7 de Outubro de 1971 – Faz hoje 39 anos que a C.Caç. 3413 teve o seu baptismo de fogo, no planalto do Luaia, Uíge, norte de Angola, na base táctica de Cecília, um aglomerado de tendas de lona, umas cónicas, outras rectangulares, que se vê no cabeçalho desta página e que albergava dois grupos de combate da nossa Companhia e outros militares da C.Caç. 1311, proveniente do recrutamento local (RI20, de Luanda) e também da C.Eng. 3478 que abria uma picada no local.
Pela primeira vez ouvimos o som característico das Kalashnikov, espingarda automática de fabrico russo que era a predominante nos movimentos de libertação, nesta flagelação a que fomos sujeitos, à mistura também com algumas morteiradas.
Não fosse talvez a sorte ou a pouca perícia do inimigo, que nos tinha bem visíveis no cimo do morro e sem qualquer protecção, o saldo não teria sido apenas o de diversos estragos materiais e alguns feridos ligeiros por estilhaços. Mas ainda houve evacuação, porque veio um helicóptero para transportar ferido(s) a precisar de cuidados de saúde, que os enfermeiros ali não puderam prestar.
Nestas ocasiões aparecem sempre alguns “mirones” e tentando refrescar a minha memória, vejo por detrás do companheiro de cor, o 1º cabo António Domingos Araújo Grilo e o de chapéu tenho a convicção que seja o soldado Augusto Carvalho Santos Coroa. Quanto a este último fiquei a hesitar à primeira vista, pois poderia ser o malogrado Emanuel Firmino Nunes Aguiar, um madeirense, radicado em Angola e pertencente ao recrutamento local da nossa companhia, que viria a falecer por acidente com arma de fogo no dia 22 de Dezembro de 1971. No entanto, são necessárias confirmações para estes dois companheiros e os outros que não sei identificar e por isso apelo à nossa gente que faça este exercício de memória.
Quanto aos militares das outras companhias que nos acompanharam nesta aventura, recordo-me do furriel miliciano Luís Livramento, um algarvio radicado em Luanda, da C.Caç. 1311, por ser figura de destaque, pois era locutor da Rádio Clube de Angola.
Ele, juntamente com muitos milhares que fizeram de Angola a sua terra, deram o melhor de si para o seu enriquecimento, tiveram que a abandonar para salvar a pele, pelo simples facto de terem a tez branca. Os desmandos que aconteceram com esta descolonização ainda estão por explicar, os responsáveis políticos e militares de então, uns já mortos e outros ainda vivos, sempre se “fecharam em copas”.
O Luís Livramento, regressou ao seu Algarve e ainda o ouvi muitas vezes aos microfones da Delegação Regional de Faro da Emissora Nacional, relatando os jogos de futebol do estádio de São Luís, quando o Farense militava na primeira divisão nacional.
A todos estes companheiros que connosco coabitaram naquele morro, que foi a nossa aldeia por alguns meses, lanço o repto de sacar das “brumas da memória” as suas experiências ali vividas para serem partilhadas, pois esta porta está escancarada.
A Bem da Nação
(“In Illo Tempore” era a frase acima, obrigatória, que terminava os ofícios e outros escritos afins que circulavam na Administração Pública Portuguesa)
Mário Mendes
