A “Passionária” de Angola

“La Passionaria”, de seu nome Isidora Ibárruri Gómez (1895 – 1989), foi uma figura mítica do partido comunista de Espanha, tendo-se destacado na luta contra a ditadura do general Franco (1892 – 1975).

Também Angola, teve a sua “passionária” que desempenhou um papel importante na luta “intestina” do MPLA, depois da independência de Angola.

Sinopse: Em Portugal, poucos saberão quem foi Sita Valles, a jovem revolucionária fuzilada há mais de 30 anos em Angola. No entanto, a sua aura continua viva entre as gerações de estudantes universitários comunistas e de outras esquerdas que a conheceram, no início dos anos 70, sobretudo nas faculdades de Medicina de Lisboa e Luanda. Foi uma grande líder do movimento estudantil e um quadro estimado da União dos Estudantes Comunistas.
Sita Valles teve uma vida muito breve (1951-1977). Mas intensa. Desde que tomou consciência das injustiças do mundo, não mais deixou de ser um turbilhão político. Muito activa, quer na clandestinidade, quer em democracia, ela lutou por uma sociedade melhor.
Sita Valles era uma «luso-angolana». Nasceu em Cabinda, quando ainda pertencia ao império colonial português, e depois da independência optou pela nacionalidade angolana. No 25 de Abril de 1974 estudava Medicina em Lisboa, mas no Verão Quente regressou à que pensava ser a sua terra. Na República Popular de Angola defendeu a ortodoxia soviética em supostos tempos de democracia. Ali acabou por ser acusada, sem direito a contraditório, de ser um dos cérebros do alegado putsch, de 27 de Maio de 1977. E ali foi fuzilada, pensa-se, em Agosto desse ano.
Três décadas depois da sua execução – juntamente com José Van Dunem e Nito Alves -, a jornalista Leonor Figueiredo, autora de Ficheiros Secretos da Descolonização de Angola (Alêtheia Editores, 2009), investigou, recolheu testemunhos, procurou memórias antigas de uma jovem mulher e da sua história brutal, que se tornou num mito de uma geração.

Exerto: «Diz-se que Sita Valles foi fuzilada às cinco da manhã do dia 1 de Agosto de 1977. Um tiro em cada perna, um tiro em cada braço. O corpo caiu na vala previamente aberta, antes de desferido o disparo mortal. Ou o que restava de Sita, após as torturas e a orgia de violações pelos homens da Direcção de Informação e Segurança de Angola (DISA), a polícia política do regime. Um tractor aplainou o terreno. Diz-se também que a bela, elegante e inteligente comunista de origem goesa – uma portuguesa de coração africano – se manteve rebelde até ao último momento. Dizia que não tinha medo e que quanto mais depressa a matassem melhor. Ao recusar ser vendada, obrigou os atiradores do pelotão de fuzilamento, a enfrentarem o seu olhar, antes de apertarem o gatilho.

Militante do Partido Comunista em Portugal e do MPLA em Angola, Sita Valles é hoje um nome maldito para ambos os partidos e a sua vida quase um enigma em ambos os países. Acusada de ser um dos cérebros do chamado “golpe Nito Alves”, em 27 de Maio de 1977, seria presa em Luanda, violada e torturada e, três meses depois, fuzilada. O percurso dessa figura polémica é reconstituído num livro, “uma longa reportagem”, da jornalista e escritora Leonor Figueiredo, com recurso a documentos e dezenas de testemunhos.

Passaram 33 anos e ainda hoje não se sabe onde estão enterrados os corpos de Sita Valles, do seu irmão Ademar (morto um ano depois) e de um número indeterminado de vítimas (“entre 20 mil e 80 mil, incluindo muitos portugueses”). Sita Valles continua a ser tabu no país que escolheu como seu e onde as circunstâncias da morte a transformaram num mito. Recusou ser vendada e olhou o pelotão de fuzilamento de frente, um comportamento que impressionou os inimigos.

Leonor Figueiredo evoca os dias de 1971, quando Sita Valles chegou a Lisboa, vinda de Luanda, para estudar Medicina. “Fui encontrar muitos antigos colegas, hoje médicos, que se sentiram marcados pela coragem e pelo espírito destemido dela”, diz a autora. Leonor Figueiredo, que também escreveu o livro Ficheiros Secretos da Descolonização em Angola, falou com dirigentes do PC, como Carlos Brito, Zita Seabra ou Raimundo Narciso (hoje todos fora do partido), que confirmaram a impetuosidade de Sita Valles, então dirigente estudantil . Em 1975, decidiu regressar a Angola para ajudar o MPLA no conflito com a FNLA e a UNITA. Após a independência, o seu percurso começa a divergir até culminar nos acontecimentos de 1977.

Sita Valles, foi casada com José Van Dunem, alto dirigente do MPLA, também fuzilado no mesmo dia. Deixaram órfão, o filho de ambos, Ernesto, nascido em 8 de Fevereiro de 1977. «Demos-lhe o nome de ‘Che’ em homenagem a Guevara», escreve aos pais.

Guerra Civil Angolana

Na sequência do derrube da ditadura em Portugal (25 de Abril de 1974), abriram-se perspectivas imediatas para a independência de Angola. O novo governo revolucionário português abriu negociações com os três principais movimentos de libertação (MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola, FNLA – Frente Nacional de Libertação de Angola e UNITA – União Nacional para a Independência Total de Angola), o período de transição e o processo de implantação de um regime democrático em Angola (Acordos de Alvor, Janeiro de 1975).

A independência de Angola não foi o início da paz, mas o início de uma nova guerra aberta. Muito antes do Dia da Independência, a 11 de Novembro de 1975, já os três três grupos nacionalistas que tinham combatido o colonialismo português lutavam entre si pelo controlo do país, e em particular da capital, Luanda. Cada um deles era na altura apoiado por potências estrangeiras, dando ao conflito uma dimensão internacional.

A União Soviética e principalmente Cuba apoiavam o MPLA, que controlava a cidade de Luanda e algumas outras regiões da costa, nomeadamente o Lobito e Benguela. Os cubanos não tardaram a desembarcar em Angola (5 de Outubro de 1975). A África do Sul apoiava a UNITA e invadiu Angola (9 de Agosto de 1975). O Zaire, que apoiava a FNLA, invadiu também este país, em Julho de 1975. A FNLA contava também com o apoio da China, mercenários portugueses e ingleses mas também com o apoio da África do Sul.

Os EUA, que apoiaram inicialmente apenas a FNLA, não tardaram a ajudar também a UNITA. Neste caso, o apoio manteve-se até 1993. A sua estratégia foi durante muito tempo dividir Angola.

Em Outubro de 1975, o transporte aéreo de quantidades enormes de armas e soldados cubanos, organizado pelos soviéticos, mudou a situação, favorecendo o MPLA. As tropas sul-africanas e zairenses retiraram-se e o MPLA conseguiu formar um governo socialista uni partidário.

O Brasil rapidamente estabeleceu relações diplomáticas com a nova República que se instalara. Fez isso antes mesmo de qualquer país do bloco comunista. Nenhum país ocidental ou mesmo africano seguiu o seu exemplo. A decisão de reconhecer como legítimo o governo de Agostinho Neto foi tomada pelo então presidente Ernesto Geisel ainda em 6 de Novembro, antes da data oficial de Independência de Angola.

Já em 1976, as Nações Unidas reconheciam o governo do MPLA como o legítimo representante de Angola, o que não foi seguido nem pelos EUA, nem pela África do Sul.

No meio do caos que Angola se havia tornado, cerca de 300 mil portugueses abandonaram este país entre 1974 e 1976, o que agravou de forma dramática a situação económica.

Em Maio de 1977, um grupo do MPLA encabeçado por Nito Alves, desencadeou um golpe de Estado, que foi afogado num banho de sangue. No final deste ano, o MPLA realizou o seu 1º Congresso, onde se proclamou como sendo um partido Marxista-Leninista, adoptando o nome de MPLA-Partido do Trabalho.

A guerra continuava a alastrar por todo o território. A UNITA e a FNLA juntaram-se então contra o MPLA. A UNITA começou por ser expulsa do seu quartel-general no Huambo, sendo as suas forças dispersas e impelidas para o mato. Mais tarde, porém, o partido reagrupou-se, iniciando uma guerra longa e devastadora contra o governo do MPLA. A UNITA apresentava-se como sendo anti-marxista e pró-ocidental, mas tinha também raízes regionais, principalmente na população Ovimbundu do sul e centro de Angola.

Agostinho Neto morreu em Moscovo a 10 de Setembro de 1979, sucedendo-lhe no cargo o ministro da Planificação, o engenheiro José Eduardo dos Santos.

No início da década de 1980, o número de mortos e refugiados não parou de aumentar. As infraestruturas do país eram consecutivamente destruídas. Os ataques da África do Sul não paravam. Em Agosto de 1981, lançaram a operação “Smokeshell” utilizando 15.000 soldados, blindados e aviões, avançando mais de 200 km na província do Cunene (sul de Angola). O governo da África do Sul justificou a sua acção afirmando que na região estavam instaladas bases dos guerrilheiros da SWAPO, o movimento de libertação da Namíbia. Na realidade tratava-se de uma acção de apoio à UNITA, tendo em vista a criação de uma “zona libertada” sob a sua administração. Estes conflitos só terminaram em Dezembro de 1988, quando em Nova Iorque foi assinado um acordo tripartido (Angola, África do Sul e Cuba) que estabelecia a Independência da Namíbia e a retirada dos cubanos de Angola.

A partir de 1989, com a queda do bloco da ex-União Soviética, sucederam-se em Angola os acordos de paz entre a Unita e o MPLA, seguidos do recomeço das hostilidades. Em Junho de 1989, em Gbadolite (Zaire), a UNITA e o MPLA estabeleceram uma nova trégua. A paz apenas durou dois meses.

Em fins de Abril de 1990, o governo de Angola anunciou o reinício das conversações directas com a UNITA, com vista ao estabelecimento do cessar-fogo. No mês seguinte, a UNITA reconhecia oficialmente José Eduardo dos Santos como o Chefe de Estado angolano. O desmoronar da União Soviética acelerou o processo de democratização. No final do ano, o MPLA anunciava a introdução de reformas democráticas no país. A 11 de Maio de 1991, o governo publicou uma lei que autorizava a criação de novos partidos, pondo fim ao monopartidarismo. A 22 de Maio os últimos cubanos saíram de Angola.

Em 31 de maio de 1991, com a mediação de Portugal, EUA, União Soviética e da ONU, celebraram-se os acordos de Bicesse (Estoril), terminando com a guerra civil desde 1975, e marcando as eleições para o ano seguinte.

As eleições de Setembro de 1992, deram a vitória ao MPLA (cerca de 50% dos votos). A UNITA (cerca de 40% dos votos) não reconheceu os resultados eleitorais. Quase de imediato sucedeu-se um banho de sangue, reiniciando-se o conflito armado, primeiro em Luanda, mas alastrando-se rapidamente ao restante território.

A UNITA restabeleceu primeiramente a sua capital no Planalto Central com sede no Huambo (antiga Nova Lisboa), no leste e norte diamantífero.

Em 1993, o Conselho de Segurança das Nações Unidas embargou as transferências de armas e petróleo para a UNITA. Tanto o governo como a UNITA acordaram em parar as novas aquisições de armas, mas tudo não passou de palavras.

Em Novembro de 1994, celebrou-se o Protocolo de Lusaka, na Zâmbia entre a UNITA e o Governo de Angola (MPLA). A paz parecia mais do que nunca estar perto de ser alcançada. A UNITA usou o acordo de paz de Lusaka para impedir mais perdas territoriais e para fortalecer as suas forças militares. Em 1996 e 1997 adquiriu grandes quantidades de armamentos e combustível, enquanto ia cumprindo, sem pressa, vários dos compromissos que assumira através do Protocolo de Lusaka.

Entretanto o Ocidente passara a apoiar o governo do MPLA, o que marcou o declínio militar e político da UNITA, com este movimento a ter cada vez mais dificuldades em financiar as suas compras militares, perante o avanço no terreno das FAA, e dado o embargo internacional e diplomático a que se viu votada.

Em Dezembro de 1998, Angola retornou ao estado de guerra aberta, que só parou em 2002, com a morte de Jonas Savimbi (líder da Unita).

Com a morte do líder histórico da UNITA, este movimento iniciou negociações com o Governo de Angola com vista à deposição das armas, deixando de ser um movimento armado, e assumindo-se como mera força politica.

Fonte: Wikipédia


O alferes Robles

«A PEQUENA COLUNA MILITAR COMANDADA PELO MOÇO ALFERES ROBLES REALIZOU NOS DEMBOS UMA CAMINHADA HERÓICA QUE MERECE SER CONHECIDA PELO QUE TRADUZ DE DECISÃO E ÂNIMO RESOLUTO»

João Azevedo

O ALFERES  ROBLES

Manhãs de 15 e 16 de Março de 1961, no Norte de Angola.

Duas manhãs quentes da zona tórrida, talhadas a golpes de catana na carne de inocentes, em terras que há mais de quatro séculos são terras cristãs de Portugal.

Manhãs de feras à solta açuladas de longe por outras feras maio­res, e ainda mais cruéis, e mais traiçoeiras, e mais cobardes! Manhãs da morte dos meninos por nascer…

Manhãs do homem selvagem, ao serviço duma política do ódio. Manhãs ensanguentadas e malditas pelo massacre das crianças, que são o sorriso de Deus neste mundo, das mães que prolongam a vida no dilacerar das próprias entranhas, dos homens de mãos calejadas que tiram da terra o pão de cada dia …

Manhãs hediondas e trágicas do crime teledirigido pelos que falam de paz e fomentam a guerra: do crime que degolou meninos, depois de rasgar o ventre materno em que se ocultavam — do crime que foi apadrinhado por nove dos onze membros do chamado Conselho de Segurança. Nove! Número de cabala e apocalipse. Nove: noves fora, nada! Nada de justiça, nem de lealdade, nem de bom senso …

Em Nova Caipemba, era ainda cedo. Apesar de a gente do mato ser madrugadora, a maior parte dos brancos ainda se não levantara da cama. Homens, mulheres e crianças dormiam tranquilamente, sem armas e sem medo, dentro dos hábitos duma secular convivência euro-africana, nas suas casitas de um só piso, construídas sabe Deus com que sacrifícios … As portas, apenas encostadas no trinco. E as janelas que davam para a rua, a menos de um metro do chão, abertas de par em par, para os vizinhos amigos e o céu estrelado.

Na luz suave do alvorecer, ágeis e silenciosos como felinos, os assassinos entraram nos quartos onde homens, mulheres e crianças dormiam ainda …

Foi tão simultâneo e traiçoeiro o assalto, que muito poucos tiveram tempo de soltar um grito. O sono de numerosos brancos, pretos e mestiços de Nova Caipemba terminava num gorgolejo de sangue, sob o gume afiado de catanas …

Naquela roça das proximidades do Quitexe, o patrão tinha-se levantado antes do nascer do sol, para arrumar umas contas da lojeca em que abastecia o pessoal da sua fazenda e das vizinhas. Pouco depois, a mulher e um filho de 14 anos levantaram-se tam­bém. As duas mocinhas, uma de 10 e outra de 12 anos, continua­vam a dormir, serenas e graciosas, no seu quartito que era o melhor e o mais enfeitado da casa.

Por volta das 6.30h, o branco abriu a porta da loja e ficou atrás do balcão, à espera dos habituais fregueses do copito matinal de vinho ou do cálice da rija.

Minutos decorridos, chegaram cinco pretos grandalhões, no jeito de quem vai para a tonga.

— Patrão, um copo de vinho! — pediu um dos do grupo. — Um copo grande …

O branco escolheu na prateleira um dos copos maiores, enxa­guou-o na água da celha e curvou-se para o barril do palhete.

E, neste acto de se curvar, ofereceu aos bandidos a posição que eles previam e esperavam. O golpe foi tão fundo e certeiro no pes­coço, que o breve e lancinante berro do assassinado esbarrou contra a lâmina fria da catana …

Para além da porta de comunicação com a parte familiar da casa, a mulher, apavorada por aquele grito, tinha tirado da mesa de cabeceira um velho revólver do marido e empunhava-o com mão trémula, prestes a desmaiar.

— Dê-me o revólver, mãe! — disse o filho de 14 anos. — E, por amor de Deus, não se deixe ir abaixo! Tenha coragem e vá acordar as minhas irmãs!

Contagiada pela decisão do filho, a pobre mulher obedeceu ins­tintivamente. O moço dobrou a culatra do revólver e verificou que tinha as seis balas no tambor. Então abriu sem ruído a porta e, com uma sere­nidade terrível, abateu com cinco tiros seguidos, os cinco assassinos que, antes de prosseguir na chacina, não tinham resistido à tentação duma garrafa de aguardente …

— Venha, mãe — chamou o moço para dentro, com os olhos rasos de água postos no cadáver do pai. — Não gritem! — acrescen­tou, quando a mãe e as irmãs acudiram e levaram as mãos à boca, horrorizadas. — Não gritem, que pode ser perigoso! Ajudem-me a transportar o pai para a carrinha! …

Mudamente, a viúva e os órfãos transportaram o corpo para o carro e cobriram-no com um lençol. Depois, aquele rapazinho de 14 anos, a quem o pai deixava às vezes guiar a carrinha, sen­tou-se virilmente ao volante e, meio cego pelas lágrimas que teima­vam em inundar-lhe os olhos, correu a avisar um tio que vivia noutra roça, a dezoito quilómetros de distância …

Só no dia 16 é que a gente de Madimba soube que a vaga sangrenta começara a rolar e vinha já perto.

Reuniram-se os homens e deliberaram correr a S. Salvador, a pedir auxílio e armas. Para tanto, levaram para fora da povoação as mulheres e as crianças e esconderam-nas entre o capim alto, con­tando que o desígnio dos bandoleiros fosse, antes de tudo o mais, o saque das casas e lojas.

Mas não era.

Apercebendo-se de que os pais tinham partido para longe, as crianças começaram a chorar, atraindo aquelas hienas com apa­rência humana. E, quando os homens de Madimba voltaram, as suas casas estavam intactas. Mas de suas mulheres e filhos só encontra­ram os cadáveres selvaticamente mutilados …

Numa fazenda agrícola dos arredores de Carmona, os trabalha­dores estavam prontos a seguir para a faina diária.

De mãos nos bolsos, o patrão e dois capatazes, na inspecção matinal dos seus homens.

Ouviu-se, então, um assobio forte e modulado, vindo da mata. E logo dezenas de catanas caíram de surpresa sobre os três brancos, descuidados e sem armas.

Numa grande algazarra, depois de esquartejarem os mortos, os assassinos jogaram a bola, no terreiro, com as três cabeças dece­padas …

E por todo o vasto Congo português se repetiram idênticas cenas de morte e selvajaria, em pequenas e pacíficas povoações comer­ciais ou nas fazendas agrícolas dispersas pelo sertão.

As notícias caíram simultâneas sobre Luanda, arrepiantes e trá­gicas como se fossem as gotas do sangue ainda quente de mais de um milhar de vítimas. Os nervos da população da capital de Angola crisparam-se como num pesadelo de apocalipse.

Começou o vaivém dos aviões da DTA, do Aero Clube de Angola, e da Força Aérea Portuguesa, na tarefa de acudir aos feridos e de transportar os refugiados.

Pelas matas, alguns brancos fugiam, desvairados e sem rumo certo.

Na Fazenda X, da área de Nambuangongo, um preto fiel correu a avisar a senhora:

— Fuja, que os bandidos vêm já aí!

E ela meteu-se à floresta, a pé, ladeada pelos dois filhos já homens e levando ao colo a neta pequenina …

Foram encontrados, quatro dias depois, pelo marido que partira de Luanda, acompanhado por outros civis, sob a protecção duma patrulha militar.

A patrulha era comandada por um alferes de 22 anos.

Entre o grupo dos cafuzos, com barbas de vários dias, rostos duros e trágicos, fatigados pela insónia, os olhos febris duma obsti­nação raivosa, sobressaía um transmontano de meia idade, rijo e corpulento. Era o dono da Fazenda X, sita nas redondezas de Nambuangongo.

Tinha vindo a Luanda refazer o rancho, depois duma viagem ao Sul, donde trouxera oitenta trabalhadores bailundos. E toda a famí­lia ficara na roça: a mulher, os dois rapazes, a netinha cujos pais iniciavam outra fazenda, a poucos quilómetros de distância. Por isso não sossegava, desgrenhado, ansioso, batendo o asfalto do largo com os seus passos fortes de homem resoluto, clamando que era pre­ciso partir sem demora.

Alguns dos do grupo tinham vindo de lá, do meio do ódio gratuito, alucinado, selvagem e demoníaco. Esses só queriam armas. Desde o meio-dia que as reclamavam, ali em frente do Palácio do Governo, respeitosos mas pertinazes, com uma insistência irredutível, indiferentes à fome, à sede e à fadiga, sem arredar pé. Que lhes dessem armas, para poderem voltar às suas fazendas. Armas e balas. Não pediam mais nada. E nos seus olhos, cheios de angústia e furor, chispava ainda o desvairo da fuga através dos corpos mutila­dos de amigos ou familiares.

Na ansiosa expectativa da decisão do governador, trocavam-se perguntas e respostas, em diálogos curtos, entrecruzados como o destino dos homens, definitivos como a morte.

— Mataram-lhe alguém?

— Meu irmão, o Miguel, com a mulher e o filhito ainda de peito. Deixaram-na aos pedaços, os grandes cães! …

— E na sua roça?

— Escavacaram tudo e pegaram fogo à residência. Mas hão-de pagar as custas …

— Vossemecê sabe do Bouça?

— Resistiu. Dizem que matou dois malvados com os dois únicos cartuchos que tinha. Acabou esquartejado pela canalha.

— E o Seixas, o João Seixas, de Mangualde?

— Degolaram-no e a todos os brancos da roca dele. Não sobrou ninguém vivo.

— Filhos da puta!

— Hão-de pagá-las todas, e com bons juros …

— E vossemecê? — disse um dos faladores para um grandalhão silencioso e taciturno. — Diga alguma coisa, homem!

— Para quê? …

— Para desabafar, com mil raios! Também veio do mato?

— Venho do  Inferno!

— Atacaram-lhe a roça?

— Que o diabo leve a roça!

— ?!

— … Mataram-me a mulher e dois filhos … Um deles ainda gati­nhava … Quando nos dão as armas?

— Quando partimos? — perguntava, pela vigésima vez, o trans­montano rijo e corpulento.

Partiram ao alvorecer do dia seguinte, sob a protecção duma es­colta militar. O comandante da escolta era, como já se disse, um alferes de 22 anos.

Tinham-no   ido   buscar  à   Universidade,  onde  cursava   o   2.° ano de Direito. Quarenta e oito horas para malas e despedidas — e embarcara num dos Super-Constellations da TAP, requisitados para transportar caçadores especiais, logo após os acontecimentos de 4 de Fevereiro em Luanda.

Dissera adeus à família, com lágrimas, e à namorada com beijos.

Já no avião, furando a noite por cima de Lisboa iluminada, revira ainda, na imaginação, o rosto confrangido dos pais e a figura chorosa da Lena. E viera-lhe uma espécie de raiva contra a dis­tante Angola, que lhe arranjara aquele sarilho todo …

Com a saudade de amigos e parentes, doía-lhe a interrupção dos estudos, que se lhe afigurava irremediável. Bastariam uns meses de campanha, dando tiros em vez de estudar as leis, para se lhe des­vanecer quanto tinha aprendido. E lá se iria o curso por água abaixo! Nunca mais poderia apanhar o fio à meada … Tudo porque nos sertões de Angola, umas centenas de pretos, armados de catanas, tinham atacado os brancos …

Ainda então não compreendia o verdadeiro sentido e importân­cia dos acontecimentos. E, influenciado por certas pessoas «bem infor­madas» de Lisboa, imaginava os cafeicultores como patrões muito duros para com o seu pessoal.

«Deviam tratar melhor os trabalhadores» — pensava confusamente. E, no seu foro íntimo, atribuía-lhes sérias culpas nos acontecimentos que o tinham arrancado ao carinho dos pais, ao estudo das Pandectas e aos brancos e roliços braços da Lena …

Decorrera quase um mês sobre essa imprevista partida de Lisboa para Luanda. E agora ali estava ele, mais reconciliado com Angola que já o começava a prender, mas ainda desconfiado daqueles rudes sertanejos, de mãos crispadas nas carabinas, olhos muito abertos dos horrores testemunhados, aconselhando pressa, exigindo acção.

— O meu «jeep» abre a marcha — declarou ele para o grupo concentrado junto da porta de armas do Quartel dos Dragões. — Pre­ciso dum homem que conheça bem a região …

— Eu ! — ofereceram-se, ao mesmo tempo, todos os agricultores.

O alferes escolheu o que lhe ficava mais perto, que era o dono da Fazenda X, e prosseguiu:

— A seguir ao meu «jeep», vai um jipão; depois as carrinhas dos civis e, na retaguarda, o outro jipão. Todos os carros à vista uns dos outros! Nada de se distanciarem mais de cinquenta metros! Vamos!

Todos ocuparam as viaturas. A pequenos intervalos, os motores arrancaram. E a pequena coluna começou a rodar, na estrada para Nambuangongo …

Tudo foi fácil até Caxito, onde fizeram uma pequena paragem.

A população, reduzida aos homens, pois as mulheres e as crian­ças estavam para Luanda, compareceu em peso, a saber notícias, no alvoroço que a todos causava a presença dos caçadores especiais, os «jacareus que veste os farda de capim», como lhes chamavam os nativos.

— Para onde vão? — perguntavam os homens de Caxito aos amigos ou conhecidos, integrados na coluna.

— Por aí fora, a ver o que resta das roças de café …

— Para que lado?

— Nambuangongo.

— Têm por lá família ?

— Alguns de nós, sim — informou o dono da Fazenda X. — A minha, por exemplo, está por lá toda … E por aqui?

— Cá estamos — fez o outro singelamente. — Mas precisamos de armas e munições. Estamos fartos de as pedir para Luanda. Respondem-nos que não há … Que raio de brincadeira é esta?

O agricultor teve um encolher de ombros, a significar a sua igno­rância, e com um gesto para o alferes, que falava ao sargento e aos dois cabos, aconselhou:

— Talvez ele saiba … Pergunte-lhe!

Sem se fazer rogado, o homem do Caxito, coçando a barba de alguns dias, dirigiu-se ao oficial:

— O meu alferes é capaz de me explicar como é isso das armas lá em Luanda, que não há meio de um cristão arranjar umas balitas para defender o canastro …

— Creio que é um negócio a tratar com os armeiros — respondeu o militar, desinteressado.

— Dá-me licença! — interveio outro civil, do grupo que rapida­mente afluíra, curioso das respostas do alferes. — Nós agora não pedi­mos armas para ir à caça. Precisamos delas para defender a nossa vida, os nossos bens e esta terra, que também é nossa. Ora, para isto, e com sua licença, acho que a tropa nos devia distribuir armas … O meu alferes não sabe nada a respeito?

— Nada! — disse o moço militar, no seu jeito grave e nos­tálgico.— A mim não me deram informações: deram-me ordens … Além disso, ainda não há um mês que cheguei de Lisboa …

— E que dizem, lá por Lisboa, do terrorismo em Angola? — quis saber um sujeito baixote, já entrado em anos, de grande bigode grisalho a ensombrar-lhe a boca firme e o queixo voluntarioso. — Bacoreja-se que, ainda por cima, tornam as culpas aos cafeicul­tores … É verdade?

Talvez melindrado com o tom irónico do civil, o alferes brindou-o com um olhar duro e contra-atacou vivamente:

— E não será um pouco verdade, meu caro senhor? Terão os homens do café dado sempre ao seu pessoal aquele tratamento humano e aquela remuneração suficiente que se deve a quem trabalha ?

— O quê?! …—fez o velhote, erguendo para o moço oficial uns olhos arregalados de puro espanto.

Mas o alferes, visivelmente aborrecido, não lhe prestou mais atenção.

— Vamos embora! — disse para o sargento, que imediatamente transmitiu a ordem a civis e militares.

Ultrapassado o velho cemitério do Sassa, depois de virar à es­querda, rodando já na lama da estrada secundária, através da mata verdejante, o dono da Fazenda X, na sua voz baixa e calma, per­guntava:

— Posso falar-lhe com franqueza, meu alferes?

— Claro que pode.

— Pois então, aí vai: no que há pouco disse dos homens do café, o meu alferes não tem razão …

— ?!

— Não tem, não, senhor! Nem migalha!… Tomaram os cava­dores do Minho ou os ceifeiros do Alentejo que lhes dessem a paga e o tratamento que nós aqui damos aos pretos. Os trabalhadores das roças de café trabalham muito menos e ganham muito mais. Enquanto o lavrador do Minho ou das Beiras labuta de sol a sol, pela magra côdea de centeio com presigo de toucinho, quando não de cebola crua, os trabalhadores da tonga, em Angola, acabam as suas tarefas pela uma hora da tarde. É o patrão quem os vai buscar ao Sul e quem para lá os volta a levar, no fim do ano. E, além do salário (maior que a jeira seca dos cavadores de Trás-os-Montes), recebem vestuário, casa, alimentação e assistência médica. Quantos dos nossos trabalhadores da Metrópole podem gabar-se de tais regalias? …

— Não é o que se diz em Lisboa … — objectou vagamente o alferes.

— Em Lisboa, sempre se disse muita asneira sobre a vida angolana — explicou convictamente o cafuzo. — Mas a verdade é que, salvo raríssimas excepções, não foi o trabalhador das roças quem se deixou envenenar pelas cantigas dos agitadores vindos do Gana ou do Congo ex-belga. Foram precisamente os dembos e ambuílas, que desde há muito não trabalham, nem para o branco nem para si próprios …

— Então de que vivem ?

— Vivem do trabalho das mulheres, como toda a gente de Angola está farta de saber. Nas roças de café, trabalham os bailundos. E os bailundos continuam exemplarmente leais a Portugal … Ó diabo! Cautela! …

Buzinando três vezes seguidas, que era o sinal convencional para paragem e alerta geral, o «jeep» estacou, numa travagem brusca, ao dobrar duma curva, já quase encostado ao grosso tronco duma amoreira atravessada na estrada.

Todos se apearam. Às vozes de comando do moço alferes, secas e breves, a escolta militar criou rapidamente um dis­positivo defensivo. E ouviu-se o ruído metálico das corrediças a puxar a bala ao cano das armas, enquanto os civis afastavam a árvore do caminho.

A operação, que não demorou mais de quinze minutos, decorreu sem incidentes. Do capim alto não veio rumor de criatura viva nem tiro de canhahgulo.

Mas aquilo era apenas o princípio da cega-rega. De aí em diante, já nas vizinhanças de Quicabo, sob a chuva que tinha começado a cair, o trabalho de remover os impecilhos colocados na bruta picada lamacenta foi contínuo, cansativo e enervante.

Nele acabaram por se empenhar todos os homens da coluna, civis e militares, com a excepção dos que ficavam de vigia.

— Raios os partam, mais à estúpida brincadeira que inventaram l — vociferava um cabo, todo alagado em suor, enquanto ajudava a arre­dar mais um tronco tombado no caminho.

— Na minha terra é que eu os queria ver, a rachar lenha! — aven­tava um soldado, natural de Amarante.

— Qual rachar lenha! — protestava outro, de Nine. — A cabeça lhes rachava eu, se os topasse a jeito. Mas ninguém lhes põe a vista em cima! …

Com efeito, durante todo esse dia, os terroristas não atacaram a coluna. E, pelo tombar da tardinha, já com o céu limpo depois duma chuvada mais forte, a pequena caravana automóvel chegou à primeira fazenda. Soldados e civis, apeados dos carros, entraram na residência, de armas apontadas e dedo no gatilho. Não viram ninguém. Mas no terreiro da secagem do café, situado uns cem metros para além da casa, depararam com um quadro horrível …

Eram quatro corpos trucidados e abandonados ao acaso do último gesto agónico, no vasto quadrado do terreiro. Uma família completa: o pai, com o crâneo aberto e o peito retalhado; a mãe, sem olhos e com duas rodelas sangrentas no lugar dos seios; uma garotinha de alguns 10 anos, despida e esventrada; e, mais longe, caído da sua branca alcofa rendada, o pobrezinho dum bebé, de bruços em cima duma nódoa de sangue seco, com as mãos e os pés decepados …

Soldados e civis, agrupados em círculo, fitavam o quadro alu­cinante, tomados dum horror indizível. E, por longos segundos, nin­guém proferiu palavra … Depois, com o rosto endurecido e os olhos secos, mas estranhamente brilhantes, o alferes disse numa voz surda e tensa:

— É preciso dar sepultura a esta pobre gente l

Em silêncio, quatro soldados, a um gesto do sargento, começa­ram a abrir quatro covas, lado a lado, ao pé duma frondosa mulemba, na terra empapada pela chuva recente. Alguém foi à carrinha buscar um cobertor e cobriu com ele o cadáver nu da mocinha.

Terminado o trabalho dos soldados, os corpos mutilados foram descidos às covas húmidas. Calado e taciturno, o alferes lançou a primeira mão cheia de terra em cada uma das sepulturas. Então, recuando dois passos, perfilou-se em continência. E, logo a seguir, devotadamente, fez o Sinal da Cruz …

Todos imitaram o piedoso gesto do oficial. Um dos civis foi buscar dois sarrafos de madeira e pregou-os em cruz contra o tronco da mu­lemba. E o sargento — um rapagão de Vila Real, que parecia talhado em granito do Marão — virou a cara de aspecto feroz e, afastan­do-se um pouco, levou o lenço aos olhos, assoando-se depois ruido­samente …

— Seguimos, meu alferes? — perguntou, a disfarçar a como­ção.

— Seguimos — confirmou singelamente o moço.

— Deve haver terroristas nas redondezas … — opinou um cabo.

— Oxalá os encontremos! — rugiu um soldado beirão.

O alferes fitou-o demoradamente. Uma crispação nervosa agitou–lhe as comissuras dos lábios, no que parecia ser um sorriso de tigre.  E declarou:

— Havemos de os encontrar …

— A que distância fica a roça mais próxima? — perguntou ao dono da Fazenda X.

— A uns sete quilómetros — respondeu o homem, estremecendo, como quem desperta dum pesadelo.

— Preocupado?

— E não o hei-de estar, meu alferes? Depois do que vimos, e com a família aí para diante, dentro destas matas, no meio destas feras ?!

— Não é preciso pensar no pior… — aconselhou o oficial, con­doído da angústia do civil.

Chegaram à segunda roça, já com o Sol posto. Também não encontraram alma viva. Mas à entrada da residência, junto dos três degraus que subiam para a varanda, havia uma dúzia de pretos mortos, vestidos com os calções azuis da U PA e caídos em monte, uns sobre os outros. E em cima, no chão de cimento, tombado de costas, com um grande lanho na testa, o cadáver dum branco ainda novo, com os olhos vítreos, arregalados para a morte, e a mão direita fechada sobre a coronha duma «Walter» 7,65.

— É o Quim Sabino! — informou um dos agricultores da coluna.

— Ainda não há quinze dias que eu o encontrei no Quitexe …

— Vendeu bem cara a vida! — comentou o sargento.

Enterraram mais aquele branco, pernoitaram nas modestas ins­talações da roça e, ao outro dia, com a primeira luz do alvorecer, a coluna retomou a marcha.

— Temos de chegar hoje à sua plantação! — anunciou o alfe­res ao dono da Fazenda X, quando começaram a rodar.

— Muito obrigado, meu alferes!

— Não tem nada que agradecer. Foi por causa de si que mete­mos para o norte da estrada Luanda-Carmona. As roças dos outros agricultores que nos acompanham ficam todas a sul da estrada. Ainda é longe, a sua fazenda?

— Uns trinta quilómetros. E de lá podemos seguir por uma picada que leva a Vista Alegre.

Continuavam a não encontrar os terroristas. Mas a sua proximi­dade era claramente denunciada pelas ratoeiras da estrada, consti­tuídas quase sempre por grandes valas recobertas de ramos e capim, pontões destruídos ou grandes árvores derrubadas. E também não faltava o rasto sangrento dos torpes assassinos, nas fazendas que iam atravessando. Por toda a parte, abandono, desolação e morte!

Com a pressa de chegar à Fazenda X, davam uma volta rápida pelas casas das plantações, enterravam os mortos e prosseguiam. Numa das roças atravessadas, já com o Sol a pino, depararam com uma vara de porcos que fossavam na carne esfrangalhada de brancos assassinados. Raivosamente, o alferes varreu os bichos imundos com rajadas de pistola-metralhadora. E foram esses os primeiros tiros disparados pela pequena coluna militar.

Já o Sol descaía para as bandas de Luanda, quando chegaram à Fazenda X.

Estacionados os carros no terreiro, o agricultor, arrastando con­sigo o alferes, percorreu ansiosamente o armazém, a cantina, a casa da residência, os quintais e o acampamento dos bailundos.

Nem mortos nem vivos! Ninguém!

Depois duma última volta pelas cinco divisões da casita erguida com tantos sacrifícios, mobilada com tanto carinho e agora completamente pilhada pelos bandidos, que tinham arrombado portas, partido as louças, levado a roupa das camas e entornado vinho por toda a parte — aquele rude e rijo transmontano deixou-se cair desalenta­damente num cadeirão da Damba e, cobrindo o rosto com as mãos grandes e calejadas, rompeu num choro convulso e soluçante.

— Ai, os meus pobres filhos! Ai, a minha querida mulher! …

Soldados e civis afastaram-se discretamente, no respeito que sempre infundem as lágrimas dum homem. Mas o alferes ficou.

Calado, encolhido a um canto da varanda. E deixou que o cafuzo desabafasse, aliviando a sua dor na explosão dos soluços incentiveis. Depois, quando o viu mais recomposto, já a limpar ao lenço os olhos vermelhos e o rosto congestionado, aproximou-se comovidamente e disse-lhe, sereno, reflectido e confiante:

— Não sei se reparou que não encontrámos aqui sinais de luta ou rasto de sangue … A sua gente está viva l Bem sei que sou caloiro nestas coisas de Angola; mas, de ontem para hoje, já aprendi bas­tante sobre os processos destes facínoras. Por isso lhe repito: a sua gente está viva! Vamos procurá-la! …

O homem ergueu para o moço uma face angustiada, na atitude de quem tenta compreender algo parecido com um inesperado milagre. De repente, alcançando o raciocínio do oficial, nos seus olhos brilhou um relâmpago de esperança.

E, erguendo-se bruscamente, disse apenas:

— Vamos depressa!

Depois foi, durante dois dias, a trágica e paciente busca, em alternativas de esperança e desespero, pelas picadas incríveis ou caminhos de pé posto, através da selva portentosa.

— Se a minha gente fugiu a tempo — raciocinava o dono da Fazenda X—, só pode ter seguido três caminhos: a estrada por onde viemos, a que vai dar ao Quitexe ou a picada que atalha caminho para Vista Alegre. Pela primeira não foi, que não os encontrámos; pela segunda, era arriscado, pois deve andar inçada de bandidos; logo, devem ter metido à picada, que é menos frequentada e os meus rapazes conhecem bem.

— Vamos por essa! — concluiu o alferes.

Continuava a chover. Não a chuva grossa do dia anterior, que desabara em bátegas furiosas, alagando tudo, mas uma poalha miudinha e preguiçosa, tombando molemente dum céu baixo e pardacento.

— Chiça prà chuvinha de molha-tolos! — protestou um soldado minhoto. —Até parece que estamos em Braga, ao findar do Outono!

— Só com a diferença que, nestas Áfricas, nem a chuva refresca uma alma de Deus!—acrescentou outro. — Parece caldo. Vai um homem molhado por fora e a suar por dentro. Como é que se não há-de ser selvagem numa terra destas?!

— Cala a boca, terrorista!—invectivou galhofeiramente um dos cabos, que ia no jipão. — Um tipo que teve a desgraça de nascer em Boticas não deve atacar seja que terra for, ainda que seja o inferno. Eh, rapazes! vocês sabem que, em Boticas, a maior parte das casas é coberta a colmo?

Mas o de Boticas refilou. Que não era terra de espantar, não senhores, lá nisso tinha o nosso cabo razão. Mas era uma terra cristã, em que se não davam cem passos sem topar alma viva. Muito diferente daqueles sertões, onde se não topava um cristão.

— E quanto a chamar-me terrorista, meu cabo, mais a modo, se faz favor! Se os terroristas fossem da minha têmpera, apareciam agora à gente, em vez de terem andado para aí a chacinar inocentes.

— Cães do diabo! — rugiu o cabo, cuspinhando para o lado, num reflexo de nojo.

E todos se calaram, na alucinante evocação dos horrores já presenciados.

Entretanto, no «jeep» do alferes, que abria a marcha, o velho cafuzo, com os olhos ansiosos e febris, vasculhava ambos os lados da sinuosa vereda.

— Mande parar um bocadinho, meu alferes. Faça-me esse favor! Parece-me que vi bulir a folhagem ali atrás …

Com infatigável paciência, o moço fazia-lhe a vontade. De arma pronta a disparar, ele mesmo acompanhava o aflito agricultor que saía da picada, afastava os galhos das espinheiras, traiçoeiros como falsos amigos, gritava «Eh Zeca! Eh Candinha!». Mas ninguém respondia. Não havia ali ninguém. E ambos voltaram ao «jeep», para repetirem a cena mais adiante, numa nova esperança, logo morta por nova decepção …

Ao grupo inicial dos fugitivos da Fazenda X, haviam-se juntado mais cinco brancos, duma roça por onde passaram e que avisaram da onda assassina. Ao todo, eram agora onze pessoas — duas senho­ras, três homens, quatro crianças e dois pretos fiéis — caminhando, a corta-mato, numa linha paralela à picada para Vista Alegre.

Arrastavam-se penosamente, havia três dias, primeiro acossados pelos bandidos, depois sofrendo a fome e a sede, e por fim quase mortos de cansaço e já possessos do demónio infame do deses­pero.

Durante o primeiro dia, sofreram a perseguição contínua dos facínoras. É certo que os três homens obraram prodígios na defesa daquelas inocentes vidas de mulheres e crianças. No transe do maior perigo, quando os facínoras ululavam muito próximos e sedentos de sangue, os dois irmãos da Fazenda X, rapagões morenos de 18 e 20 anos, ambos armados de carabinas, ambos cheios de ternura pela pobre mãe velhinha que tão doloridamente se arrastava na infin­dável caminhada, tinham congeminado uma boa estratégia defensiva. Trepavam às esgalgadas eritrines ou às frondosas mulembas, um à frente e o outro atrás do pequeno grupo miserando. A táctica consis­tia em cobrir, à retaguarda, a marcha dos fugitivos, repelindo algum facínora mais atrevido com tiros certeiros, descer da árvore e correr a ocupar outra, cem metros à frente do atirador da vanguarda, alter­nando ambos sucessivamente as suas posições em relação aos que em baixo se iam arrastando, cheios de fome, de sede, de suor e de terror.

Não obstante os que tombavam, escabujando no chão, abatidos pelas balas certeiras dos dois irmãos, bem treinados no tiro ao veado e à pacaça, os terroristas, certos do seu festim de carniça, pareciam divertirem-se em prolongar o trágico desporto daquela per­seguição. Porque tanto avançavam velozmente até à vista dos bran­cos, em gritaria medonha e com esgares horríveis, brandindo as catanas, saltando, urrando, ameaçando, como logo se deixavam ficar para trás, escondidos nos recessos do arvoredo, agrupados em cír­culo, murmurando em conciliábulos misteriosos.

Durante uma dessas temporárias tréguas concedidas pelos ferozes perseguidores, os brancos encontraram pela frente um pequeno riacho que as chuvas tinham guindado à categoria dum verdadeiro rio.

— Vamos passar para a outra margem — decidiu o irmão mais velho.

— E se há jacarés? — lembrou a mãe.

— Mais sanguinários do que as feras que nos perseguem, não hão-de ser… — respondeu o moço. — Vamos lá!

Depois de passarem todos — a velha senhora amparada aos filhos já homens e as crianças ao colo dos adultos — o irmão mais velho explicou o seu plano para despistar os bandidos:

— Ficam aqui todos, em silêncio e quietinhos. Eu volto para o lado de lá. Estão a ver aquela amoreira, cujos ramos se entrelaçam com os da mulemba desta margem? Pois é nessa amoreira que eu me vou empoleirar, como um galaroz que se diverte. Logo que os ban­didos apareçam, mando-lhes uns tiros de presente e passo para o lado de cá, de maneira que os tipos não percebam. E vão ver como os pa­lermas seguem por ali adiante, convencidos de que nos continuam no encalço. Entendidos?

Fez-se como o valente rapaz aconselhava. E o ardil surtiu efeito.

Viram-se livres dos bandidos. Mas foi então que começaram a lutar com a fadiga, com a fome e, sobretudo, com uma terrível e enlouquecedora sede.

Ao terceiro dia, a senhora mais idosa, que era a dona da Fazenda X, ia toda ensanguentada do arranhar das espinheiras e levava os pés inchados como trambolhos, envolvidos em pedaços da camisa de um dos seus filhos. As crianças já nem força tinham para chorar.

— Eu quero a Macainha — rabujava debilmente a mais pequena delas.

A Macainha era uma boneca francesa, vestida de alsaciana, que o avô lhe tinha trazido de Luanda como prenda do seu segundo aniversário. Ninguém sabia por que misteriosas razões dera-lhe aquele nome esquisito, corruptela do nome duma criada preta da casa, chamada Maria Candimba. E agora, três dias depois de a avó a ter ido buscar à sua caminha de grades para a fuga precipitada, voltava a lembrar-se da boneca preferida:

— Vovó eu quero a Macainha …

— A Macainha ficou em casa, minha filha.

— Então voltamos para casa.

— Pois sim: vamos voltar para a nossa casinha.

— Vovó, eu tenho muita fome! —tornava a pequenita.

— E eu também — acrescentava um pirralho de alguns 5 anos.

— Também eu!

— E eu tenho muita sede … Quero aguinha!

Cortava o coração ver penar, em tão duro transe, aquelas quatro criancinhas, a mais velha das quais ainda não completara 7 anos.

A sede era, para todos, a tortura maior. A fome, iam-na iludindo com os frutos silvestres que topavam pelo caminho. Algumas goia­bas que encontraram foram consideradas manjar de luxo, porque eram saborosas e enganavam simultaneamente a fome e a sede. Reservaram-nas para a petizada, a quem distribuíam uma por cabeça e por refeição.

Na passagem pelos riachos, os adultos dessedentavam-se abun­dantemente, bebendo por uma bota de cano alto. E assim iam pal­milhando a penosa caminhada, famintos, sujos, inseguros da vida e sentindo já no pescoço o roçar cruel do gume das catanas …

Quando alvoreceu o quarto dia, desembocaram na estrada prin­cipal.

— Agora já estamos perto — disse o mais velho dos rapazes. — Daqui a Vista Alegre é um pulo.

— Graças a Deus! — exclamou a mãe. — Mas eu já não aguento mais.

E deixou-se cair desamparadamente na valeta lamacenta.

Correram a levantá-la e docemente a sentaram à beira da estrada, decidindo que todos deviam descansar um pouco, antes de pros­seguir viagem.

— Vovó, quando chegamos à nossa casinha? — perguntou outra vez a pequenina. — Eu tenho muita fome …

— Se calhar, meteram-se à estrada do Quitexe … — aventou o dono da Fazenda X, num acesso de pessimismo, começando a ceder à diabólica vertigem do desespero.

— O seu primeiro raciocínio parece-me o mais sensato — disse o alferes. — Ou acontece alguma coisa que o leve a mudar de ideia?

— Acontece que há dois dias que andamos nesta busca e ainda não descobrimos rasto dos fugitivos. Nem uma pegada de pé cal­çado, nem qualquer resto de comida, nem uma ponta de cigarro. Nada!

— Quem lhe diz que não seguiram por fora da estrada, justamente para não marcar o rumo a possíveis perseguidores?

— É justamente isso que me assusta — respondeu o agricultor. — Se eles caminharam a corta-mato, talvez tenham preferido o rumo de Luanda, cruzando-se connosco sem ninguém dar fé. Está o meu alferes a ver que pouca sorte?!

— Não foi nesta picada que o meu amigo pensou, logo de começo?

— É verdade que foi.

— Pois eu acredito em palpites. Vamos para a frente!

E a coluna continuou a sua marcha, lenta, interrompida dezenas de vezes para dar ajuda às carrinhas que se atolavam na lama até aos eixos, mas persistente e sempre picada pelo indestrutível bom humor dos soldados.

— Eh Manei! — dizia um transmontano do último jipão — Estás a ver como fomos vigarizados?

— Homessa! Vigarizados em quê?!

— Então não é uma vigarice esta coisa duma guerra em que o inimigo não aparece? Já agora sempre gostava de ver um terrorista …

— Lagarto, lagarto, lagarto! — exclamou o Manuel compenetradamente. — Não fales nesses diabos, que até já me dói o pescoço. E passava a mão em gume contra a garganta.

— Não me digas agora que tens medo duns tipos de catana! — tornou o outro, escarninho. — Eu cá, falando com toda a franqueza, preferia que eles se mostrassem.

— Também eu, desde que me apareçam de frente. Mas os safar­danas preferem atacar pelas costas. E duma traição ninguém se livra!

— Tá bem! — concordou um terceiro. — Mas isto assim é que não tem piada nenhuma! É como quem vai à caça e volta de bornal vazio …

— Deixa lá, que ainda a procissão vai no adro e até ao lavar dos cestos é vindima — declarou o cabo que tinha a mania dos adágios. — Palpita-me que ainda nos havemos de fartar de ver esses patifes …

Mas o carro que ia à frente estacou, enquanto o condutor dava para trás sinal que parassem também. Do seu «jeep», sempre na vanguarda, o alferes tinha avistado, lá adiante, numa clareira, um tipo empoleirado entre as ramarias altas duma frondosa amoreira.

— Eu vou lá! — ofereceu-se o sargento, puxando uma bala ao cano da pistola-metralhadora.

— Deixe-me ir também! — pediu o dono da Fazenda X.

— Vamos os três!—decidiu o alferes, saltando do «jeep».

Mal, porém, tinham percorrido meia centena de metros, deslizando cautelosamente sob a protecção do arvoredo, o velho agricultor largou a correr a peito descoberto, gritando:

— É o  meu Zeca,  bendito  Deus!   É a  minha  gente!

Era, efectivamente, o mais velho dos dois irmãos que, de cima da árvore, montava sentinela, enquanto o grupo de fugitivos des­cansava, alguns metros mais além, na berma da estrada para Carmona.

Descrever o que foi a alegria daquele encontro, é impossível.

Mas um soldado de Amarante, depois de ficar embargado durante minutos, teve apenas o seguinte comentário:

— Irra! que uma coisa assim até chateia a alma duma pessoa! Pois não é verdade, ó Manei?

Em rápido «conselho de guerra» com o sargento e os dois cabos, o alferes deliberou que seguiriam todos até ao Quitexe, donde o grupo de fugitivos seria transportado à cidade de Carmona, a fim de tomar o avião de Luanda, enquanto a coluna iniciaria o caminho do regresso por Quibaxe e Pango Aluquem.

Mais uma hora, gasta principalmente a remover as árvores derru­badas sobre a estrada, e entraram em vista Alegre, que foram encon­trar ao avesso do nome: abandonada e triste, com as casas vazias, as portas arrombadas, todos os vidros partidos, as prateleiras das lojas escavacadas e, aqui e além, alguns cadáveres a testemunhar a passagem selvática das catanas …

Depois duma boa refeição quente, confeccionada com mercearia das lojas desertas e criação abandonada, ali passaram a noite, mal dormida não tanto pela sensação do perigo como pelo nauseabundo fedor a cadáver que vinha das matas envolventes.

No dia seguinte, retomavam a marcha, com a primeira luz do alvorecer, quando da espessura da mata saltou um negro esgalgado, agitando um trapo amarelo preso num pau à guisa de bandeira, e gritando:

— Mussiú!  Mussiú!

Soou outra vez o ruído inconfundível das corrediças das armas, empurrando as balas ao cano. Um dos soldados que iam no «jeep» do alferes meteu rapidamente a carabina à cara …

— Quietos e em silêncio! — intimou o alferes, estendendo os braços paralelos ao chão, num gesto expressivo. E ao sargento, que rapidamente saltara do seu carro e acudira a receber ordens, segredou algumas breves e claras instruções. O subalterno correu seguidamente a coluna, falando aos soldados, em voz baixa e misteriosa.

Entretanto, o negro da bandeira, vendo parar os carros e abaixar as armas que o visavam, avançou mais confiadamente, desdobrando ostensivamente contra o peito o pano, onde se liam, enormes e debruadas a negro, as letras UPA.

— Mussiú l — tornou o emissário.

— Venez, mon ami! — convidou o alferes, com uma seriedade de rajá das índias.

O preto abriu um largo riso triunfante, mostrando os dentes, limados em triângulo, à maneira dos canibais. Logo a seguir, soltou um assobio estridente, estranhamente modulado em três tons …

E, então, todos viram surgir da selva um negro enorme, vestindo o típico capote dos chefes dembos, no meio duma dúzia de homens armados de catanas e canhangulos.

O oficial, observando o pitoresco bando, concluiu no seu íntimo que a sua ideia inicial estava certa. Era efectivamente, como ele pen­sava, um dembo aliciado pela UPA, que os confundira com alguma esperada gente de além-fronteira e se apressava a vir prestar obediên­cia aos «comandantes» que chegavam.

— Mussiú! — saudou o dembo, curvando-se para o alferes, logo imitado pelos sobas é macotas que o acompanhavam. E, talvez por não saber dizer mais nada na língua dos «comandantes», tirou a bandeira ao emissário e estendeu-a, também ele, em frente do peito, apontando as letras UPA.

— Já sei que és da UPA, bandido! — berrou de repente o oficial. E, apontando-lhe a pistola-metralhadora, intimou:

— Mãos ao ar! Ou ficas como um crivo, traidor!

Arregalando os olhos de puro espanto, o dembo olhou em redor. E em redor olharam os doze malandrins que o acompanhavam, já com as pernas retesadas para a fuga. Mas os soldados tinham cumprido discretamente as ordens transmitidas pelo sargento. À volta dos ter­roristas fechara-se, de repente, um círculo de baionetas …

Sem uma palavra, aceitando a situação com o antigo respeito da sua raça pelos fortes, o dembo baixou a carranca feroz e atou as mãos por cima da cabeça, logo imitado por todos os do seu séquito.

— Revistem-nos, desarmem-nos e amarrem-nos!—foram as ordens secas do alferes.

Um cabo, a coberto das baionetas de dois soldados, cumpriu.

O dembo era portador de papéis que não deixavam dúvidas quanto à sua filiação na UPA. Entre eles, foi-lhe apanhada uma carta recentemente escrita de Léopoldville, com todo um plano de proce­dimento e a promessa de lhe enviarem, por aqueles dias, reforços comandados «por gente do nosso grande comandante de lá muito longe». Fora essa carta que levara o cabecilha a confundir os caça­dores especiais com o auxílio prometido pelos chefes de além-fronteira …

Dois dos meliantes ainda traziam as catanas ensanguentadas …

— Está a ver, meu alferes?! — exclamou o cabo ao notar a trá­gica circunstância. — Este filho duma vaca andou a matar brancos! …

E logo um grande alarido se levantou entre os civis. Aquele safar­dana vinha talvez de retalhar crianças. Não merecia viver nem mais um minuto.

— Mata-se já! — bradaram alguns.

— Não se mata um inimigo amarrado! — interveio duramente o alferes. — Todos esses homens são prisioneiros do Exército. Vão numa das camionetas até ao Quitexe. Lá se decidirá o seu destino.

— São criminosos da pior espécie!—teimou ainda um civil.— O meu alferes já se esqueceu do que todos vimos nas roças que atravessámos?

— Não esqueci, não senhor! — respondeu serenamente o moço. — Nem nunca mais me esquecerei …

— E deixa viver um patife destes, que ainda traz a catana quente do sangue dos inocentes?!

— Não sou carrasco — disse o oficial —, sou soldado! Vamos!

E, levando num carro os fugitivos da Fazenda X e noutro os prisioneiros com as mãos amarradas atrás das costas, a coluna retomou a marcha, ultrapassou Aldeia Viçosa, e prosseguiu para o Quitexe.

No Quitexe — duas dúzias de casas arrimadas à estrada, erguida à categoria de rua principal e única — foram logo cercados pelos homens da vila, armados de caçadeiras, carabinas ou velhos revól­veres. Usando roupas que desde há muito não viam ferro nem sabão, barbudos e cabeludos, olhos febris da vigília constante, falas eriça­das de pragas, almas saturadas de horror — aqueles homens impa­cientes, indomáveis, violentos e frenéticos crivaram a pequena coluna de exclamações, alvitres, comentários e perguntas.

— Ainda bem que chegou a tropa!

— Talvez eu agora tenha uma lasquinha de tempo para tomar um banho!

— Mostrem a esses bandidos quantas pêras são por um pataco!

— Quando chega o resto da coluna?

— Não há resto … — pôde finalmente responder o alferes. — Isto é apenas uma pequena escolta militar.

Uma sombra de desânimo percorreu aqueles rostos resolutos. Então, era só aquilo, o auxílio que lhe enviavam? Duas dúzias de soldados, sob o comando dum alferes quase imberbe …

— Gaita! — segredou, para um dos civis da coluna, um dos ho­mens do Quitexe. — Que pode fazer, num vespeiro destes, um moci­nho assim?

— A quem é que o amigo chama «mocinho assim»? — disse o interpelado, também em voz baixa.

— Ao alferes — esclareceu o outro. — Ainda mal saiu debaixo das saias da mãe!

— Pois fique sabendo que é um tipo danado, aquele «mocinho assim!». Valente e decidido como os que mais o são!

Enquanto este curto diálogo se travava em surdina, a curta distância do comandante da coluna, mais perto dele outro civil per­guntava que malta era aquela que vinha num dos carros, de mãos atadas atrás das costas.

— Prisioneiros — declarou o oficial.

— Prisioneiros?! — exclamaram, trespassadas de espanto, várias vozes ao mesmo tempo.

— É verdade.

— Prisioneiros! — chasqueou um grandalhão, de cabelo já gri­salho. — Ora viva o luxo!

E novamente, agora os residentes do Quitexe, os civis opinavam que os assassinos de mulheres e crianças não mereciam o trata­mento reservado aos soldados inimigos. Tratava-se de criminosos comuns, e dos mais repugnantes. Conhecia o senhor alferes as abo­minações por eles praticadas? Sabia que na Fazenda S. Carlos tinham cortado em postas o mestiço Tainha, com a mulher e duas filhinhas gémeas de 3 meses? Que tinham retalhado o fazendeiro Raposo, depois de o castrarem? Que na Fazenda S. José tinham vio­lado até à morte uma pequenina de 6 anos? Que para as bandas de Caipemba haviam morto brancos amarrados, batendo-lhes na cara com os membros decepados dos seus filhos? Que tinham chegado a comer, grelhados, os fígados das suas vítimas? Bandidos assim podiam ser considerados «o inimigo», no sentido militar do termo? Ou eram apenas facínoras da pior espécie, menos humanos que as hienas, absolutamente indignos de viver?

Assim argumentavam os do Quitexe. Mas o alferes varreu tudo com duas palavras. Ele se encarregaria de decidir a sorte dos prisioneiros. Que o ajudassem antes naquilo em que o podiam ajudar: os seus homens estavam necessitados duma refeição quente e de umas camas onde dormir um pouco …

E logo a boa e brava gente do Quitexe franqueou as suas casas, os seus escassos víveres, tudo o que tinha.

À tarde, o alferes chamou o chefe do posto e comunicou-lhe que doze dos seus soldados, sob o comando do sargento, escol­tariam até Carmona os fugitivos encontrados perto de Vista Alegre e voltariam para o Quitexe, onde ficariam para reforço da defesa da vila. Ele, com o resto dos seus homens e os civis vindos de Luanda, iniciaria no dia seguinte a viagem de regresso. Entretanto, tinham de arrumar a questão dos prisioneiros, com excepção do dembo traidor, que seria transportado para Luanda.

Perante os olhares irónicos dos civis, agarrados à sua ideia de que «não valia a pena gastar boa cera com ruins defuntos», constituiu-se uma espécie de tribunal ao ar livre, no terreno fronteiro ao posto. Em cadeiras trazidas de dentro do edifício, sentou-se o alferes, ladeado pelo chefe do posto e pelo sargento. Dois soldados empurraram para a frente do júri um dos negros apanhados com as catanas ainda ensan­guentadas.

— Mataste brancos? — interrogou bruscamente o alferes.

— Matou, sim siô! — respondeu arrogantemente o bandido.— E também os mulatos e os bailundo do contrato cos brancos.

— Quantos mataste?

— Matou muitos! — disse o réu, num arreganho de orgulho feroz.

— E porque é que os mataste?

— Grande feiticeiro mandou…

— Os brancos que mataste tinham-te feito algum mal?

— Não, siô!

— Os mestiços que mataste tinham-te feito algum mal?

— Não, siô!

— Os bailundos que mataste tinham-te feito algum mal?

— Não, siô!

— Então, porque os mataste?

— Nosso chefe dembo mandou … Grande feiticeiro mandou …

O alferes calou-se. Toda a assistência emudecera, no espanto das cínicas declarações …

E foi quando chegou uma carrinha, vinda dos lados de Car­mona. Desceram dois brancos e um velho preto, com ares de cozi­nheiro ou criado antigo. Um dos brancos também era já velho e vinha todo esfarrapado, mostrando vergões sangrentos, por entre os ras­gões da camisa enxovalhada, no peito magro. Trazia à cinta, num coldre de couro de cerdo, um grande revólver «Colt». E os cabelos em desalinho. E uns olhos de alucinado …

— Que é isto aqui? — perguntou, acercando-se do ajunta­mento.

— Estão a julgar um terrorista — respondeu alguém.                    ‘

— E é mesmo um terrorista? — insistiu o ancião, franzindo a testa, como se lhe custasse a compreender.

— Dos autênticos. Já confessou ter matado muitos brancos. Então o velho avançou resolutamente para o facínora, rompendo através da assistência, bradando:

— Com licença!

… E desfechou o revólver na testa do bandido.

— O senhor está preso ! — berrou o alferes, indignado, cor­rendo a agarrar o velho por um braço.

— É um favor que me faz, meu alferes — disse o homem calma­mente. — Já não tenho casa, nem família, nem pão …

— Porque matou o prisioneiro? — tornou o oficial, já mais brando.

— Porque é dos que me queimaram a fazenda e cortaram às postas a minha mulher, o meu filho, a minha nora e os meus três netinhos … Venho de enterrar os bocados que sobraram da fome dos porcos … Prenda-me meu alferes, por favor! …

E  rompeu   a   chorar,   num  choro  alto,  sacudido  de  soluços, quase infantil.

Durante momentos, o moço oficial curvou a cabeça, em íntima e penosa meditação.

Depois, erguendo os olhos para o velho, disse: — Vá-se embora, homem! Vá-se embora! …

Já no caminho de regresso, os soldados galhofavam …

Tinham passado pelas fazendas da área do Quibaxe e Pango Aluguem. Por lá havia ficado a maior parte dos civis vindos de Luanda que, para aquelas bandas, encontraram as roças intactas, sob a guarda dos bravos e leais bailundos.

Seguiam agora de Pango Aluquem em direcção ao Ucua, no entroncamento com a estrada principal. E após todos aqueles dias por estradas do diabo e picadas do seu filho mais velho, sem topar mais terroristas além do pícaro bando do dembo que levavam preso, os soldados, de carro para carro, galhofavam …

— Eh! Manuel I — gritava o soldado de Amarante. — Eu não te dizia que esta guerra era uma vigarice?! Afinal, onde estão os terro­ristas ?

— Atão não levamos aí um cabecilha amarrado? — fez o outro.

— Valha-nos ao menos isso! — interveio o cabo. — Sempre é uma amostra …

— E se o resto é da mesma fazenda, não estão mal servidos de carrancas! — comentou aquele a quem chamavam Manuel. — Vocês já atentaram nas trombas do gajo? Safa, que para espantalho dos milhos, nem de encomenda!

— Eu ainda lhe não vi os dentes, a essa feia besta — acrescentou um de Nine. — Amorrinhou, logo que entendeu ter-se enganado na porta, e nunca mais comeu nem disse palavra. É de força!

Mas o soldado de Amarante teimava que, sim senhores, sempre levavam uma boa amostra de terrorista, mas apanhada numa arma­dilha, como ratinho inocente. E ele não estava satisfeito. Para ele, encontrar os terroristas, o que se chama «encontrar os terroristas», era apanhá-los na porca função, a brandir a catana ou de canhangulo aperrado …

— E ainda vos digo mais — acrescentou entusiasmado com o som da própria voz. — É por via disto que eu lhes ganhei uma raiva maior! Sempre pensei que fossem homens, c’os diabos! Que aparecessem a cortar-nos o caminho. Mas não: pelo visto, só se atrevem a cortar velhos, mulheres e criancinhas inocentes. Bastam duas dúzias de soldados para lhes amainar a sanha do ataque. Ora gaita!

— Gaita mas é prà conversa! — opinou o Manuel. — Meu pai costumava dizer «falai no mau, aparelhai o pau»! E acho que não é bom lançar os foguetes antes da procissão sair do adro. Não vá o diabo tecê-las e acabarmos todos por nos fartarmos de ver terroristas ao natural, de canhangulo, catana e tudo. Irra! Falemos de outra coisa!

— Eu bem sei do que me apetecia falar, meus filhos… — insinuou um de Ermesinde, em voz derrancada.

— De quê, infeliz? — perguntou outro, imitando-lhe o tom.

— Das terroristas! Dumas terroristazinhas jeitosas… para as passar pelas armas … Ai …

— Cala a boca, porco! — intimaram todos, por entre risadas mali­ciosas. — Não vês que estás a minar o moral das tropas?! …

Mas o «jeep» do alferes, como sempre na dianteira, mais uma vez estacou, junto duma grande árvore derrubada.

— Ó tu, que desejas ver os terroristas! — convidou sarcasticamente o Manuel. — À falta de melhor, toca a tomar o peso da «lembrança» que eles te deixaram no caminho! Anda, meu menino! Alomba, que é a tua vez. Eu fico de vigia às catanas …

O alvejado, mais alguns soldados de outras viaturas lançaram-se ao trabalho de remover o pesado tronco. Era o primeiro que encon­travam, desde Pango Aluquem. Sinal evidente da presença dos ban­doleiros na densa floresta envolvente. Mas já ninguém esperava que atacassem. Desde a saída de Luanda, por centenas se contavam as árvores que tinham arredado do caminho. E nunca os terroristas se haviam atrevido a aproveitar aquelas boas oportunidades de ataque. Matadores de mulheres e crianças; mais nada!

Assim pensava o Manuel, embora tivesse puxado uma bala ao cano da arma e permanecesse atento ao emaranhado da selva.

E foi quando, de repente, soou um tiro de canhangulo. Depois outro, e mais outro, e uma série deles seguidos …

Rapidamente, os soldados formaram o seu dispositivo de defesa. As pistolas-metralhadoras começaram a crepitar, logo reforçadas pelo forte ladrar da «Madsen» e pelos estampidos secos das carabinas.

Mas não viam ninguém. Disparados uns quinze tiros de canhangulo, um dos quais atingiu um soldado, de raspão num ombro, os terroristas não davam mais sinal de si. E, depois dumas rajadas à toa, em redondo, o alferes fez sinal de cessar fogo e aguardar.

Longos minutos se passaram naquela tensão horrível. Até que, do recesso da mata, se ouviu o soar trinado dum apito, daqueles usados pelos árbitros, nos desafios de futebol. E recomeçou o tiroteio dos canhangulos.

— Atira para ali! — veio dizer o alferes ao cabo que manejava a «Madsen», indicando-lhe determinado ponto.

O metralhador varejou raivosamente a zona apontada pelo oficial. É novamente os canhangulos se calaram. Um novo e enervante silên­cio caiu sobre aqueles poucos soldados, cosidos com a lama da picada, isolados no meio do vasto sertão e dos inimigos invisíveis.

E outra vez o diabólico apito: trri … rrr… rriu!

Os dedos dos vinte caçadores especiais acariciaram o gatilho das armas, olhando em volta com os olhos ansiosos, na esperança de avistar os próximos fogachos dos canhangulos … E, naquela ter­rível expectativa, o apito repetiu:

— Trri … rrr… rriu!

— Fora o árbitro! — berrou, então o soldado de Amarante.

E uma incentivei gargalhada de toda a coluna encheu o incomo­dativo silêncio(1).

Logo a seguir, estoiraram mais descargas de canhangulos.

— É dali! — bradou o alferes, estendendo a mão para um recanto da mata. — A eles!

E, seguindo o seu moço comandante, dez dos soldados lança­ram-se ao ataque, enquanto os restantes montavam guarda às via­turas.

Acossados no seu esconderijo por aquele pequeno grupo de bravos, os facínoras, largando catanas e canhangulos, debandaram. Não, porém, sem deixar alguns mortos e assinalar o sítio da torpe emboscada …

— Estás satisfeito, agora que já viste os terroristas ao natural? — disse o Manuel para o soldado de Amarante.

— Nem por isso… — respondeu o interpelado. — Eram tão poucos …

— Não será melhor dar um tiro neste maluco, meu alferes? — gra­cejou o Manuel para o oficial, que passava e tinha ouvido a conversa.

— Temos de poupar as munições … — respondeu o alferes no mesmo tom. E, após a excitação do combate, o seu rosto grave e sério abriu-se num sorriso de bom camarada …

Até ao Ucua foram atacados mais duas vezes. E uma terceira, já a poucos quilómetros da ponte do Sassa. Em todas o mesmo género de emboscada: uma vala profunda, dissimulada com grade de ramaria recoberta de capim e areia, ou um tronco atravessado no caminho. E, forçada com este ardil a paragem da coluna, começavam a chover os tiros de canhangulo de cima das mulembas frondosas ou do meio do capim mais alto do que um homem alto.

No segundo ataque, houve uma desgraça. O soldado de Ama­rante, quando se lançava ao assalto, rompendo bravamente por entre o emaranhado da selva, apanhou em pleno peito a carga dum canhangulo.

Ainda pôde balbuciar, apontando para a frente:

— Estão acolá! …

Mas, correndo a ampará-lo, o alferes viu logo como se escoava rapidamente a vida daquele valente com o sangue que lhe golfava do peito esfrangalhado. Quando o sentiu cadáver, cerrou-lhe piedosamente os olhos, encarregou dois camaradas de o guardarem e, a chorar de raiva e de pena, bradou aos restantes:

— A eles! …

Meteram-se a corta-mato, num ímpeto terrível, com um furor concentrado e vingativo. Bateram a floresta e o capim em todas as direcções. E, por onde eles passaram, foi como se passasse a jus­tiça de Deus …

Ao cabo de tantos dias tormentosos, a pequena coluna estava de novo em Caxito. Voltavam com três feridos (que uma ambulância imediatamente transportou para o Hospital da Tentativa) e com a saudade do camarada a quem tinham dado sepultura cristã no pe­queno cemitério do Ucua.

Tinham partido, decididos e bem treinados, mas bisonhos. Vol­tavam veteranos nesta guerra insidiosa de catana e canhangulo. Vol­tavam mais homens, inteiramente cônscios de que se batiam pela razão e pela justiça. Voltavam diferentes.

Sentado confortavelmente na varanda da residência do adminis­trador, enquanto aguardava o almoço com que a gente de Caxito quisera brindar aquela dúzia de bravos, o alferes, já depois dum banho reparador, ficara por momentos sozinho. E uma estranha modorra o tomara, como se, finda a enorme tensão em que se aguentara, na contínua vigília e excessivo esforço, refluíssem agora sobre si todas as fadigas, perigos, brutalidades e horrores daqueles dias …

Também ele voltava mudado. Diferente. Sabia agora que ingénuos eram os que supunham os terroristas movidos por ideais de emanci­pação política. Na verdade, nenhum outro sentimento os impelia, senão uma porca e animalesca ânsia de sangue, de pilhagem e de estupro. Agiam como bestas-feras, levados pela força diabólica do ódio racial, dos instintos desenfreados e do medo ancestral aos feiticeiros. Avançavam sob o efeito alucinante da liamba, massa­crando, violando, queimando, destruindo, tripudiando sobre cadáveres estripados, dançando entre o choro lancinante das crianças torturadas e o estertor de velhas e meninas violentadas até a morte.

Depois da tremenda peregrinação pelo calvário do Congo português, seguindo o rasto sangrento dos facínoras a quem na ONU chamavam «patriotas», o moço oficial compreendia agora o bramir de leão ferido, que haviam soltado os homens do Quitexe, do Negage, da Damba e de Carmona. O terrorismo em Angola era, efectivamente, um duplo crime. Crime repugnante dos que retalha­vam à catana as carnes de pobres criancinhas que traziam ao colo, porque os pais lhas haviam confiado. E crime igualmente repugnante daqueles que, de longe, excitavam os piores instintos de homens pri­mitivos, seduzindo-os com as mais grosseiras mentiras, para os lan­çarem depois, embrutecidos pelas drogas, contra as balas implacáveis das metralhadoras.

Recordava os cadáveres mutilados, caídos pelos terreiros das roças de Nambuangongo; e aquele pobrezinho bebé, degolado ao pé da sua branca alcofa; e aquele moço tombado com um lanho de catana na testa, à entrada da varanda da sua casa, por detrás dum monte de terroristas abatidos enquanto lhe não faltaram as munições; e o dembo traidor que confundira os «caçadores especiais» com o pro­metido auxílio dos chefes de além-fronteira; e o velho colono, meio louco de dor, que desfechara o seu velho revólver na cabeça dum terrorista em julgamento; e o peito aberto e sangrento do soldado de Amarante; e, nos últimos combates, a raivosa arremetida contra os facínoras, por entre o capim verde e ondulante como o manto real da morte …

— Sono? — perguntou, de repente, o administrador que voltava.

— Não — contestou o alferes. — Cismava …

— Nalguma bonita moça deixada em Lisboa? …

— Antes fosse…  Mas trago o pensamento cheio do que vi por esses matos …

— E que pensa de tudo isto?

— Que andam feras à solta … É preciso abatê-las!

— Nem todos assim julgam.

— É porque não viram o que eu vi …

— Deixemo-nos agora de coisas tristes! Vamos almoçar!

O almoço não decorreu com a alegria que seria de esperar em soldados regressados da «frente». Na lembrança de todos estavam ainda muito vivas as imagens do camarada morto e os gemidos dos feridos que já deviam ter chegado à Tentativa …

Por isso eram breves e concisas as respostas dadas à compreen­sível curiosidade dos homens do Caxito.

— Encontraram terroristas?

— Bastantes.

— Mataram muitos?

— Alguns.

— Há sobreviventes em Nambuangongo?

— Só vimos cadáveres.

— E a gente do Quitexe, do Ucua e do Quibaxe?

— Aguentam-se.

E a conversa não passava deste cruzar de perguntas e respos­tas, curtas e secas, sem calor e sem verve. Faltava ali — todos o sentiam — a alegria comunicativa de alguém que jazia agora, sob a terra húmida dum cemitério sertanejo, com o peito esburacado pela ferralha dum canhangulo disparado da sombra …

O prato de substância era leitão assado.

Quando o bicho apareceu, bem alourado e apetitoso, entre picles e raminhos de salsa, com a tradicional batata entalada na boca, o alferes mal ouviu o administrador que o convidava a servir-se. É que no seu cérebro imediatamente surgira, nítida e horrível, a cena do terreiro daquela roça, onde uma vara de porcos, incluindo uma leitoa enorme acompanhada dos seus bacorinhos, chafurdava nas vísceras dos brancos assassinados …

— Sirva-se, meu alferes! — repetiu o administrador.

— Muito obrigado!  Não me apetece mais nada …

O cabo limitou-se a fazer para o criado que trazia a travessa um gesto negativo. E todos os soldados recusaram o pitéu, alguns sem conseguirem esconder um trejeito de nojo.

— Mas então?! — estranhou um sujeito baixote, já entrado em anos, de grande bigode grisalho a ensombrar-lhe a boca firme e o queixo voluntarioso. — A tropa não gosta de leitão assado?!

— Gostamos, sim, senhor! — declarou o cabo. — Mas, nesta altura, lembra-nos cá uma certa coisa …

O homem de Caxito ia a investigar que coisa era essa que lhes lembrava o leitão, quando o alferes o interrompeu:

— Se não estou a confundir caras, quando por aqui passámos a caminho de Nambuangongo, foi o senhor que me perguntou o que tinha eu ouvido dizer em Lisboa sobre os acontecimentos de Angola; lembra-se?

— Lembro-me muito bem! — confirmou o homem. — Pergun­tei-lhe se era verdade que, em Lisboa, havia quem responsabilizasse os cafeicultores pelo terrorismo. Por sinal que o meu alferes não gostou da pergunta. Nem me respondeu …

— Eu também tinha as minhas ilusões, meu amigo …

— E agora ?

— Agora conheço a realidade …

E, voltando-se para o administrador, passou a falar doutra coisa …

(1) Reproduzo aqui, pelo seu alto poder expressivo, a exclamação autên­tica dum dos nossos soldados, durante o combate de Mucondo, na arrancada para Nambuangongo, segundo o testemunho presencial de Rui de Correia de Freitas.

É o fim da picada!

Cuimba é um dos seis municípios da província do Zaire no norte de Angola, e recebeu há tempos a visita do governador provincial com sede em M´Banza Congo.
Cumprindo o seu dever de governador ele tem contactado as populações, inteirando-se dos seus anseios e necessidades e consultando os sobas locais no sentido de proporcionar melhores meios aquela gente.
Lá seguia o governador com o seu séquito em viaturas picada fora, e a partir de certa altura tiveram de parar e caminhar a pé durante 30 km para chegar ao destino, tal o estado da via.
É de louvar a abnegação deste homem, mas o que ele deveria fazer era convidar o grande soba de Angola, JES, para fazer consigo uma dessas viagens, para que ele conhecesse verdadeiramente o país que governa há 31 anos.

A notícia pode ser vista AQUI.

Luta pela sobrevivência

Em Angola, há muito que as armas se calaram mas no território há zonas onde a luta dos seus habitantes para garantirem a sua sobrevivência é agora contra os animais selvagens que destroem as suas lavras e muitas vezes matam seres humanos.

A coberto do capim alto, os animais  fazem esperas para atacar os humanos e as populações já têm medo de sair para os campos tratar das suas terras, e por isso já passam fome.

Num país tão rico como Angola, estas notícias dão que pensar, mas é o que tenho dito: “Angola é Luanda, o resto é paisagem”. Apesar  da comuna de Licua, Mavinga se situar nas terras do fim do mundo, extemo sul, o chamado “bico de Angola”, os seus habitantes são cidadãos de primeira e como tal deveriam também ter direito ao desenvolvimento que tarda em chegar.

Para ler o relato desta notícia arrepiante, clique AQUI.

Mário Mendes

Olé, Olé!

Na ilha Terceira, as touradas à corda remontam ao século XVI, porque os primeiros povoadores eram de províncias onde havia a tradição taurina e depois também pela presença dos castelhanos no período compreendido entre 1580 e 1640, que foram sempre os maiores aficionados da festa brava.

Assim, desde Maio a Outubro não há freguesia que se preze que não inclua nos seus festejos tradicionais a tourada à corda, tão do apreço dos terceirenses e dos turistas que visitam a ilha. Quando em 1971, estive no BII17, em Angra do Heroísmo, tive a oportunidade de assistir e também correr à frente do touro, na freguesia da Ribeirinha.

Mais popular na ilha Terceira, as touradas porém, também se fazem noutras ilhas, como é o caso de São Jorge. E não é que o nosso companheiro, Manuel Fernando Quadros, pescador de profissão, agora com 6o anos de idade, ainda está em forma e não se sai nada mal nas “faenas” que executa perante tão “corpulento” animal! As imagens que se seguem provam o que digo.

NR: O Quadros é o que está com a corda na mão. Os meus agradecimentos, pela disponibilização das fotos, à sua filha, Sandra Quadros.

Mário Mendes

O vídeo que se segue mostra uma tourada à corda:

Maiores e Vacinados.

No ano do cumprimento dos 20 anos de idade todos os mancebos iam à inspecção militar e esse dia era também designado como o dia das “sortes”, para saber se iam à tropa ou não.

Feita a inspecção militar num quartel próximo ou na Câmara Municipal, a rapaziada regressava à sede da sua freguesia para um dia de festa com muita animação, percorrendo as ruas ao som de concertinas e pandeiretas. Os que tinham ficado “apurados” traziam na lapela uma fita verde e vermelha, outros traziam uma fita amarela, que queria dizer que tinham ficado “de espera” (teriam que voltar à inspecção no ano seguinte) e finalmente aqueles que traziam uma fita branca, porque tinham ficado “livres”.

Não ir à tropa no tempo da guerra colonial era uma grande sorte, mas em tempos anteriores, a tropa significava para muitos a possibilidade de fugir à vida difícil que representava o trabalho nos campos e por isso era uma enorme alegria o facto de terem ficado “apurados”. Eram outros tempos e como se dizia na altura, a tropa preparava a rapaziada para a vida. Na verdade os primeiros anos da maioridade eram passados na tropa, (eu cumpri lá 4 aniversários, do 21º ao 24º).

A minha inspecção ocorreu no ano da graça de 1969 e com a guerra em África no auge, já todos sabíamos o que nos esperava e por isso não houve “livres”, nem “de espera”, todos (11 no total) levaram o rótulo “apurado”. No ano seguinte, já maiores e vestidos de militar não mais pudemos “fugir com o rabo à seringa”, ganhando assim o estatuto de “maiores e vacinados”.

A primeira “picadela” aconteceu no dia 23/08/1970, no RI5, Caldas da Rainha, contra a varíola. O reforço desta vacina foi em Angola, a 09/08/1973, cerca de 2 meses antes de regressar.

Em 20/07/1971, no RI11, Setúbal foi a vez da vacina contra a febre amarela, 11 dias antes do embarque.

A outra vacina que consta do certificado é a da cólera, que teve a primeira inoculação em 31/01/1972 e reforços em 16/02/1972 e 04/09/1972, todas tomadas em território angolano.

Mário Mendes

MNF

Cecília Maria de Castro Pereira de Carvalho Supico Pinto ( nasceu em Lisboa a 30 de Maio de 1921), conhecida popularmente como Cilinha, foi a criadora e presidente do MNF (Movimento Nacional Feminino), uma organização de mulheres que durante a guerra colonial prestou apoio moral e material aos militares portugueses. Nesse cargo atingiu grande popularidade e uma considerável influência política junto de Salazar e das elites do Estado Novo. Visitou as tropas em África e promoveu múltiplas iniciativas mediáticas para angariação de fundos.

Sinopse

«Dei tudo o que tinha. O Movimento foi a minha vida! (…) Os militares e o trabalho no Movimento foram, de certo modo, os filhos a que me dediquei.» Em 1961, Cecília Supico Pinto fundou o Movimento Nacional Feminino. Uma organização independente do Estado que congregava as mulheres portuguesas no auxílio moral e material aos soldados que lutavam nas antigas colónias portuguesas. Durante treze anos, Cecília Supico Pinto multiplicou-se em viagens entre a metrópole e as «províncias ultramarinas», ameaçadas pelos movimentos independentistas. Cilinha, como era conhecida, vestiu o camuflado, dormiu em tendas de campanha, esteve debaixo de fogo e embrenhou-se no mato de África, mesmo quando um acidente a obrigou a andar de muletas e com um pé engessado. Tudo em nome de uma missão. Na bagagem levava mantimentos, recordações e anedotas para contar aos soldados portugueses. Cilinha foi a primeira-dama do Estado Novo de Salazar, «um verdadeiro príncipe», que apreciava a sua alegria, ria-se das suas anedotas, admirava a sua frontalidade e escutava os seus conselhos. Garante que, muitas vezes, o aconselhou a ir a Angola. O presidente do Conselho resistiu sempre. Elogiada por muitos, mas principalmente criticada por outros tantos.

A instituição dos aerogramas e das madrinhas de guerra foram obra do MNF, e semanalmente passava no RTP um espaço de notícias com o nome “bate-estradas”, como eram designados os aerogramas.

Outra senhora muita activa do MNF foi Maria Estefânia Anacoreta. A RTP emitiu há um ano atrás um extraordinário documento histórico com o título de “A Voz da Saudade”.

«Há mais de 40 anos, em plena guerra colonial, uma mulher de Santarém percorreu durante sete meses quase 20 mil quilómetros pelo mato e a floresta de Angola. Foi dar a ouvir, a mais de mil soldados do seu distrito, mensagens gravadas pelos familiares. O seu nome era Maria Estefânia Anacoreta.
Esta é a sua história.
Tinha então 47 anos. Com um gravador de som, percorreu o distrito a pedir aos familiares de soldados a combater em Angola (mães, esposas, filhos, namoradas e até madrinhas de guerra) que gravassem mensagens para ela própria reproduzir à frente dos militares. Assim fez, numa épica viagem pelo interior de Angola que durou seis meses, por avioneta e por estradas e picadas. O documentário evoca as emoções que este anjo da guarda despertou junto desses soldados, ao aparecer-lhes de surpresa nos aquartelamentos, matando-lhes as saudades e transmitindo-lhes um sentimento de ânimo e de esperança.
Regressada a Portugal, tentou fazer o mesmo para quem combatia na Guiné, voltando a calcorrear o seu distrito a recolher novas mensagens, mas o estado da guerra naquela colónia impediu-a de partir, e os homens de Santarém aí estacionados nunca ouviram as gravações dos seus familiares.
A protagonista desta história, que conservava consigo o mesmo gravador portátil utilizado na época, assim como as mensagens que recolheu para os soldados na Guiné, participou na produção do documentário, nomeadamente indo procurar, ao fim de quase quatro décadas, alguns desses antigos militares e pondo-os a ouvir pela primeira vez o som dos pais já falecidos ou dos filhos então acabados de nascer.
Maria Estefânia Anacoreta faleceu em 8 de Janeiro de 2008, aos 89 anos de idade, poucas semanas depois da finalização deste documentário.»

O papel dos aerogramas

A correspondência entre os militares e as suas famílias, amigos, namoradas e madrinhas de guerra era realizada através deste suporte em papel designado “aerograma”. Os de cor amarela eram destinados ao correio entre as províncias ultramarinas e a metrópole, enquanto os de cor azul faziam o percurso inverso.

Dobrados sobre si mesmos, guardaram sonhos e promessas de amor, outras vezes medos e fantasmas. Foram o elo de ligação entre a distante e quente África e o cantinho mais recôndito do Portugal continental e insular.

Em qualquer ponto de África onde houvesse militares lá chegavam os aerogramas, também designados por “bate-estradas” ou “corta-capim” embora chegassem via aérea através dos pequenos aviões militares Dornier (DO).

Apesar de a morada do militar ser definida por código, o chamado SPM (Serviço Postal Militar) a entrega do correio nunca falhou, mesmo tendo em conta uma média de 10 toneladas por dia de correio que o SPM tratava e enviava. O indicativo postal do SPM era composto por 4 dígitos e nos primeiros tempos de guerra os três primeiros definiam a unidade militar e o último a província ultramarina. Moçambique tinha o 4, Angola o 6 e a Guiné o 8. Só com esta definição do último dígito era fácil ao SPM em Lisboa encaminhar o correio para a respectiva província. Quanto aos três primeiros dígitos e dado que a mobilização de unidades em África cresceu muito, houve a necessidade de rapidamente se alterar o critério inicial, mas mantendo sempre o último dígito definidor do território de destino.

Mas o correio não nos trazia só aerogramas, por vezes também vinham algumas encomendas mais pesadas. Essas eram sempre as mais desejadas. Lembro-me que uma vez a família me mandou uma lata com meia dúzia de paios conservados em azeite, que me proporcionaram e aos amigos uns pequenos-almoços e lanches especiais.

Nesta foto, na base táctica da Cecília (2/11/1971), no planalto do Luaia, província do Uíge, Angola, à porta da barraca de lona que foi a nossa “caserna” durante 6 longos meses, na cabana-escritório, coberta por ramagens que permitiam alguma sombra, estou a escrever um de entre as centenas de aerogramas que escrevi durante a comissão. .

NR: Quem quiser conhecer em detalhe  a história do SPM não deixe de ler o livro “História do Serviço Postal Militar” de Eduardo Barreiros e Luís Barreiros.

Mário Mendes

Liamba usada como produto de beleza

“Dadi Beleza” é a alcunha do cabeleireiro de um salão de beleza, no Mártires do Kifangondo, onde algumas clientes preferem que os seus cabelos sejam tratados com produtos naturais feitos à base de frutas, legumes e ervas como a liamba. O cabeleireiro, que diz ser angolano, explicou a O PAÍS que aprendeu a dominar as técnicas para transformar a liamba em diversos tipos de produtos de beleza na República Democrática do Congo (RDC), onde residiu a maior parte da sua vida.

As composições que utilizam para tornar as mulheres mais bonitas foram descobertas por botânicos de nacionalidade congolesa e nigeriana e actualmente são utilizadas em vários países africanos. “Pude constatar nos outros países que este produto faz muito sucesso porque não prejudica o couro cabeludo. Por esta razão, achamos conveniente trazê-lo para Angola a fim de não só atender as cidadãs estrangeiras como as angolanas que optam por este cosmético”, esclareceu. Para ultrapassar as inúmeras dificuldades que encontra para se comunicar em português, o jovem que exerce esta actividade em Angola há dois anos, não deu muitos rodeios para mostrar a nossa equipa de reportagem o estado em que fica a liamba depois de sofrer as transformações. Consciente que não existe no nosso país nenhum pressuposto legal que estabeleça as circunstâncias em que este estupefaciente deve ser utilizado, os cabeleireiros, cada um a sua maneira, criam a sua táctica para mantê-lo distante do olhar dos curiosos. É com base nisso que, para escapar das autoridades policiais, no estabelecimento do Dadi Beleza o cosmético não é exposto na montra como acontece com os industrializados e é escondido num local que considera ser seguro. O jovem cabeleireiro contou que na lista de clientes está a sua mãe que vive no Benfica e se desloca com frequência ao Mártires do Kifangondo para tratar o cabelo com liamba. A escolha deve-se ao facto de o cosmético caseiro permitir que os fios de cabelo branco que insistem em aparecer, em função da idade, permaneçam pretos por um período de tempo superior ao proporcionado pelos produtos industrializados. “Cada pessoa tem o seu gosto, há algumas que preferem os cremes Europeus, Americanos ou Asiáticos e há outros que optam pelo tratamento feito com material preparado por nós, os africanos”, explicou.

Para além da liamba, que é uma erva cuja venda e cultivo é ilegal em Angola, o nosso interlocutor declarou que recorrem ao alho, a cebola, a pitela, o avo e frutas como abacate e banana para cuidar do coro cabeludo das suas clientes.
A concepção do creme feito com o estupefaciente varia em função do tipo de cuidado que a cliente pretender, pelo facto dele não só tornar os cabelos leves em rijos, os finos em grossos como contribui também para o seu rápido crescimento e impossibilita a sua queda. De modos a evitar que a fórmula seja tornada pública e seguida pela concorrência, Dadi limitou-se a dizer que a composição que faz o cabelo crescer é feita de liamba torrada e pisada, com ovo, abacate e cebola. “A prova de que este creme dá saúde ao couro cabeludo e provoca o efeito esperado nas nossas clientes é que elas regressam sempre felizes e não apresentam nenhuma reclamação”, assegurou o cabeleireiro.

NR: Se em 1971/72/73, soubéssemos destas propriedades da liamba angolana, certamente não teríamos tantos “descapotáveis” como os que temos na C.Caç. 3413.