado a Rei, na Batalha de Ourique; o dia 5/10/1143, data do Tratado de Zamora, que nos garantiu a independência da suserania regional, ou o dia 23/5/1179, data da Bula “Manifestis Probatum”, do Papa Alexandre III – a autoridade de Direito Internacional, da época – que reconhece a independência do reino de Portugal e o título de Rei a A. Henriques.

Noutra perspectiva pode-se considerar a data de 1 de Dezembro de 1640, em que se restaurou a completa independência da Nação e se aclamou um novo Rei, natural do reino, fundador de uma nova dinastia nacional.[2]

A ideia do dia 10 de Junho é de inspiração republicana e tomou forma aquando das comemorações do terceiro centenário da morte dessa grande figura lírica chamada Luís de Camões, que exaltou de uma maneira única e superior, a gesta histórica portuguesa.

Como se desconhece quando o poeta nasceu fixou-se a data do seu passamento. Não é que Camões não mereça a distinção – sendo de lamentar que, raramente, se refira a sua condição de soldado e combatente pela Fé e expanção portuguesa – mas as razões em que se fundou a homenagem, de luta política entre monárquicos e republicanos, não parece ter sido a mais feliz…

Mas, enfim, medrou o 10 de Junho como dia em que os portugueses passaram a comemorar serem portugueses!

E esta constitui, já, a segunda reflexão: como poderemos comemorar ser portugueses se, desde o Tratado de Maastricht, passámos a tentar deixar de o ser, para sermos uma coisa qualquer indefinida, que tem a ver com o ser “europeu” e desde há dois anos a esta parte, nos visita um triunvirato que manda a gente fazer coisas que os Filipes nunca se atreveram a mandar?

Por isso parece-me que devíamos ter posto a tónica nisto: o reganhar da independência e “armar-nos” para tal, sendo a alternativa estarmos de luto carregado, espiando os tremendos erros político – estratégicos (e morais), que fizemos nas últimas décadas e que uma nação antiga de 900 anos, jamais deveria ter feito ou deixado fazer.

E não devíamos tirar o luto até ganharmos juízo.

O PR passeia-se pelo País. Melhor fora que permanecesse em Lisboa.

Lisboa é a capital e só excepcionalmente as cerimónias a deviam abandonar. Todavia, em todas as cidades e vilas do antigo Reino se deveria festejar o dia que nos individualiza no concerto das Nações (agora mais “organizações”…).

Porém o que se passa é que o PR se passeia aleatoriamente pelo Continente e Ilhas, acompanhado pela sua Corte – o que nem sequer é barato – enquanto o resto do país vai a banhos ou encolhe os ombros. Há qualquer coisa de errado nisto…

O actual PR tem a seu crédito, ter recuperado as Forças Armadas para as cerimónias oficiais do 10 de Junho, de onde estiveram, inacreditavelmente, arredadas desde 1974 – uma prova insofismável do desvario em que caímos!

Contudo, a verdadeira homenagem aos combatentes mortos pela Pátria – sem o que Portugal não teria sobrevivido a 1128 – não é feita nas cerimónias oficiais do 10 de Junho, mas sim nos eventos junto ao monumento aos mortos do Ultramar, em Belém, organizados por um grupo de cidadãos e sem qualquer vínculo ou apoio do Estado.[3]  A única cerimónia genuína e sã, que agora se realiza.

Ou seja há dois 10 de Junho…[4]

Entre muitas coisas inacreditáveis que se passaram este ano, desde que na mesma semana se inaugurou uma avenida com o nome de um traidor à Pátria, até haver um condecorado com a Ordem da Liberdade, que atentou contra ela (liberdade), ocorreu um episódio que se pode considerar o cúmulo do surrealismo político-diplomático.

Ora meditem.

No dia em que os órgãos de soberania comemoram o dia do país que andam a alienar a estranhos, entre assobios e apupos de parte dos populares presentes – o respeito esvaiu-se, mas também ninguém que não se dê ao respeito, pode esperar ser respeitado – aterrou em Lisboa a “Presidenta” do Brasil.

Logo no dia em que se comemora um dos mais lídimos cultores da língua pátria, cai-nos em sorte um erro ortográfico…

Bom, independentemente dos brasileiros gostarem de alçar a presidente pessoas menos recomendáveis para o cargo – como parece ser o caso – o facto é que a senhora aparece entre nós com esse título, e a título oficial. E pela primeira vez depois de ser eleita.

Eis pois uma situação esdrúxula de todo: sabe-se à última da hora; o PR, o Governo, a AR, etc., estão todos em Elvas;[5]  a senhora em vez de ter o PR a recebê-la, tem o MNE; havendo a festividade maior do País, a Presidente do Brasil – e digamos que não será o mesmo que ter por cá a mais alta figura do Burkina Fasso – não comparece à mesma, uma gafe inexplicável e inconcebível, a todos os títulos!

E nem se digna colocar uma coroa de flores no túmulo de Camões, nos Jerónimos!

E não comparece em Elvas porquê? A pergunta é mais que pertinente e óbvia e parece que ninguém se incomodou com isso. Não foi convidada? Não quis ir? Foi tudo feito em cima do joelho? Não tinha tempo para ir?

Convenhamos que qualquer resposta é cada uma pior que a outra…

A piorar as coisas, Dona Dilma ainda resolve receber o ex-Presidente Mário Soares e o líder do principal partido da oposição, antes de se encontrar oficialmente com os PR e PM, à revelia do protocolo de Estado, quer nacional quer internacional, numa atitude de afronta inqualificável.

E a questão ainda se torna mais feia quando, aparentemente, a ex-revolucionária agora à frente de uma potência que virou capitalista, e a quem nunca se conheceu um gesto de simpatia por Portugal, fez um “tocar e andar” na Portela, para ir a uns saldos de empresas, que por cá se querem passar a trocos.

Tudo selado em brindes sem lustre, entre o lustroso luxo da Ajuda!

Pelos vistos estão todos bem uns para os outros.

Alienam tudo estes desgraçados políticos que nos calharam na rifa eleitoral, entremeados por “inoculações” de entidades estranhas ao país, que fazem o Cristóvão de Moura parecer um menino de coro!

É a EDP TAP, a RTP, a RDP, os CTT (!), etc., já falam na água – na água, ó pessoas da minha terra! Será que também vão querer que ponhamos as nossas mães e mulheres á venda?

Também estarão a pensar aderir ao “Banco de Sementes” que se anda a preparar em Bruxelas, e que a ir para a frente, constituirá um dos mais notáveis instrumentos de escravidão jamais inventado?

Infelizmente tudo o que descrevo dá bem o retrato em que caíu o nosso Portugal: uma verdadeira casa de passe política.

Não é bonito de se dizer e é, seguramente, desagradável de ouvir. Sem embargo, representa a mais cristalina das verdades.

Apetece dizer:

“Mouros em terra, moradores às armas”!

[1] Esta data tem a grande vantagem de ser o nosso “grito de liberdade”; tudo aquilo que se passou nas outras datas, limitou-se a reconhecer o que foi conseguido naquele dia. Aliás, só se reconhece o que já existe…
[2] Data, que é bom recordar, foi a escolhida para ser o nosso 1º feriado nacional, que o actual governo, em mais um acto de crime de lesa-Pátria, decidiu aleivosamente abolir. Uma acção miserável de bastardia política.
[3] O apoio prestado pelos Ramos das FA e GNR, não é prestado enquanto estruturas do Estado, mas sim como emanação da Nação em armas…
[4] Ponhamos as coisas em perspectiva: todos os portugueses são importantes; todas as profissões são úteis; todos os sectores da vida nacional concorrem, ou devem concorrer, para o engrandecimento da Nação, a harmonia e justiça social e o bem – estar da população. Mas se não houver compatriotas dispostos a lutar e morrer em defesa da comunidade, todo o esforço e obras dos restantes é vão; ou pode estar a um passo de o ser.
[5] Onde teria ficado bem uma palavra lembrando a portuguesíssima terra de Olivença, cativa de Espanha desde 1801.

 

João J. Brandão Ferreira

Oficial Piloto Aviador

Fronteira do Luvo

 Para aqueles que estiveram no aquartelamento do Luvo, aqui publico com a devida vénia, dois comentários muito interessantes da autoria do ex-alferes miliciano José Castilho, do Batalhão de Caçadores 3849 (1971-1973), sediado em Nóqui, norte de Angola. Este batalhão embarcou no navio Vera Cruz, tal como a C.Caç. 3413, no dia 31 de Julho de 1971, tendo chegado a Luanda a 9 de Agosto de 1971.

 José Castilho, em Março 25, 2011, disse:

A fronteira do Luvo…

Na linha de fronteira norte de Angola, entre Noqui e São Salvador, hoje Mbanza Congo, este posto fronteiriço surgia-nos dotado, com os meios necessários para desempenhar o seu papel. Autoridades civis, militarizadas e o apoio de um destacamento das Compªs da zona – Canga, normalmente. Hoje pelo que se lê aqui e acolá, a fronteira do Luvo continua a desempenhar o seu papel, reflectindo o movimento na mesma, o degelo ou o crispar das relações angolanas com os vizinhos congoleses. O Rio Luvo, sobre o qual se estende uma ponte que liga as duas margens, é testemunha do modo como evoluem as relações entre os dois países. A pág. 200, do seu livro As Brumas do Mato, em 1968/70, o então Alf Milº Capelão Leal Fernandes, do BCaç 1930, descreve a curiosa fronteira… «Durante o dia, de um posto avançado de vigilância, dominavam-se paisagens de Angola e da então Rep. do Zaire . E se aparentemente o Rio Luvo dividia, a passarinhada em manhãs alegres, o sol tudo inundando e o céu, grande e vasto, por cúpula, não consideravam fronteiras nem limites. A ponte de ferro sobre o rio, apesar das minas a espreitar na picada das bandas do Zaire, sugeria um convite permanente a um abraço fraterno e amigo com o exército e a população do Zaire. Da banda de lá, também a uns 300 metros da ponte se levantava um posto fronteiriço zairense. De lá, vinham frequentemente vozes, o toque do içar da bandeira, a passagem rápida de vultos. Embora não havendo relações diplomáticas com o Zaire, devido à intransigência da política colonial do regime de então, a nossa guerra não era com o exército congolês. Com uma fronteira tão extensa na área do Batalhão, delimitada por rios ou mesmo sem uma linha certa e definida, tornava-se quase natural, consciente ou inconscientemente, que surgissem incursões amigáveis ou aventuras juvenis». E prossegue o Alf Milº Leal Fernandes, « o pelotão, já esgotara quase a ração de combate, e então nas lavras das bandas do Congo, grossos cachos de bananas espreitavam por entre o verde da folhagem, numa oferta fácil e tentadora». Mais adiante, continua … «Alguns despimo-nos para atravessar o rio. Eu ia completamente nú», refere um dos militares. E segue, «Estavam já quase a chegar às bananeiras quando depararam com uns homens de cor, sentados, a limpar calmamente as suas armas. Não seriam nacionalistas angolanos, nem tropa zairense, mas possivelmente guardas. Ao avistá-los, seguiu-se logo uma correria cautelosa e tensa de regresso, não fosse ali armar-se alguma escaramuça de tiro e pancadaria ou um insidioso conflito diplomático». As proximidades da fronteira, geravam destas situações. Também na minha primeira saída pelos morros de Noqui, em direcção à fronteira, com um GC misto, com militares dos Morteiros já com a comissão avançada e alguns Sapadores, encontrámos 3 ou 4 mulheres zairenses, que agricultavam umas lavras em frente às antenas da Marconi, e que em francês, lá lhes conseguimos acalmar os receios e as conseguimos encaminhar de retorno à Repª do Zaire. Nem sei se cheguei a mencionar esse facto no relatório do patrulhamento. Às vezes aconteciam factos, em que o bom senso deveria ser a regra. Era o caso. Castilho

 José Castilho, em Maio 18, 2011, disse:

Companheiros de jornada Noqui: confesso que de vez em quando folheio o livro Angola – As Brumas do Mato, do Alf. Milº Capelão do BCaç 1930, Leal Fernandes, onde surgem “estórias” do diabo, só totalmente entendíveis por quem passou por aquelas paragens e viveu aquelas ou outras experiências semelhantes. Para mim uma das mais fascinantes, surge a pág,s 189 seguintes e intitula-se : sou o Pereira de Matadi! Vou tentar resumir, mantendo o colorido do insólito, esta “estória”, que se terá passado no aquartelamento do Luvo, mas poderia ser quase o argumento para um sketch dos Monty Python. O Aquartelamento ficava quase em cima da fronteira com a então Repª do Zaire, e a separação entre os dois países, era feita pelo Rio Luvo, que uma ponte atravessava. A cerca de 300 metros desta ponte, situar-se-iam quer do lado angolano quer do zairense, postos de vigilância. E de ambos os lados, Minas mais ou menos enferrujadas as do lado zairense, que transformariam uma incauta entrada naquele território, sem prestar atenção às mesmas, sobretudo de noite, numa perigosa “roleta russa”! O Luvo, era um posto fronteiriço, com serviços mínimos de Administração, Alfândega e Pide, além de uma unidade militar, naqueles anos, e estamos em finais dos anos 60, ao nível de uma Compª Oper. do BCaç 1930, com sede na Mamarrosa, em regime de rotatividade. Do lado de lá da fronteira, na Repª do Zaire, estariam muitos angolanos para ali fugidos quando da “confusão” de 1961, como os naturais diziam. E alguns deles, quase uma década depois, ansiavam por furtar-se ao controlo que a FNLA sobre eles exercia e ansiavam regressar ao seu espaço, à sua lavra, ao seu lugar de origem. A acção psicológica das autoridades militares, também contribuía para este objectivo. Daí as pontuais apresentações que por vezes se verificavam junto das unidades militares sediadas junto da fronteira. Mais tarde, com o BCaç 3849 sediado em Noqui, sucederia o mesmo. Situemo-nos porém nas palavras de Leal Fernandes e no colorido da sua descrição.(…)« Daquela vez, num domingo, em meados de Julho de 1968, na altura da mudança da Compª 1783 para o Luvo, foi um pacato cidadão. Atravessou a ponte de ferro sobre o Rio, enfiou pelo capim e cerca das 2 horas da manhã, sem que as sentinelas se apercebessem, devido talvez a um estranho manto escuro da noite, momentâneo descuido na vigilância e excessiva cautela do intruso, furou através do arame farpado que envolvia o aquartelamento e entrou. O facto é insólito, pois que a vigilância nocturna ou diurna nas várias companhias do Batalhão, eram apertadas, mas no melhor pano cai a nódoa, diz a sabedoria popular (…)».Retornemos à narrativa de Leal Fernandes, (…)« Lá dentro, na extensa parada solitária e nocturna, para todos os lados que olhasse, a mesma negrura e solidão, ninguém que o atendesse.(…)». E prossegue,(…)« foi bater à casa-posto da PSP, onde residia um subchefe e um soldado da guarda,(…)». E prossegue,(…)« Sem vir à porta, visto a hora não se prestar para divagações inúteis e pensando que se tratasse dalguma sentinela carregada de insónias ou sob o efeito de traumática tensão bélica, o subchefe gritou-lhe lá de dentro, a fim de o despachar: – Não me esteja a chatear. Vá lá para o posto, para o pé dos seus camaradas, que se o capitão sabe, ainda arranja sarilhos (…)». Portanto o suposto apresentado falhava a sua primeira tentativa de apresentação.E segue (…) «Desiludido, parada deserta, portas e janelas fechadas, teria então entrado numa caserna e acende a luz. Incomodada, a tropa portuguesa, de olhos adormecidos, julgando ser algum nativo que vivia no aquartelamento, manda-o sair e apagar a luz. Perante uma demorada indecisão para a saída, palavrões e botas teriam voado pelo ar, numa ameaça agressiva contra o inoportuno (…).» Raio de sorte a minha, que não encontro ninguém a quem apresentar-me, terá pensado o infeliz visitante. Retornemos à descrição de Leal Fernandes, (…) «De novo, desamparado e perdido na mudez e no frio da noite, envolveu-se num lençol, (…) e sentou-se nos degraus da capela, à espera da manhã e de uma palavra acolhedora e amiga (…).» Passa por ele o sargento da ronda, mas aquelas horas desusadas, imaginou que, (…) «fosse o Manuel Afonso ou o seu sobrinho, naturais de São Salvador do Congo e que, há já alguns meses, ganhavam a vida no aquartelamento (…)» e terá atirado uma interrogação, (…)« Ó Manuel Afonso, que estás aí a fazer, e seguiu adiante com um olhar rápido e oblíquo, prosseguindo a sua ronda pelos postos de sentinela restantes(…).» Isto é, falhara a terceira tentativa de apresentação. A noite vai passando e, (…)« Pouco antes das 6 horas da manhã, quase à hora do toque de alvorada, com a vida já a despertar no aquartelamento, o vulto envolvido no lençol, vendo que ninguém lhe ligava, agarrou-se à sineta da capela. Estranhando o lençol branco sobre o corpo – seria um muçulmano? Um feiticeiro? Um fanático de uma exótica seita africana? – e também aquele toque a uma hora não habitual para cerimónias litúrgicas na vida militar do mato, o sargento de ronda, o Fur. Milº(?),naquele seu característico aspecto mexido e grande humor espontâneo, lança-lhe de longe: – Que religião é a tua para estares aí a tocar a uma hora destas? – Sou o Pereira e venho de Matadi (…)» Escapara às passagens da ronda e enrolado num lençol, aguardara pela manhã. Não era definitivamente quem estes supunham. (…)« Era um homem novo e baixo, só ossos, carregado de fome e de pobreza. Entregue à autoridade militar e à Pide, foi interrogado (…).» Em jeito de confissão, (…)« Pertencera à UPA, transformada depois em na FNLA. Combatera em Angola… Participara em ataques e emboscadas à tropa portuguesa, mas – afirmava ele – nunca matara ninguém. Vivia em Matadi, quase em frente de Noqui, na margem esquerda do Rio Zaire e vinha entregar-se.(…)». Eis uma das muitas histórias que torna aliciante a leitura do livro do Alf. Milº Capelão Leal Fernandes, que sintetiza, (…) «O Pereira ,de Matadi, era um pacífico cidadão. Se ele quisesse ter sido guerrilheiro, praticar vandalismo e dezenas de mortos, bastava-lhe ter lançado umas granadas para dentro das casernas e fugir imediatamente…Mas não, a sua intenção não era destruir, nem matar…Farto da guerra e de vida no Zaire, queria regressar e entregar-se. Seria o desejo de cultivar a sua lavra abandonada? Reconhecer o lugar da sua antiga cubata? Saborear a sombra e o fruto das suas mangueiras? Rever familiares e amigos em São Salvador ou em Luanda? Para já, a sua guerra era por um pedaço de pão (…)». Castilho.